sexta-feira, 7 de outubro de 2011

DEVERES, SONHOS E PAIXÕES - Capitulo 4

Capitulo 4

Quando avistou a placa agora conhecida, Julia sentiu uma enorme alegria se infiltrar na sua mente. Nos últimos meses vinha ansiando por isto, embora o sentimento de expectativa fosse salpicado pela insegurança e o medo do novo, achava que era o que queria. Fora uma mudança cuidadosamente calculada, mas que causara espanto. Ela era uma das profissionais mais promissoras do hospital, vinha trilhando um caminho que parecia fadado ao sucesso. Em pouco tempo estaria na chefia do setor de emergência, mas jogara tudo paro o alto, e ainda rompera com Rodrigo. Ele era o melhor partido da cidade, e parecia certo que fossem se casar e ter filhos... E de repente ela rompera com tudo, que loucura! Cidade pequena, fazer medicina de família! Em pleno século vinte e um?
Seus pais foram discretos, ofereceram o apoio incondicional que é uma atitude habitual dos genitores, mas não puderam deixar de se espantar. E ainda mais com o fim do noivado, parecia tão certo que ela e Rodrigo fossem se casar. Na universidade e no hospital o comentário geral era de que ela estava fazendo uma bobagem. Era uma loucura, abandonar um serviço com o porte do Hospital Universitário, com todos os recursos onde se podia exercer medicina de alto padrão para trabalhar numa cidade pequena, e ainda por cima teria que fazer clínica geral! Era impossível atuar somente na cardiologia, a cidade não comportava uma especialização tão específica.
Ela havia realizado toda a pesquisa nos últimos meses, sondara o local, sabia que o único clinico geral da cidade era um velho médico que se sentira agradecido em dividir o trabalho com a colega que chegava, estava cansado da labuta e há muito necessitava diminuir o ritmo, ele próprio precisava de um cardiologista e foi o primeiro paciente da Dra. Júlia o que contribuiu para que a sua reputação rapidamente se espalhasse. Não fora difícil estabelecer parceria com o ginecologista e o pediatra, e estava completa a equipe médica da cidade.
Exatamente como Dominic havia dito não fora difícil comprar a cabana da colina. E ela escolheu um sobrado na praça central para montar o consultório. Era um imóvel do inicio do século que ficara abandonado e precisava de alguns reparos. Conseguiu contratar mão de obra local o que facilitou a tarefa. Ficou impressionada com o fato de não ter cruzado com Dominic em nenhuma de suas visitas a cidade, haviam se desencontrado. Ela se sentira aliviada, mas ao mesmo tempo frustrada, ainda podia se lembrar do arrepio na pele quando estivera em seus braços na noite em que eles jantaram no Guet’s. Mas essa onda de desejo se chocava com a sensação de fúria que a inundava quando se recordava da última conversa que eles tiveram pouco antes que Julia partisse.
Ela se dirigiu imediatamente para a cabana, novamente foi recebida na cidade com as gotas de chuva, o céu cinzento e o vento ruidoso agitando as árvores na colina. Foi uma satisfação perceber que valera a pena ter pagado um pouco mais caro e preferido o Jipe com tração nas quatro rodas, de outra forma teria dificuldades de subir até em casa. Sua casa! Ainda sentia uma sensação estranha ao pronunciar estas palavras, ainda não parecia real. Sabia que levaria algum tempo para se sentir realmente em casa, que seria necessário mais do que se instalar ali, colocar móveis e as suas relíquias seria necessário construir dia após dia a intimidade com este novo lar. Mas estava ansiosa pela experiência, mesmo que amedrontada, não podia esconder o desejo de que desse certo. Era a maior ousadia de toda a sua vida.
Tão logo estacionou o Jipe deixou o corpo relaxar e emitiu um longo suspiro, só agora percebera como estivera tensa ao longo de toda a viagem, com medo e expectativa de que algo desse errado, ou talvez com a esperança de que na última hora alguém aparecesse para lhe dizer o que fazer. Só agora admitia que estivera pensando nisto nos últimos dias, em alguém que lhe desse ordens para parar, interromper aquela loucura e retornar para o seu posto, assumir o plantão, atender no ambulatório e parar com toda aquela fantasia de cabana na colina, medicina de família e vida pacata do interior. Mas, ninguém aparecera e então não lhe restava alternativa, tinha que ir em frente, fazer o que estava preparando há meses...
Parecia um sonho, outra vez observou encantada a chuva cessar, o céu desanuviar e o sol aparecer pálido no horizonte, e... Mais uma vez lá estava ele, o seu arco-íris! Terminando bem em cima da sua cabana, o seu pote de ouro! Num impulso saltou do carro e ergue as mãos para o céu numa prece silenciosa, nunca se sentira tão bem em toda a sua vida! Foi com uma alegria redobrada que entrou na casa, e mesmo toda a bagunça das coisas espalhadas por todos os cantos não foi capaz de diminuir a sensação de bem estar que estava sentindo, nem mesmo o cansaço da viagem foi capaz de incomodá-la, queria começar a colocar tudo no lugar, arrumar todas as suas coisas, queria começar a senti-la como sua. Sua casa!
Ela achou melhor começar pela cozinha afinal seria ótimo fazer a sua primeira refeição em casa. E foi como confirmar todas as suas expectativas quando Julia abriu a janela sobre a pia, a sua frente uma paisagem cinematográfica se descortinou. As colinas verdes estendendo-se a perder de vista, o céu de um azul jamais imaginado, o sol brilhando majestoso e colorindo todo o quadro com uma poeira dourada e projetando sombras nas árvores a margem do riacho que corria ali perto. Podiam-se ver outras casinhas graciosas espalhadas ao redor e bem ao fundo a grande casa, a sede do Haras Firenzze. Na extensa planície que ficava do outro lado do rio, alguns cavalos pastavam preguiçosamente dentro de círculos delimitados por cercas brancas, fazendo com que tudo ali parecesse uma pintura num quadro rural.
A cozinha não era muito grande, mas a divisão do espaço fora muito bem executada, fogão, geladeira, pia, um armário robusto e ainda sobrava espaço para uma bancada privilegiadamente situada embaixo da janela, e uma pequena mesinha de madeira que comportava quatro pessoas para uma refeição caseira e aconchegante. Do lado contrário a janela quase camuflada pelo armário uma sólida porta de madeira se abria para uma dispensa modesta, porém funcional. Vistoriou o espaço percebendo que ela havia sido razoavelmente abastecida e anotou mentalmente que teria que agradecer a secretária da imobiliária que com certeza era a responsável por aquilo. Retirou da caixa a máquina de café expresso que era um dos seus xodós, posicionou-a na bancada e ligou a tomada.
Enquanto aguardava a água esquentar começou a desencaixotar as xícaras, sentiu a boca salivar ao imaginar o líquido preto e forte que era uma de suas paixões. O aroma agradável começou a se espalhar pela aconchegante cozinha ao mesmo tempo em que as batidas soaram na sua porta. Ela foi pega de surpresa não estava esperando por ninguém, e então sentiu o coração palpitar descompassado e uma contração revirar suas entranhas, será? Concentrou todas as suas forças para afastar este pensamento. Não podia acreditar que estivesse criando expectativas de vê-lo, era um grosso! Caminhou até a porta da frente e se deparou no caminho com uma mulher alta, morena com os mais belos olhos verdes que já encontrara. Ela abriu um sorriso deslumbrante e estranhamente familiar quando avistou Julia.
'-Olá, seja bem vinda!' Exclamou cheia de entusiasmo a morena estonteante.
'-Olá!' Julia respondeu fazendo um esforço quase sobre-humano para não parecer tímida.
Rafaela não pode deixar de perceber o ar de espanto naqueles olhos azuis e procurou tranqüilizá-la.
'-Sou Rafaela, da imobiliária. Passei para saber se esta tudo ok!, Se esta precisando de algo?'
Enquanto falava a mulher alta foi entrando na casa e se dirigindo a cozinha. Antes que Julia pudesse emitir algum comentário ela colocou uma das xícaras na máquina que estava esquentando e acionou o botão para preparar um expresso. Julia ainda estava atordoada, aquela mulher invadira a sua casa e sem a menor cerimônia estava manejando o seu expresso, exibindo aquele sorriso familiar, de onde ela conhecia aquele sorriso? Não conseguia se lembrar?!
'-Hum! Esta tudo bem, tudo ok!'
Mas Julia não conseguia deixar de pensar que estava agindo como uma idiota, com certeza estaria com uma cara de boba. Não que estivesse incomodada ou achando ruim, mas ficara impressionada com a desinibição daquela mulher, jamais seria capaz de uma atitude como aquela. Rafaela percebeu o desconforto de Julia e procurou controlar a situação.
'-Oh, desculpe! Eu invadi a sua casa e já estou mexendo nas suas coisas, mas eu sempre quis usar uma dessas!'
Como um pedido de desculpas ela ofereceu a Julia a caneca com o café quentinho que acabara de preparar, acompanhada do seu mais adorável sorriso, enquanto colocava outra xícara na maquina. Para quebrar o gelo e tentar parecer um pouco menos idiota Julia resolveu abrir a boca.
'-Eu tenho que te agradecer esta tudo ótimo. Você foi de uma eficiência impar e me poupou muito trabalho'.
Rafaela soltou uma gargalhada e mais uma vez Julia achou que o som lhe era familiar.
'-Eu gostaria que o patife do meu chefe ouvisse isto, quem sabe não me daria um aumento?'
'-Eu posso formalizar o agradecimento...'
'-Não se dê ao trabalho, o Renato me considera perfeitamente dispensável, aliás, eu nem sei por que continuo ali. Acho que é só porque gosto de lidar com pessoas e o único outro lugar da cidade aonde eu poderia ter isto seria no Guet's'.
Desta vez Julia pensou rápido, sua habilidade aguçada de chefia e liderança percebeu a situação com clareza e ela deu o bote com habilidade.
'-Eu poderia fazer uma proposta vantajosa se você quisesse vir me ajudar no consultório?'
'-No seu consultório?'
Julia concordou com a cabeça e sorriu por dentro, mais uma vez acertara em cheio e tinha certeza de que estaria fazendo uma excelente contratação.
'-Vou precisar de uma secretária, e acho que você é a pessoa ideal. Comunicativa simpática e gosta de lidar com pessoas'.
'-Puxa, você fala sério? Eu adoraria!'
'-Então teremos que falar com o seu chefe'.
'-Eu vou fazer isto agora mesmo, tchau!'
Antes que Julia pudesse fazer ou falar qualquer coisa a outra mulher já havia partido. Acabou calmamente de tomar o seu café e completou a arrumação da casa. Já era tarde quando ela terminou o banho e sentia-se exausta quando caiu na cama e não demorou a adormecer.


***

Ela acordou na manhã seguinte se sentindo renovada. Uma noite de sono naquele lugar agradável era suficiente para fazer qualquer um renascer. O primeiro pensamento que veio a sua cabeça foi 'felicidade!', há muito tempo não se sentia tão feliz! Buscou na memória e se recordou de uma manhã de Natal há muitos anos quando ganhou a sua primeira bicicleta, também se sentira assim... Uma alegria gratuita e desinteressada, simplesmente ver um sonho se realizar. Deu uma geral pela casa e constatou que as coisas estavam em seus devidos lugares. Entrou no chuveiro e aproveitou a delicia de uma ducha pela manhã, quando terminou de colocar o vestido verde com estampa delicada de flores estava se sentindo fresca e desperta e também morta de fome.
Enquanto preparava o café na sua maquina de expresso, constatou satisfeita que a cozinha era pequena, mas aconchegante e um sorriso espontâneo se abriu em seu rosto, enquanto Julia apreciava a paisagem situada atrás da cabana. O rio, as árvores, as colinas ao fundo com o gado pastando e a cerca branca que delimitava o terreno do Haras Firenzze aumentou a sua sensação de prazer ao se lembrar que poderia fazer as refeições todos os dias apreciando esta paisagem, era o paraíso! Quando terminou de tomar o café com torradas Julia recolheu todo o vasilhame, tirou a toalha e posicionou o vasinho com as flores no centro da mesa, lavou a louça, enxugou e guardou tudo. Permitiu-se ficar mais um tempo em frente à janela admirando o seu paraíso. Estava se sentindo uma privilegiada e foi com um novo sorriso que aspirou o perfume das flores que ficavam no jardim embaixo da janela.
Embora o aroma fosse agradável ela se recordou mentalmente que o jardim estava castigado. Seria uma maravilha dar um jeito naquilo, ela adorava plantas e tinha jeito com elas. Começou a planejar mentalmente as mudanças que teria que fazer, as flores que escolheria para plantar, um banquinho... Gostou da imagem que se formou em sua cabeça, tiraria as manhãs de domingo para trabalhar em seu jardim, teria que providenciar as ferramentas, as sementes, o humo... Teria que dar um jeito na cerca e no portão também estavam precisando de uns reparos e ela achou que poderia pintá-los com uma cor mais alegre, que refletisse melhor o seu estado de espírito. Não podia esquecer também do caminho que ligava a estrada à cabana, embora o piso de terra batida contribuísse para o ar pitoresco da paisagem, estava impraticável e era inviável no clima instável daquela terra, teria que pensar em alguma coisa...
Julia sabia que poderia permanecer ali, na sua cozinha, fazendo planos para a reforma do jardim indefinidamente, mas olhou no relógio. Dez e meia! Precisava descer até a cidade e levar todas aquelas coisas para o seu consultório, tinha que começar a colocar as coisas em ordem por ali, não queria demorar muito para começar a atender. Pegou a bolsa e desceu cantarolando ao volante do jipe vermelho.


***

Ficou surpresa quando as pessoas a cumprimentaram na cidade. Era uma forasteira, uma estranha ali, mas as pessoas pareciam dispostas a recebê-la de forma amistosa, que descoberta espantosa! Não a conheciam, não sabiam quem ela era e o que viera fazer ali, e ainda assim percebeu a sinceridade descontraída nos cumprimentos que recebeu. Voltou a se espantar, quando ao estacionar e descer do carro percebeu a aproximação de voluntários que imediatamente se dispuseram a ajudá-la a descarregar o que havia no jipe. Não foi preciso pedir, eles foram chegando, e em alguns minutos tudo estava dentro do sobrado, ela se despediu deles com um agradecimento sincero e espantado, quando todos aqueles homens se colocaram a disposição para ajudar se houvesse outra vez a necessidade de braços forte. Julia se sentiu uma idiota por não ter um café ou qualquer outra coisa para oferecer, e prometeu a si mesma que no próximo dia não estaria desprevenida.
Quando voltou para casa no final da tarde já tinha uma lista de todas as coisas que ainda precisaria para se instalar em definitivo. Era preciso completar a decoração do consultório, seria importante arranjar um arquivo espaçoso, pois teria que guardar os prontuários de todos os pacientes. Ela tinha terminado de tomar banho e vestira um conjunto de malha de cor esverdeada bastante surrado e gasto pelo tempo, sentindo-se deliciada com a perspectiva de simplesmente ficar em casa numa noite chuvosa como aquela. Levou uma tremenda surra para conseguir acender a lareira, e enquanto praguejava esperando o fogo pegar se recordou das instruções de Rafaela, ela colocara fogo ali na manhã que Julia chegara com tremenda facilidade. Utilizou o saca-rolha que havia ganhado de Danilo há alguns anos atrás para abrir uma garrafa de tinto Argentino de ótima safra, sentou-se no chão e começou a degustá-lo com prazer.
A sensação agradável de aconchego inundou seu coração e fez seus olhos ficarem úmidos. Jamais imaginou que pudesse apreciar um momento de pura simplicidade como aquele. Uma cabana, uma noite chuvosa, o fogo ardendo na lareira, um delicioso vinho e o prazer da sua própria companhia. Estava surpresa, agradavelmente surpresa por não estar se sentindo solitária. Era delicioso e reconfortante ficar ali, deitada, olhando o lento bailar das chamas em sua casa... Estava experimentando uma sensação completamente nova... Aconchego... Conforto... Liberdade... A sensação da madeira fresca e rígida comprimindo suas costas acendeu uma idéia em sua mente. Seria preciso encontrar um tapete, grosso, felpudo e fofo para forrar o chão de tábua corrida e poder se deitar em frente a lareira numa noite como aquela. Ficaria perfeito!


***

Enquanto perambulavam pelas lojas de antiguidades dispostas ao longo da avenida na pequena Vila Rica, Julia aproveitava para apresentar a uma eufórica e agitada Rafaela, todas as variações dos honorários médicos que ela já definira após conversar com os outros colegas que atendiam na cidade. Quando elas entraram naquela imensa loja situada na margem esquerda da rua ela ficou paralisada. Foi a primeira coisa que Julia viu, e era enorme! Linda! Absolutamente perfeita! A madeira escura e grossa recortada como na marcenaria grega fazia parecer que ela saíra diretamente das bibliotecas da antiga e lendária Alexandria. Era perfeita! E quando ela se aproximou atraída pela tentação de passar a mão e sentir a solidez da madeira e o aroma da peça antiga foi transportada para um cenário imaginário, como se estivesse num set de filmagem ou numa peça teatral. Podia ver com clareza a estante cobrindo toda a parede do segundo quarto em sua cabana, e todos os seus livros, aquele tesouro maravilhoso que ela simplesmente idolatrava espalhados numa “bagunça” organizada como deve ser uma biblioteca querida e amada. Imediatamente teve certeza de que aquela estante tinha que ser sua. Era simplesmente indispensável! E suas dúvidas quanto a transformar ou não o segundo quarto numa biblioteca foram completamente dissipadas. Era uma necessidade! Mentira! Era um desejo que ela vinha escondendo de si própria, desde que entrara na casa pela primeira vez, e ela iria realizá-lo, plenamente! Foram apenas alguns minutos que ela permaneceu muda e absorta nestes pensamentos, mas o suficiente para Rafaela enxergar um brilho diferente nos olhos daquela mulher que a deixaram curiosa. Era uma expressão que ela reconhecia em seu próprio rosto quando via uma bela roupa, ou uma jóia rara ou um homem atraente, que eram as suas maiores paixões.
‘-O que foi?’ perguntou sem conseguir esconder a pontada de excitação na voz.
Julia foi tragada do seu sonho para a realidade e deparou-se com o olhar curioso daquela mulher, um olhar que não admitia rodeios. E sem o menor constrangimento ou timidez, o que era surpreendente em se tratando de Julia Gouvêa, começou a falar sobre a sua biblioteca. Embora não fosse muito afeita a leitura e considerasse até mesma uma perda de tempo, ficar sentada horas a fio lendo histórias imaginárias, quando se podia estar gastando este tempo experimentando roupas, jóias ou conhecendo pessoas interessantes. Ainda assim, Rafaela era capaz de reconhecer e vibrar com a realização do desejo íntimo de outra mulher seja ele qual fosse. Comprar um vestido absurdamente caro, mesmo que ele fosse ser usado apenas naquele casamento. Pintar o cabelo de vermelho, mesmo que isto significasse meses de tortura até a cor do engano se esvair. Dormir com um estranho absolutamente irresistível, mesmo que isto representasse um tremendo peso na consciência no dia seguinte. Ou ainda, mobiliar uma biblioteca, por mais estranho que parecesse. Eram coisas simples, mas somente uma mulher poderia entender e compartilhar aquelas emoções.
Rapidamente com a sua capacidade de adaptação, que juntamente com o seu charme eram suas principais qualidades, Rafaela conseguiu se transportar para a fantasia de Julia e com uma percepção inata as pessoas naturalmente sofisticadas mostrou-lhe que ela precisaria de uma poltrona confortável, uma luminária e um tapete para que a sala ficasse completa. Julia fechou os olhos e tentou visualizar o espaço. Realmente precisaria de uma poltrona confortável em frente à ampla janela, de onde pudesse contemplar a chuva caindo sobre as montanhas verdes, e também de uma luminária e um tapete para completar a decoração. Sugeriu timidamente uma escrivaninha aonde pudesse apoiar o seu nootebook, com o que Rafaela concordou prontamente encantada com a modernidade daquilo. Nossa, um nootebook! Parecia tão cosmopolita! Suspirou fascinada. Aquilo fez com que Julia se sentisse descontraída e relaxada, era o seu ponto forte. Tanto quanto ela ficara fascinada e seduzida pela beleza e pelo charme espontâneo de Rafaela, esta estava com a sua liberdade e independência. As duas mulheres concordaram plenamente que o local só ficaria completo se encontrassem outra estante como aquela o que seria indispensável para que toda a parede do lado contrário a janela ficasse completamente coberta de livros.
Enquanto negociava tudo aquilo, incluindo os móveis do consultório, com o dono da loja, Julia pode conhecer outra qualidade de Rafaela. Ela era uma negociadora hábil, utilizava todo o seu charme para pechinchar e isto representou uma economia considerável ao final de tudo. Ela conseguiu economizar também no transporte. Rafaela se recusou a permitir que Julia contratasse uma transportadora.
‘-De forma alguma, meu irmão pode fazer isto pra você. Deixa que eu providencio tudo, ele está de volta hoje e você vai conhecê-lo quando formos jantar no Guet’s’. E ela abriu aquele sorriso encantador que não permitia negativa.
Ao final da tarde, quando as duas estavam completamente exaustas, pois Rafaela não podia perder a oportunidade e experimentar algumas novidades, sentaram-se para um lanche Julia estava se sentindo feliz. Muito feliz! E não pode deixar de decidir que o esforço generoso e despretensioso da nova amiga valia a compra do computador para a sua secretária e a instalação da placa de rede, sua dúvida fora completamente dissipada.

***

Á noite estava fria, a chuva havia cessado, mas uma neblina delicada cobria o ar. Ela sabia que era impossível ir caminhando até o Guet’s. Precisava dar um jeito naquele caminho para poder ir e vir da sua cabana mesmo com chuva. Terminou de calçar as botas de salto alto e se levantou da cama. A calça de veludo vinho assentava perfeitamente em seu corpo magro. Ela era uma mulher miúda e esbelta, media um metro e sessenta e cinco de altura, mas tinha curvas generosas e um par de pernas que era um tributo a sensualidade feminina. A pele clara era sedosa, os cabelos loiros caiam como uma cascata dourada e lisa até um pouco abaixo do ombro. A boca era larga e os lábios carnudos eram uma fantasia para o deleite masculino, era uma boca que pedia beijos longos e ardentes, para ser saboreada, degustada, como uma iguaria rara. Quando ela se abria num sorriso, ele era puro charme e sedução, um misto de menina e mulher por causa da covinha que se formava do lado esquerdo da face, bem próxima dos lábios e era impossível para seu interlocutor não sorrir de volta. O nariz reto, fino e levemente arrebitado dava-lhe um aspecto de petulância aristocrática e os olhos eram grandes e azuis com tons que iam do mais límpido azul do mar ao tom escuro e profundo de um céu noturno na dependência do humor e do animo de sua dona. Olhou uma vez mais no espelho dando uma volta completa, ajeitou novamente a camisa branca de botão que moldava discretamente os seios firmes envoltos por um sutiã branco de renda, e descia ajustada até a cintura fina terminando um pouco abaixo do cós da calça, sacudiu a cabeleira loira e viu os fios caindo em cascata por sobre o ombro e as costas, um pouco do seu perfume favorito, retocou o batom e pronto! Estava ótima! Pegou as chaves e se dirigiu ao Guet’s.
O curto caminho até o agradável bar podia ser facilmente percorrido a pé, mas a chuva impetuosa que caíra naquela tarde sobre o caminho de terra que levava a cabana tinha o tornado intransitável. Quando o motor potente do jipe roncou ela ligou o radio que estava sintonizado na estação local e ouviu uma balada country americana dos anos cinqüenta tocada pela banda da cidade vizinha que estaria se apresentando no Guet's naquela noite. Abriu um sorriso de satisfação enquanto cantarolava a melodia conhecida. Estava se sentindo genuinamente feliz naquela noite. Tinha a sensação de que um sonho a muito acalentado estava sendo realizado, sentia-se em paz. Este pensamento reacendeu uma pequena chama de medo em seu íntimo, sentiu o coração se acelerar descompassado. Tinha realmente direito a toda aquela felicidade e paz? Não queria realmente pensar em nada daquilo. Estava com vontade de se divertir, dançar e beber um pouquinho. Assim que estacionou o jipe na porta do bar tratou de afastar estes pensamentos desagradáveis da mente.
Julia afastou as portas duplas de madeira que delimitavam a entrada do Guet's. O ambiente era alegre e agradável, o burburinho das vozes era audível e o calor de todas aquelas pessoas reunidas foi como uma lufada de vento quente atirada na sua cara e a fez esquecer definitivamente aqueles pensamentos sombrios de alguns minutos atrás. O Guet's era um bar antigo na cidade. No inicio, quando o bisavô de Flavio, o velho Clancy Guetsemberg, inaugurara o bar ele era uma pequena birosca onde os homens se reuniam no final da tarde para tomar uma cerveja depois do trabalho. Não demorou muito para que a Sra. Guetsemberg fosse solicitada a colaborar com alguns dos seus quitutes e a sua fama rapidamente se espalhou pela cidade, assim como a qualidade da cerveja genuinamente Irlandesa que o velho descendente da terra das fadas tirava com precisão. Quando o irmão caçula se mudou para o país com a esposa, trouxe o violino e a gaita Irlandesa, que eram relíquias da família e logo os dois estavam tocando para deleite dos clientes e amigos. As noites de musica, dança e cerveja, se tornaram uma tradição nas sextas-feiras do Guet's e sempre atraíram um grande número de pessoas. Toda a cidade dava uma passadinha por lá, os velhos para colocar a conversa em dia e os jovens para flertar e se divertir.
Ela estava mais uma vez atônita com todo o movimento frenético, ainda estática na porta observou a desenvoltura das garçonetes que serviam as mesas, eram duas mocinhas jovens e alegres com os corpos perfeitos e uma desenvoltura que estimulava os clientes a tomarem mais uma dose. Julia deu dois passos adiantando-se para o salão e desviando-se por entre as mesas girava a cabeça tentando encontrar Rafaela. A mulher de cabelos pretos avistou a médica a sua procura e acenou. Enquanto se aproximava Julia pode notar o homem sentado ao lado de Rafaela. Um homem alto com os cabelos cor de cobre encantadoramente revoltos, e braços fortes aparentes pela manga da camisa jeans. Não foi muito difícil reconhecer aquele perfil, ele se infiltrara nos seus sonhos algumas vezes, assim como uma sensação de aperto no peito e um frio na espinha que a recordação de estar naqueles braços lhe provocava. Quando ele se virou discretamente para puxar os cabelos de uma das garçonetes e lhe aplicar um beijo na bochecha provocando o riso das pessoas ao redor do balcão, ela sentiu uma onda de ódio subir pela sua garganta. Ele era mesmo um canalha!
Ela estava bem perto deles quando Rafaela agitou as mãos e se jogou nos braços de Julia fazendo um estardalhaço que atraiu para elas toda a atenção do bar. Embora estivesse lisonjeada com a encantadora demonstração de afeto oferecida por aquela mulher divertida, Julia estava se sentindo também envergonhada. Nunca gostara de ser o centro das atenções, era discreta, sempre fora. Aprendera desde cedo em casa e na escola a ser discreta. Começou a sentir uma onda de calor tomar conta do seu corpo, subindo, subindo sempre até se concentrar em seu rosto e subitamente teve certeza de que aquilo faria sua pele ficar vermelha como um pimentão e isto aumentou a sua confusão. Rafaela percebeu como a amiga estava embaraçada e tratou de fazê-la sentar-se.
Dominic estivera atento a tudo desde que Julia entrara no Guet's, procurara por ela pelo canto dos olhos e se surpreendeu quando percebeu o coração se acelerar e as mãos tremerem ligeiramente em volta da caneca de cerveja. Rafaela acompanhou com interesse o efeito de Julia sobre o seu irmão, era algo novo. Estava acostumada a ver as mulheres suspirando apaixonadas e caindo aos pés daquele homem sensual e cheio de charme, mas jamais tinha visto Dominic perder o controle, ele sempre tinha o domínio da situação. Ficou intrigada tentando entender o que estava acontecendo, tinha cheiro de magia no ar, por mais que ela fosse linda e incrivelmente sexy, com seu jeitinho tímido, Rafaela não conseguia explicar o fluxo de energia que parecia emanar de seu irmão para uma mulher que lhe era totalmente desconhecida.
'-Oi? Como esta?' Perguntou Rafaela instalando Julia entre ela e Dominic.
Antes que a médica respondesse, ela providenciou a apresentação da amiga ao seu irmão que estava olhando fascinado para aquela mulher loira de olhos azuis ao seu lado.
'-Então você realmente adquiriu o pote de ouro?' Falou Dominic olhando bem dentro dos olhos de Julia e apertando suas mãos delicadamente com aquele sorriso convencido e irritante nos lábios.
'-Não se pode recusar quando a sorte bate a nossa porta'. Ela respondeu sustentando o olhar e retribuindo-lhe o sorriso.
Rafaela quebrou o encanto do momento com uma exclamação indignada.
'-Vocês já se conheciam?!'
Dominic limitou-se a confirmar com um movimento da cabeça, não querendo perder o contato com aqueles belos olhos azuis.
'-Seu irmão me socorreu em um acidente quando estive pela primeira vez aqui'. Ela resistiu ao impulso de completar a frase dizendo que ele também quisera fazer sexo com ela ali mesmo no Guet's.
'-Ora, isto torna tudo mais fácil, ele vai ajudá-la novamente com o transporte dos móveis, não vai Dominic?' E ela lançou ao irmão um daqueles seus sorrisos mais sedutores.
Foi neste instante que Julia percebeu porque o sorriso dela lhe era tão familiar, eles tinham o mesmo sorriso. Cínico, sexy, displicentemente flertando com todos a quem ele era oferecido, quase irresistível. Antes que Dominic pudesse responder ao apelo da irmã ela interveio.
'-Ah, por favor, Rafaela! Não tem sentido incomodar o seu irmão com uma coisa destas, eu já estou com o contato de uma transportadora'.
Ele comprimiu mais uma vez os dedos dela entre os seus e novamente olhou-a bem dentro dos olhos.
'-Não é incomodo algum, eu terei o maior prazer em ajudar. Será o meu pedido de desculpas, eu acho que estou devendo a você...' Não foi preciso continuar, ambos sabiam do que estavam falando. Mas aquela referencia ao ocorrido trouxe-lhe a mente a lembrança outra frase de Dominic quando ela estava de partida, '...Quando você voltar eu vou tê-la...'
Percebendo o que se passava na cabeça de Julia pela mudança em sua fisionomia ele sentiu medo. Uma sensação estranha de abandono e angustia se espalhou por todo o seu corpo. Não sabia por que, mas tinha certeza que não suportaria se ela o rejeitasse. Ficou se perguntando se era apenas seu orgulho ferido, mas no seu íntimo sabia que não era apenas isto. Estava mexido por dentro, sentia o seu sangue fervilhar e seu coração correr descompassado. Sentira-se assim na primeira vez que a vira, e agora estava se repetindo. Perdia o controle com ela por perto, fazia e dizia coisas que não queria. Agia como um bobo. Por mais que tentasse entender não sabia o que estava acontecendo, nunca se sentira assim com nenhuma mulher. Elas sempre o excitavam, despertavam as suas fantasias, faziam seu sangue ferver principalmente no seu sexo, mas Julia... Sentia o sangue borbulhando numa intensidade desproporcional, e em todo o seu corpo, não apenas em seu sexo...
'-Eu lhe devo desculpas, fui mesmo um grosso estúpido. Vamos passar uma borracha e começar novamente, e que a sua mudança seja o marco disto, ok!' Ele ofereceu a ela o seu sorriso mais irresistível e o brilho de suplica naqueles olhos cinzentos era tão intenso que Julia teve medo de ser ofuscada.
Ele era irresistível, ela sentiu suas últimas reservas ruírem. O restante da capa de ódio que levantara contra ele desde aquela noite se partiu e quando isto aconteceu foi como tirar um peso gigantesco das suas costas. Somente teve forças para retribuir ao sorriso e concordar com um gesto de cabeça. Propositalmente para quebrar a tensão do momento, Rafaela abraçou a ambos e pediu uma rodada de cerveja para comemorar. Naquela noite Julia se divertiu como há muito tempo não fazia. Saboreou com gosto a cerveja amarga, dançou até sentir os pés reclamarem e riu como há muito não acontecia. Chegou em casa completamente exausta, com as energias esgotadas. Tomou um banho rápido e dormiu um sono sem sonhos.


***

Foi acordada na manhã seguinte pelo som da campainha de sinos e se levantou num pulo. Vestiu um curto hobe de sede preto sobre a camisola fina do mesmo tecido negro que contrastava com a pele leitosa e moldava de forma sedutora o corpo bem feito de Julia, deixando à mostra as pernas bem torneadas e desceu as escadas ainda sonolenta. Surpreendeu-se mais uma vez com a imensa claridade dourada que inundava a sala pela janela que ela esquecera escancarada e novamente aspirou encantada a fragrância do ar ao mesmo tempo que piscava algumas vezes tentando se acostumar com a luz que se infiltrava para dentro da sua casa. Quando ela abriu a porta deparou-se com a figura enorme e magnífica daquele homem maravilhoso com um sorriso gigantesco e sexy nos lábios e os olhos cor de fumaça brilhando por revê-la.
'-Oh, merda! Esqueci-me completamente... Oh, não! Que horas são?' Perguntou ela confusa e sonolenta.
Dominic ficou ali, estático, paralisado, como se tivesse sido atingido por um raio. Ele não havia se preparado para a visão de Julia com os olhos sonolentos, a voz ainda rouca do sono, o corpo escultural emoldurado por uma fina camada de seda e as pernas incrivelmente sexys aparecendo embaixo do hobe curto. Ele tentou se controlar, mas foi impossível não percorrer o corpo de Julia com os olhos, imaginando os segredos deliciosos que aquela fina camada de tecido negro escondia e sonhar em arrancá-la para deslizar as mãos e os lábios por toda aquela pele clara e sedosa. Engoliu em seco enquanto tentava fazer o seu coração acelerado se acalmar e forçou-se a manter o rosto impassível quando levantou os olhos passeando pela boca de Julia até se fixar nos belos olhos azuis, enquanto tentava afastar o pensamento de beijá-la até que ela se dissolvesse frouxa em seus baços.
Ela sentiu sua pulsação se acelerar também, e não era para menos! Ele era absurdamente sexy! Só podia ser um sonho, era isto! Ela ainda estava sonhando, pensou consigo, era só o que se podia imaginar quando um homem lindo e incrivelmente sexy aparecia na sua porta sorrindo e flertando descaradamente com você. Sonho ou realidade, ela percebeu que gostara do flerte, ficara absurdamente excitada! Deus! Estava ficando louca! Ela estava de camisola.
Dominic precisou de alguns minutos para se recompor e achou a maior graça ao perceber que aquela mulher linda e vestindo trajes mínimos estava completamente embaraçada a sua frente. Achou interessante observar as maçãs do rosto de Julia ficarem rubras e ela abaixar os olhos, envergonhada por ter se esquecido do compromisso e por estar diante dele em trajes tão íntimos. Não era algo que ela costumava fazer, receber estranhos em roupas de dormir, ainda que eles fossem encantadoramente sedutores como aquele prostrado diante da sua porta. Dominic por seu lado estava achando tudo muito divertido. Aquela mulher minúscula a sua frente, com a pele mais banca e os cabelos mais dourados que ele já vira, fazendo um esforço tremendo para se controlar e não sair correndo... Era positivamente a coisinha mais linda e sexy que ele já conhecera. Ele queria acabar com o sofrimento dela e então abriu novamente aquele sorriso sedutor.
'-Tudo bem! Passa um pouco das oito, mas se você me entregar à nota fiscal eu me encarrego de providenciar a entrega, enquanto você termina de acordar e tomar o seu café. É coisa rápida, com todos esses peões e o caminhão sua sala vai estar pronta antes do almoço'.
Foi só neste momento que Julia percebeu todos aqueles homens próximos ao caminhão, e enquanto desviava o olhar sentindo-se completamente 'perdida' agora que todos eles tinham-na visto de camisola, ainda assim ela pode ver os quatro homens respeitosamente retirando os chapéus da cabeça para cumprimentá-la.
'-Aguarde um minuto enquanto eu pego a nota'.
No intervalo de tempo em que estivera esperando por Julia, ele se permitiu olhar para a propriedade com olhos críticos. Já estivera ali inúmeras vezes. Era o seu segundo lugar favorito no mundo depois do lombo de Black Queem... Costumava ir ali se queria ficar sozinho, ninguém mais costumava ir ali depois que fora abandonado. Ele nunca se dava ao trabalho de reparar na propriedade, não era necessário. Estava ali, tudo o que precisava era sentar nos degraus da varanda e todos os seus problemas aos poucos iam se dissolvendo ao som dos passarinhos. Mas agora que estava novamente habitada Dominic se deu conta de que com exceção da cabana o restante estava realmente precisando de cuidados. Num rápido levantamento mental concluiu que Julia iria ter um bocado de trabalho para ajeitar tudo, e percebeu que esta poderia ser uma ótima oportunidade de se aproximar um pouco mais desta mulher tão encantadoramente arredia. Podia oferecer sua ajuda e com isto passar mais tempo perto dela... Seus pensamentos foram dissolvidos pela voz meiga de Julia.
'-Aqui está!'
Ela havia trocado de roupa e escovado os cabelos, estava magnífica! O vestido de verão em um tom de azul um pouco mais escuro do que os seus olhos, salpicado de bolinhas amarelas, assentava perfeitamente ao corpo de Julia e os cabelos exibiam o tom mais dourado que Dominic já vira. Linda! Definitivamente o azul era sua cor favorita para ela. Ele levantou-se e tomou as mãos de Julia nas suas, retirando o papel de entre os seus dedos, depois as levou aos lábios roçando-os delicadamente pelos nós dos dedos, e se surpreendeu ao perceber que ela tinha mãos grandes. Como podia? Ela era tão pequena, mas as suas mãos eram grandes, com dedos finos, porém longos. Eram mãos fortes, decididas! Uma pontada de excitação percorreu o seu corpo quando ele imaginou aquelas mãos passeando por sua pele. Para afastar aquela fantasia deliciosamente perigosa ele virou as mãos de Julia e pousou um beijo delicado em cada palma. A gentileza do gesto fez o coração se acelerar novamente no peito de Julia e ela retirou as mãos e se afastou rapidamente antes que Dominic pudesse perceber o rubor que coloriu a sua face.
Tão logo ele foi embora, Julia encaminhou-se para a cozinha. Duas finas camadas de manteiga sobre as fatias de pão integral e uma deliciosa xícara do mais puro expresso Inglês. Quando terminou de saborear a refeição e deixar a sua cozinha impecável, Julia se deu conta de que ainda havia algum tempo de sobra antes que Dominic e seus peões estivessem de volta. Quem sabe poderia dar um pulo no consultório havia uma porção de coisas pendentes. Tarefas que poderiam ser realizadas mesmo antes da chegada dos móveis. Precisava dar um jeito no arquivo das suas revistas, de outra forma quando precisasse fazer alguma consulta ficaria perdida. Consultou o relógio e deu-se conta de que mesmo com o tempo que lhe estava sobrando não seria possível ir até a cidade e voltar a tempo de recebê-los.
Quando colocou os pés na varanda de madeira e aspirou o ar puro da manhã uma idéia floresceu na sua mente. Retornou a cozinha e escolheu um pó aromatizado de menta e wisk de origem Irlandesa, e enquanto o líquido escorria para a sua xícara favorita, correu até o seu quarto e encontrou o que estava procurando. Abriu o grande manual das flores e apoiou o pesado livro de encadernação sofisticada no piso de madeira maciça. Deitou-se de bruços, apoiando-se nos cotovelos e começou a planejar o seu jardim. Não tinha a mínima idéia de quais plantas poderiam ser cultivadas ali. Na primeira meia hora se deliciou em simplesmente passar as páginas e escolher as mais belas rabiscando em um pedaço de papel as idéias que lhe vinham a cabeça.
Julia adorava plantas. Sentia-se à vontade com elas. Não se sentia tímida. Quando estava com as flores, podia ser ela mesma, sem qualquer máscara ou barreiras. Não precisava estar sempre bem, certa, impecável. Elas não a julgavam, não a comparavam com os outros, as plantas não tinham regras morais, certo e errado. Não exigiam nada, não queriam amor incondicional e eterno, não necessitavam de fidelidade. Só queriam ser cuidadas e retribuíam florescendo maravilhosas para o nosso deleite. Recordou com satisfação que desde pequena, sempre tivera habilidade com as plantas. Tinha o que as pessoas costumavam chamar de 'mão boa'. Sempre acompanhava a mãe nas atividades de jardinagem no fim-de-semana.
Dona Helena, inicialmente não gostara daquilo. Seu jardim era seu refugio, ninguém ousava perturbá-la ali. Havia tomado decisões importantes sob o refugio de suas plantas, elas eram suas testemunhas. E agora aquela criança ali, que coisa inconveniente! Mas bastaram alguns dias... Julia passava horas quieta completamente absorta numa interminável conversa com as flores. E sem ser orientada por Helena, apareceu com um baldinho e a pazinha de praia. Pegou um pouco do humo, água e tomou conta do canteiro de margaridas. Helena acabou por se resignar, não havia nada a fazer. Foi com uma imensa alegria que observou algumas semanas depois, como o canteiro estava bonito. As flores vistosas, as pequenas margaridas que haviam sido plantadas por Julia floresceram harmoniosamente.
O espírito jardineiro de Helena se encheu de orgulho e mãe e filha tornaram-se inseparáveis. As tardes de sábado eram sagradas. Ficavam horas lado a lado, sem dizer uma só palavra, apenas experimentando o prazer conjunto de mexer na terra. Em outros dias trocavam informações sobre novas técnicas de adubo, dividiam sementes... Quando foi para a universidade, esta foi uma das coisas da qual Julia mais sentiu falta, o jardim! Conservou o hábito de cuidar das plantas com os vasinhos que enfeitavam o apartamento, mas não era a mesma coisa. Sentia uma falta enorme do jardim e das tardes que dividia ali, com sua mãe.
Todos aqueles pensamentos flutuaram soltos e alegremente pela sua mente, enquanto ela folheava o livro das flores. Uma onda de felicidade inundou seu coração quando ela se deu conta de que estava planejando o seu jardim! Ao terminar de percorrer o livro, e observando todas as flores que havia escolhido, se deu conta de que não sabia que tipos de plantas cresciam ali. Fechou o livro, deu uma volta pelo jardim e decidiu que a primeira coisa a fazer era sondar pela cidade com os moradores. Pesquisa de campo! Era isto! Verificar de perto que plantas cresciam por ali.
Enquanto ela guardava a xícara onde havia tomado o expresso, Julia ouviu a chegada do caminhão. Ele foi estacionado bem na sua porta e ela apareceu na varanda no exato momento em que Dominic se preparava para tocar a campainha. Ele estancou o movimento e olhou encantado para ela. Julia tinha um raminho de flores silvestres entre os cabelos, parecia uma princesa! A magia do momento foi quebrada pela voz forte de um dos peões.
'-Patrão, vamos descarregar agora?'
'-Ah! Sim, claro'. Ele falou lutando para que a voz saísse firme.
Ela ficou sentada na varanda enquanto observava todos aqueles homens trabalhando incansavelmente sob o comando de Dominic. Era impressionante como ele tinha o pleno domínio da situação. Não precisava gritar, falava de forma calma, mas sua voz exibia uma autoridade incontestável. Os homens acima de tudo o respeitavam. Não demorou muito para que todos os móveis estivessem na sua sala. Agora tudo aquilo precisava ser levado para a biblioteca e depois seria preciso colocar tudo em ordem. Dominic despachou os peões de volta, para que eles fossem transportar os móveis que faltavam. Eram todos do consultório, e Rafaela estaria lá esperando por eles. Garantiu a Julia que a irmã não iria arrumar nada sem ela, só iria recebê-los. Julia concordou, mas fez questão de servir limonada e uma fatia do bolo que ela havia feito na véspera aos peões como agradecimento.
Quando eles se foram, Dominic começou a trabalhar na montagem das estantes. Espalhou as madeiras cuidadosamente pelo chão do quarto que iria se transformar na biblioteca de Julia e começou a analisá-las tentando captar a arquitetura da peça.
'-Puxa você tem mesmo uma peça rara aqui, e esta madeira... É maciça, é uma estante para o resto da vida'.
'-Foi amor a primeira vista'.
'-Olha, eu estou bem aqui. Vou demorar um pouquinho me familiarizando com as peças, mas tudo ok!'
'-Precisa de ajuda?'
'-Só mais tarde'.
Julia entendeu a mensagem. Ele queria trabalhar sozinho. Bom era melhor arranjar alguma coisa pra fazer.
'-Quanto tempo você acredita que demore?'
'-Hum! Talvez umas duas a três horas... Não muito mais que isto'.
'-Ok! Então vou preparar algo para comermos depois'.
'-Ótima idéia'.
Algum tempo depois, Julia subiu as escadas e se colocou na porta daquela que seria a sua biblioteca. Permaneceu estática, sentindo uma onda de calor invadir o seu corpo e seus pensamentos ficarem confusos. Aquele homem era perigoso, muito perigoso! Dominic estava ali, completamente envolvido, como uma criança a quem se entrega um brinquedo desejado. O tronco suado estava nu, agora que ele havia tirado a camisa. Tirara também as botas e parecia completamente à vontade, relaxado. Os músculos dos braços fortes moviam-se com destreza e habilidade. Sem perceber Julia passou a língua pelos lábios ao se imaginar deslizando as mãos por aqueles músculos poderosos...
A temperatura subiu vários graus e Julia sentiu a respiração ofegante e o pulso se acelerando. Uma tontura leve circulou por sua mente enquanto ela permanecia com os olhos fixos no corpo maravilhoso do homem em sua sala. A imagem de Dominic com o corpo másculo e viril parcialmente exposto, empunhando ferramentas e usando a força bruta para realizar o trabalho, evocou em Julia imagens de guerreiros celtas lutando bravamente para defender a costa da Irlanda e depois da batalha voltando famintos e sedentos para os braços de suas mulheres. Perigoso! Nossa, ele era definitivamente um perigo para qualquer representante do sexo feminino! E era também incrivelmente lindo e absurdamente sexy! Era preciso que ela estivesse morta e enterrada há três séculos para não se sentir excitada ao imaginar a sensação de ser esmagada sob aquele corpo escultural!
Ele continuava concentrado na tarefa, os braços movimentando-se no trabalho pesado, o tronco nu completamente encharcado de suor. Uma gotícula deslizou da sua nuca, percorrendo toda a extensão da coluna até se perder sob o jeans que moldava o traseiro perfeito. Julia sentiu a boca se encher de água ao se imaginar deslizando a língua pelo mesmo caminho até cravar os dentes naquela bunda maravilhosa. Uma mulher aceitaria de bom grado voltar ao tempo da escravidão se a tarefa fosse enxugar todo aquele corpo maravilhoso! Deus! Ele era mesmo perfeito! Uma verdadeira obra-prima.
Ela ainda estava tentando evitar que a língua saltasse da sua boca e se lançasse na pele molhada e suculenta de Dominic, quando ele se virou e seus olhos acinzentados se encontraram com os azuis de Julia. Ela sentiu um frio na espinha e os seus joelhos fraquejarem quando ele lhe sorriu.
'-Eh! Ah! Eu trouxe uma limonada esta bem quente por aqui, não?'
- Ham-hã... Ele balbuciou concordando com a observação de Julia.
Estava mesmo quente ali, mas era um calor diferente, um calor que se irradiava de um para o outro e fazia o ambiente no quarto parecer um caldeirão fervendo de desejos. A forma como ela olhara para ele, mesmo quando Julia tentou disfarçar, fora muito clara, desejo! Ela o desejara, um desejo puro e bruto, sem mascaras, sem reservas, cru. Homem e mulher, era sexo, tesão, necessidade de acasalar o que ele vira naquele olhar e aquilo aumentou a temperatura da sala em mais alguns graus. Ele esfregou o suor da testa com as costas das mãos e sentiu a garganta seca enquanto lutava para tentava responder a oferta de Julia. Ponderou que estava com sede, mas não de limonada, a sua sede era dela, de Julia. E ele pretendia saciá-la, mas aquele não era o momento e nem o lugar. Sabia que teria que ser cuidadoso. Ainda que Julia o desejasse também, sabia que ela era tímida e eles haviam tido muitos problemas quando se encontraram da primeira vez. Estava conseguindo quebrar as reservas dela, e pretendia continuar a derrubá-las até que ela estivesse em seus braços, sem ressalvas, sem medos, sem receios. Fraca! Rendida! Domada! Conquistada! Seduzi-la, seria como cultivar as flores no seu jardim. Um trabalho que exigiria paciência e delicadeza. Mas ele era bom nisso.
'-Um pouco. Eu bem que agradeceria algo para beber. Pode deixar ai perto da porta, obrigado!' Ele pediu, ponderando que não era seguro que Julia se aproximasse. Não tinha certeza de poder controlar o desejo de possuí-la ali, naquele minuto se sentisse seu perfume, aquele cheiro de primavera parisiense que ela exalava era irresistivelmente sexy e um homem tinha que estar morto, cego e surdo se não sentisse vontade de devorá-la por inteiro ao senti-lo.
Mais uma vez ela se retirou.
A salada de pimentões estava pronta e o salmão estava delicadamente assado. Julia começou a colocar os talheres na mesa, quando escutou a voz forte e máscula chamar seu nome.
'-Julia'.
'-Sim, Dominic?'
'-Pode me ajudar com o tapete?'
Ela já estava chegando a biblioteca e precisou prender a respiração ao ver a parede completamente coberta pela estante. Magnífica!
'-Acho que devemos abrir o tapete antes de trazer o restante dos móveis. Você pode me ajudar, é preciso que ele fique bem esticado'.
'-É claro!'
Eles posicionaram o tapete em um dos cantos da sala, e começaram a desenrolar com cuidado. Lentamente foram abrindo o elegante mosaico, deixando-o bem esticado. E quando todo o chão ficou coberto eles se sentaram ofegantes. Simultaneamente percorreram a sala com o olhar cuidadoso, e ao mesmo tempo perceberam a pequena ondulação. Num instinto de perfeccionismo correram as mãos para corrigi-lo. Seus dedos se tocaram levemente, mas foi o suficiente para acender um fogo entre eles.
Dominic sentiu-se dominado pela violência da emoção que experimentou. Foi como uma descarga de trovões das tempestades tão comuns nos fim de tarde em Nova Esperança. Como ser tragado para o olho do furacão. Seu coração batia forte, as mãos tremiam, sentia-se paralisado, ali na frente dela. Queria tocá-la, acariciar sua pele, beijá-la... Mas, não conseguia se mover. Ele usou as mãos para emoldurar o rosto de Julia, olhou dentro dos grandes olhos azuis daquela mulher e abriu um sorriso sedutor.
'-Você é linda!'
Ela fechou os olhos e retribuiu o sorriso ao sentir o toque das mãos dele em sua face. Ásperas, rudes, mas ao mesmo tempo com um toque surpreendentemente delicado. Uma onda de prazer cresceu a partir do seu sexo e se espalhou por todo o seu corpo, enquanto ele deslizava suas mãos pelo corpo de Julia. Queria apreender nos seus dedos todo o seu contorno, queria conhecê-la por inteiro. Cada curva do seu corpo, todos os seus poros.
Julia permaneceu imóvel, quieta, apenas sentindo o toque das caricias daquele homem, percebendo sua pele vibrar e esquentar sob aquelas mãos fortes, sua respiração e seu coração se acelerarem. No instante em que sentiu a boca de Dominic se ajustar a sua, o hálito másculo e viril sendo soprado na sua cara, a respiração daquele homem sensual se acelerar acompanhando a sua, ela perdeu o controle. Agarrou Dominic com um furor que surpreendeu a ela própria. Satisfazendo seu desejo, deslizou as suas mãos pelas costas nuas do homem em seus braços, sentindo os músculos fortes e aspirou a fragrância da sua pele.
Ele deitou-a de costas no tapete que eles haviam acabado de esticar sobre o chão da biblioteca e colou o seu corpo sobre o dela e Julia experimentou a delicia de ter o corpo viril de Dominic esmagando o seu contra a superfície macia do tapete. Ele continuou a explorá-la deslizando as mãos rudes de um homem acostumado a trabalhar a terra sobre o corpo delicado de Julia por dentro do vestido azul, subindo até encontrar os seios que já estavam duros para deslizar os polegares sobre os mamilos fazendo-a gemer e cravar os dentes no ombro musculoso de Dominic.
Deliciada com o sabor da pele dele, Julia deslizou a língua descendo até o peito para sentir o coração de Dominic acelerado contra a sua boca, satisfazendo a sua fantasia de lambê-lo por inteiro. Quando ele desceu mais uma vez as mãos pelo seu corpo até encontrar o centro do prazer de Julia e provocar o gozo ao introduzir os dedos dentro dela, ela abandonou todo o controle perdendo-se na insana delicia que era ser possuída por ele.
Mas ela queria mais, queria que ele também se perdesse por inteiro dentro dela. Ainda tremendo pela última onda de prazer que ele lhe provocara ela lutou contra as suas últimas reservas de cautela e avançou despudoradamente para a calça de Dominic, desabotoando o cinto de ferramentas que ele usara para o trabalho bruto e jogando-o longe, abriu o zíper do jeans, expondo o sexo que se projetava sob a cueca revelando todo o desejo que ele estava sentindo.
A manobra ousada de Julia foi à senha. Ele levantou o seu vestido e expôs os seios delicados segurando-os nas mãos e depois os sugando como um bebe faminto, até que os mamilos ficassem molhados e de novo completamente endurecidos. Ela correspondeu soltando um gemido alto e enlaçou as pernas em sua cintura colando seu corpo ao dele e apertando-o contra a sua pelve. Ele reconheceu que ela estava pronta e penetrou-a de uma forma firme, plena e definitiva. Eles completaram o ato e então Dominic escorregou lentamente para o tapete, aninhando Julia em seus braços sobre o seu corpo.
Enquanto sentia sua respiração e seu coração se acalmarem Dominic tentava entender o que acabara de acontecer. Estava se sentindo mortificado. Jamais tratara uma mulher com tal falta de delicadeza. Fora indesculpavelmente grosseiro. Mas não conseguia negar que nunca sentira tanto prazer em estar dentro de uma mulher como sentira ao possuir Julia. Acariciou-lhe lentamente os cabelos e sussurrou em seu ouvido.
'-Você esta bem? Machuquei-a?'
Ela achou graça do tom de preocupação na voz dele. Machucá-la? Que loucura é claro que não! Ela estava deliciada de prazer, um prazer definitivo. E ternura. Houvera ternura por baixo de todo aquele furacão de desejo que os incendiara. Ela nunca havia experimentado aquela combinação de sensações. Fora um momento único, e mágico. Poderoso! Observou que ele a fitava aguardando a resposta ofereceu-lhe um sorriso tímido e respondeu.
'-Você me deu um prazer que eu jamais experimentei antes'.
Ele soltou o ar que estivera prendendo enquanto aguardava a resposta, olhou-a dentro dos olhos e viu o prazer refletido ali como um selo de garantia das palavras que haviam saído da boca de Julia e então sorriu. Aquele sorriso sexy e poderoso que era capaz de fazer qualquer mulher suplicar para se tornar sua escrava.
'-Eu... Não foi de propósito, mas, eu não usei nada... Sei que não vou te passar nada, sou saudável, mas...'
Não foi preciso que ele completasse a frase, ela sabia do que ele estava falando. Gravidez. Eles estavam tão cheios de desejo que nem se lembraram dos cuidados básicos em uma rodada de sexo casual. E ela era médica! Sabia que não se devia fazer sexo sem proteção com um desconhecido. Mas o curioso é que confiava nele. Sentia-se segura, sabia que ele estava sendo verdadeiro quando lhe disse que era saudavel. E mais ainda, sentiu o cuidado dele em revelar a ela a sua condição. Era um homem honesto, era isto que ele irradiava honestidade, franqueza.
'-Eu também sou saudável. E não se preocupe porque estou protegida, ainda estou usando o DIU.'
A confusão da mudança fizera com que Julia esquecesse o DIU. Ela deveria te-lo tirado quando rompera com Rodrigo. Mas com todas as providencias necessarias para a sua mudança, aquilo acabou esquecido.
Dominic acariciou delicadamente o contorno da boca de Julia e roçou os lâbios suavemente sobre os dela, como se ele dissesse que adoraria ter um filho com ela, mas no momento certo. Foi um gesto terno e com tamanha cumplicidade, que ela preferiu não racionalizar naquele momento. Dominic também percebeu a ternura do momento, e também sentiu-se amedrontado pela força daquela energia. Para quebrar a tensão ele falou de forma descontraida.
'-Ei, que tal aquele vinho e a sua salada, depois posso te dar prazer de novo, na cama'.
Ao terminarem a refeição, ele a tomou nos braços e subiu as escadas carregando-a no colo. Chegando ao quarto, ele deitou Julia suavemente na cama, beijo-a com enorme ternura e falou.
'-Agora eu serei terno e carinhoso, como você merece'.
Dominic cumpriu a promessa. Lentamente se despiu colocando a mostra o corpo másculo e viril que fez um arrepio de prazer percorrer a pele de Julia. Com ternura expôs a pele clara de Julia, exibindo toda sua nudez. Deitou-a na cama e permaneceu alguns minutos mudo, atento, curioso, explorando cada detalhe daquele corpo, guardando as imagens na sua memória fotográfica.
Fechou os olhos e se aproximou. Utilizou o seu olfato para aspirar a fragrância da pele dela. Catalogar todos os seus cheiros registrando-os na sua memória olfativa e capacitando-se a reconhecê-la apenas pelo olfato. Aquele cheiro de primavera em Paris que ela exalava e que evocava nele fantasias de fazer amor a beira do Senna, ou no alto da Torre Eiffel por tardes inteiras.
Mais uma vez explorou com a ponta dos dedos e com as mãos cada caminho, cada curva de Julia. Demorou-se propositadamente nos mamilos, experimentando a mudança de textura ao seu toque. Sentindo a resposta da pele sedosa e clara ao toque áspero das suas mãos de homem do campo. Sabia que nenhum dos amantes anteriores que ela tivera fora capaz de provocar esse contraste, eram homens da cidade, provavelmente burocratas, com mãos lisas e finas. Queria que ela se sentisse marcada com seu toque rude, que ela fosse incapaz de esquecer a sensação das mãos dele deslizando por sua pele e excitando-a quase dolorosamente, levando-a ao limite.
E por fim ele resolveu aprende-la pelo gosto. Aplicou a sua língua em toda a sua pele, sentiu o sabor dos seus olhos, deliciou-se novamente com o gosto dos lábios e da língua de Julia. Desceu e saboreou a reentrância sutil do pescoço. Sentiu o coração de Julia pulsando acelerado na curva do pescoço, logo abaixo da orelha, próximo a curva da mandíbula, seria capaz de ficar eternamente saboreando o gosto da sua pele ali. Saciando a fome de devorá-la, somente provando aquele ponto. Ela era um banquete de sabores variados. Arrastou a língua deslizando-a pelo pescoço esguio e perseguiu este caminho até atingir os seios. Explorou delicadamente a maciez dos seios firmes e cheios como pêssegos maduros, e aprendeu com suprema e quase reverente atenção a delicadeza dos mamilos que ficaram mais escuros e rígidos com o toque das suas carícias.
Ele a estava torturando com toda aquela delicadeza. Levando-a muito além do limite, a completa insanidade. Seu corpo era como massa de moldar sob as mãos e os lábios dele. Ela queria tocá-lo também, lambe-lo, prová-lo, mas suas defesas e suas forças estavam inacessíveis, sentia-se flutuar numa imensa e interminável onda de prazer. Nunca sentira nada parecido antes. Suspeitara, ao vê-lo trabalhando com os músculos fortes e o cinto de ferramentas pendurado nos quadris que Dominic era perigoso, mas agora sabia que ele era muito mais perigoso do que ela poderia imaginar. Ele tocava seu corpo com a sabedoria de um amante muito antigo, despertando prazeres que ela nem mesmo conhecia. Saciando carências que Julia jamais imaginou possuir. Possuindo-a como se reivindicasse a primazia e o direito de amá-la, como se ele fosse o único com o direito de fazê-la se sentir mulher. Envolvia seu corpo num frenesi de desejo e prazer com ternura e gentileza, e ela temia que ele pudesse igualmente tornar cativo e domar seu coração.
Dominic continuava a sua jornada, explorando-a por inteiro como desejara fazer desde o primeiro instante em que a vira. Deliciou-se em percorrer a sua barriga e propositalmente saltar-lhe o sexo, caminhou pelas suas pernas até os pés. Chupou delicadamente cada dedo e depois repetiu o gesto com as mãos.
Só então, percebendo-a completamente atordoada de prazer atirou-se sobre o seu sexo. Ávido por conhecer o gosto do seu centro de prazer. Acariciou-a delicadamente com a língua, alisando cuidadosamente os pelos e deixando-a completamente molhada, tanto por sua excitação, quanto pela saliva. Começou a penetrá-la com a língua em movimentos delicados e vigorosos levando-a as nuvens. E mesmo quando percebeu os gemidos de prazer que indicavam que Julia estava próxima do gozo, ele não interrompeu a sua ação e continuou a explorá-la com a sua língua em movimentos lentos e delicados, torturando-a de prazer, levando-a a beira do abismo, ao limite do gozo, até que foi impossível para ela sustentar tal situação. Num gesto rápido que revelava toda a sua urgência Julia agarrou-lhe os cabelos e puxou a cabeça de Dominic para que eles se olhassem nos olhos, e gritou.
'-Possua-me! Agora! Por favor, rápido!'
Ele ouviu a suplica desesperada de Julia, mas ignorou-a e novamente retomou a sua exploração utilizando a sua língua num balé erótico que a fez gozar mais uma vez, gemendo alto e arqueando o corpo como se fosse uma corda esticada no limite da sua tensão para depois desabar com tremores e espasmos de prazer até se sentir completamente frouxa e inerte.
Só então ele aproximou-se dela, arrastou a língua pelo seu abdome e beijou-a delicadamente nos lábios, enquanto subia na cama e posicionava-se entre os joelhos de Julia afastando as suas pernas para depois mergulhar dentro dela e satisfazer o seu próprio desejo, enquanto ela gozava novamente ao recebê-lo dentro de si. Exaustos, adormeceram nos braços um do outro.


***

Dominic foi acordado pelo barulho intenso do vento da tarde que entrava pela janela escancarada do quarto, juntamente com o restinho dourado do sol que era encoberto pelas nuvens habituais nas tempestades de verão tão comuns nesta época em Nova Esperança.
Abriu os olhos com cautela e de maneira sonolenta. Neste instante suas narinas foram invadidas pelo agradável aroma de café, e ele reconheceu Julia sentada ao seu lado, as costas envoltas na seda preta do curto hobe viradas para ele e na mão a sua inseparável xícara.
Deslizou a mão e suavemente percorreu o contorno de sua espinha, percebendo o corpo de Julia se agitar num tremor de excitação. Com a mente livre, encantado pela ternura do momento ele murmurou.
'-Você sabe há quanto tempo desejo isto?'
As suas palavras foram como flechas disparadas certeiramente na mente de Julia. Arrancaram-na da languidez daquele momento ao se chocarem com outras palavras pronunciadas por esta mesma voz quente e sensual meses atrás 'Quando você voltar, eu vou tê-la.'
A sensação de prazer e felicidade experimentada até aquele momento foi sendo gradativamente substituída por raiva. Sentia suas entranhas se revirarem e o gosto amargo do ódio subir pela sua garganta.
Lágrimas de fúria e de vergonha ameaçam inundar a sua face, mas ela se forçou a conte-las. Engoliu em seco, respirou fundo e sem se virar para Dominic falou lutando para que as palavras fossem audíveis.
'-Por favor, vá embora.'
Ele teve plena certeza de que não escutara. Não podia ter escutado aquilo 'Vá embora!' O que estava acontecendo? Eles estavam felizes! Novamente ele escutou, quase um sussurro, lutando para ser ouvida por entre as lágrimas que ela se esforçava para reprimir.
'-Vá embora, por favor.'
Mais uma vez ele se recusava a acreditar, mas as palavras ressoaram vivas e claras na sua mente. Dominic se levantou, vestiu as calças que estavam jogadas ao chão e se retirou sem dizer uma palavra.
Sua garganta estava ressecada, a respiração saia com dificuldade. A mente estava atordoada como se milhões de sinos estivessem replicando ao mesmo tempo. Não conseguia entender o que estava acontecendo.
Loucura! Vá embora! Há algumas horas atrás ela estava gemendo de prazer em seus braços, e agora isto? O que ele tinha feito de errado?
Estacionou a caminhonete e correu para a baia. Calçou a perneira e as esporas, colocou o chapéu e começou a preparar o cavalo. Manta, cabresto, arreios, cela. Ele puxou o animal e afagou-lhe o pelo. Black Queem era uma égua campolina de pelo negro. Um belo espécime
Dominic montou com agilidade e leveza, naturais a um cavaleiro nato. Calçou os pés confortavelmente no estribo, segurou as rédeas firmemente nas mãos e empinou as costas se preparando para o movimento. A égua estava quieta reconhecendo a autoridade do dono. Ele apertou as esporas contra os flancos do animal, ao mesmo tempo em que movimentava as mãos de maneira firme insitando-o ao movimento.
O animal iniciou o trote de maneira tímida. Mas ele sentia seus pensamentos desconexos e o sangue correndo acelerado em suas veias. Não queria o trote lento e cadenciado do campolina. Necessitava de movimento, um galope frenético, o vento e a chuva batendo no seu rosto, para acalmar o seu coração.
Novamente enfiou as esporas nos flancos do animal e mais uma vez movimentou as rédeas dando o comando para que Black Queem aumentasse o ritmo. A égua obedeceu, acelerou o galope e Dominic repetiu o gesto, até que eles atingiram a harmonia do movimento. Aquela comunhão única e inexplicável entre homem e cavalo. Era uma sensação libertadora aquela. Todos os seus pensamentos foram abandonados enquanto ele acompanhava o ritmo do animal, um movimento uniforme como se eles fossem uma unidade.
Cavalo e cavaleiro cortaram as pastagens verdes debaixo da chuva insistente que caia, e começaram a subir a colina. O animal instintivamente aumentou o ritmo preparando-se para a subida. E quando eles chegaram ao topo, Dominic utilizou as mãos num movimento ágil e seguro puxando as rédeas, Black Queem estancou obediente.
Estavam ambos ofegantes e molhados, de suor e da chuva. Dominic ereto na cela contemplou a extensão de suas terras. Era sempre uma visão deliciosa. Sentia-se em casa ali, estava no seu elemento, fazia parte daquilo. Era sempre confortador.
E então, tão subitamente quanto à chuva parou, as palavras vieram a sua mente. 'Você sabe há quanto tempo desejo isto?' O que havia de errado naquilo? Estivera desejando-a desde... Desde... Desde que ela... E aquela frase se descortinou, clara, mais real do que a sela quente do cavalo ardendo na sua virilha. 'Quando você voltar, eu vou tê-la’.
- Idiota! Grande idiota! Grandessíssimo idiota! Você é o homem mais burro da face da terra. Mas será possível? Ela acreditava mesmo naquilo? É claro! Porque ele sempre perdia a cabeça quando estava com ela? Nunca uma mulher mexera tanto com ele, ela fazia seu sangue ferver só de pensar nela. Lembrar do corpo de Julia embaixo do seu, da maciez dos seios, da delicadeza da pele, do sabor adocicado do seu hálito e do prazer inigualável e jamais experimentado com qualquer outra mulher, de penetra-la, fez Dominic sentir-se excitado.
Uma sensação diferente invadiu o seu corpo, mais do que o desejo físico... Era... Estava sentindo uma ternura que nunca experimentara antes. Uma vontade enorme de cuidar dela faze-la feliz, dissipar as nuvens de medo, dúvida e insegurança que percebia pairarem sobre ela.
Sem sentir, sua mente foi invadida por pensamentos furiosos. Quem ela pensava que era? Petulante! Com aquele narizinho sempre empinado, afetada! Mas, quando esteve em seus braços, gemeu. Sim, cheia de prazer, pedindo mais, faminta por fazer sexo com ele. Ela tremera embaixo dele, ofegante, se contorcendo no êxtase do prazer. E ela tinha gozado, Deus! Nunca vira uma mulher gozar como ela! E depois, 'Vá embora'. Petulante!...

***

A semana seguinte transcorreu agitada. Receber todos os móveis do consultório, organizar o espaço com Rafaela, programar o agendamento dos clientes, instalar o telefone e os programas no computador. E ainda arranjar alguém para ajuda-la a terminar a arrumação da cabana. O sacana do Dominic tinha armado tudo aquilo só pra dormir com ela, canalha! Deixara tudo pela metade.
Julia acabou chegando a conclusão de que seria importante ter computador também na recepção, facilitaria o trabalho de Rafaela e iria lhe permitir delegar tarefas a ela. Não havia escolha, teria que voltar a cidade para comprá-lo, aproveitaria para fazer uma visita a Laura, já estava com saudades da amiga. Fez o convite e Rafaela ficou encantada, iria conhecer Nova Era!

***

sábado, 20 de agosto de 2011

DEVERES, SONHOS E PAIXÕES - Capitulo 3

CAPITULO 3

Ela caiu na estrada com as mãos no volante do jipe com tração nas quatro rodas que adquirira na semana anterior. Quando fechou a porta do apartamento e entregou as chaves ao representante da imobiliária, sentiu uma estranha sensação de perda... Não era mais seu... Outras pessoas iriam residir ali, outras histórias seriam construídas naquele que fora seu lar nos últimos anos... Mas quando começou a sentir o vento fresco soprando diretamente em seu rosto pela capota arriada do jipe, sentiu uma energia renovada e tudo aquilo, apartamento, hospital, cidade grande, ficaram para trás... No passado... Um passado distante...
Inesperadamente as lembranças daquela noite a algumas semanas atrás encheram e ocuparam a sua mente, aqueles pensamentos foram capazes de colocar suas idéias em turbilhão, sentiu o sangue correr acelerado, como se quisesse disputar corrida com seu veículo... Por um pequeno lapso de tempo sentiu tudo rodar a sua volta e toda a paisagem descortinada a sua frente sair de foco. Respirou fundo e fez um esforço enorme para retomar o foco, precisava manter a mente atenta se não quisesse provocar um acidente...
Mas antes de arquivar aquelas lembranças no porão de sua memória saboreou um pouquinho mais o prazer que elas lhe proporcionavam. O poder de sentir um homem completamente rendido aos seus encantos, de tê-lo dominado pelo desejo de possuí-la. Sabia que naquelas poucas horas que passaram juntos ela poderia ter conseguido tudo o que quisesse, detinha o poder! Matheus lhe daria o mundo, subiria até o céu e roubaria as estrelas para depositar aos seus pés, tinha consciência de que ele seria capaz de transgredir todas as leis e se colocar em perigo somente para satisfazê-la. Pode perceber pelo brilho febril em seus olhos quando ele a possuía, no murmúrio e nos gemidos abafados que a satisfação do gozo libertaram. Naquela noite ele fora seu plenamente. Sentia-se realmente poderosa como uma fada tecendo encantamentos eróticos capazes de levar um homem a loucura.
'-Esqueça isto, passado... Agradável, mas passado! Vamos garota, vida nova!'

***

Nova Esperança era uma cidade pequena. Era curioso como o nome refletia seu estado de espírito. Coincidência? Destino? Não sabia se acreditava nestas coisas, a vida apenas seguia seu curso... Ainda assim não deixava de ser curioso, estava realmente ganhando nova esperança! Fora mesmo curioso à forma como tudo se desenrolara. Há um ano, estava se sentindo enfadada, cansada, desmotivada. Uma viagem para casa dos pais, à pista molhada por um pouquinho de chuva, uma pequena distração e lá estava ela, pra fora da estrada. O carro ligeiramente inclinado e a cabeça dolorida.
Não sabia há quanto tempo estava ali, o que havia acontecido? Como se envolvera naquele acidente, e sozinha! Não havia ninguém por perto. Já estava fora do carro e percebeu que ele estava bem amassado, o estrago não fora pequeno. Procurou e não encontrou outro carro, estava sozinha, só não conseguia entender como tudo havia acontecido. Sondou o relógio, eram quase onze horas, era melhor tentar voltar para estrada e retomar a viagem, na cidade mais próxima ligaria pra casa. Enfiou uma aspirina na boca e mastigou na esperança de diminuir a dor que estava sentindo. Julia entrou no Astra azul, afivelou o cinto de segurança e um segundo antes de girar a chave na ignição para dar a partida ouviu uma ordem seca numa voz forte e máscula.
'-Não. Não ligue o carro'.
Ela suspendeu o movimento com o susto. Quando girou a cabeça pode visualizar o responsável pela ordem, ou pelo menos uma parte dele. Enxergou as botas apoiadas no estribo e as patas fortes do cavalo que o sustentava. Desabotoou o cinto de segurança e colocou a cabeça pra fora ao mesmo tempo em que ele desmontava e então conseguiu vê-lo por inteiro. Precisou respirar fundo para se conter, e agradeceu por estar sentada. Suas pernas tremeram ligeiramente quando ele se aproximou da janela e falou com absoluta autoridade:
'-Jamais dê partida em um carro nestas condições, você pode se machucar'. Ele era arrogante, quase rústico. Falava como se ela fosse uma garotinha desavisada.
Ela estava muda, não conseguiu dizer nada, mas sentiu uma raiva incontrolável se acumular em seu peito. Quem ele achava que era para lhe dar ordens naquele tom? Grosso! Mais uma vez ela olhou para ele, e novamente agradeceu por estar sentada. O 'filho da puta' podia ser grosso, mas era incrivelmente bonito!
'-Venha, vou levá-la para a cidade e providenciaremos para que venham buscar o carro'. Enquanto falava ele abriu a porta do carro, segurou a sua mão e conduziu-a para fora dele, deu a volta em torno dela e avaliou-a de alto a baixo. Quando se postou novamente a sua frente ele exibia um sorriso cínico e arrogante que não escondia a satisfação pelo que via.
Ela permaneceu calada, não conseguia emitir nenhum som, apenas mantinha os olhos fixos nele. E embora sentisse uma onda enorme de ódio invadir todo seu corpo e subir pela sua garganta não conseguiu liberar todas as palavras que vieram a sua mente. 'Grosso!'; 'Filho da puta, machista!'
'-Vamos'. Ele montou o cavalo que estivera quieto todo o tempo, como se assistisse a batalha que eles travavam, e estendeu-lhe a mão para que ela montasse exibindo novamente aquele sorriso cínico e absurdamente sexy.
Aquilo foi à gota d'água. Todo o ódio que estivera retido em seu peito explodiu, e ela perdeu o controle que vinha mantendo a muito custo desde que toda essa confusão começara.
'-Seu grosso! Quem você pensa que é? Acha que pode me dar ordens? Eu não vou subir neste cavalo, e não vou a lugar nenhum com você. Seu machista!'
Ele retribuiu todo aquele acesso de fúria com uma sonora gargalhada, estava achando realmente divertido. Aquela mulher minúscula parecia ser capaz de dar-lhe uma surra se ele estivesse no chão. Além de linda, ela era temperamental... Iria gostar de conhecê-la...
'-Eu só estou tentando ajudar'. Ele falou tentando parecer sério, mas o sorriso divertido que ela lhe provocava não pode ser apagado.
Ela ficou ainda mais furiosa, além de grosso e machista ele estava zombando dela. 'Canalha!'
'-Eu não preciso da sua ajuda! Vou chamar o seguro para me rebocar'.
'-Ok! Se você prefere assim, tudo bem! Mas é melhor você entrar no carro se não quiser se molhar, as nossas tempestades de verão são violentas'. Balançou as pernas esporeando o cavalo que partiu em disparada.
'-Babaca!' Julia olhou para o céu que estava azul e ensolarado há alguns minutos atrás e viu as nuvens grossas de tonalidade cinza se avolumando sobre a sua cabeça, um vento frio e furioso começou a agitar as árvores ao seu redor. O idiota tinha razão iria cair um temporal, ela se apressou em entrar no veículo e enfiou a mão por dentro da bolsa a procura do celular.
Assim que segurou o pequeno aparelho em suas mãos, o temporal desabou. Uma chuva grossa que provocava um barulho assustador ao se chocar contra o teto do carro dando a apavorante sensação de que ele não iria resistir, o vento furioso agitava as árvores ao redor e era possível sentir a leve vibração do Astra o que provocou um arrepio de medo em todo o seu corpo.
'-Filho da puta!' Ela praguejou. O filho da puta, podia ter insistido e a obrigado a acompanhá-lo. Estava acostumada a seguir ordens, era sempre assim, nunca agia sozinha. Sempre seguindo os comandos, era mais fácil. Mais cômodo evitava problemas. E se alguma coisa saísse errada, ainda podia responsabilizar o outro.
'-Droga!' Mais uma vez praguejou. Era isto que dava fazer o que queria sempre se machucava. Agora estava ali, perdida, sozinha no meio da estrada, debaixo de um temporal capaz de fazer tremer todos os seus ossos, e com a merda do telefone exibindo no visor aquela palavrinha nojenta: roam.
'-Droga! Droga! Droga!' A porcaria de lugar não tinha nem mesmo telefone.
Quando o clarão de um relâmpago rasgou o céu de alto a baixo, e o estrondo ensurdecedor do trovão despencou sobre sua cabeça, ela sentiu o sangue fugir do seu corpo e se não estivesse sentada provavelmente teria caído. Suas pernas ficaram bambas e um medo súbito e desproporcional a invadiu. Parecia impossível segurar o pranto, não iria agüentar, seus olhos começaram a queimar e as lágrimas já estavam apontando quando escutou uma batida forte no vidro ao seu lado. Engoliu em seco e recolheu as lágrimas, não iria chorar na frente daquele grosso. Não iria lhe dar aquele gostinho, depois que zombara dela. Procurou colocar no rosto um ar casual enquanto abaixava o vidro do carro.
‘-Não temos celular por aqui, só na cidade’. Ele falou de forma descontraída como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo
‘-Mas que porra de lugar é este?! Quem são vocês? Ficaram presos no tempo? Será que vocês têm energia elétrica?’ Ela estava furiosa, perdera todo o controle e ele a deixava irritada com aquele olhar indiferente e o sorriso cínico no canto da boca.
‘-Temos sim, mas não em um tempo como este’.
‘-o que? Sem luz também?’ Ela parecia desolada. Arriou na poltrona e entregou os pontos. Achou que não iria conseguir segurar o pranto. Estava perdida num fim de mundo, debaixo de um temporal assustador, com um sacana convencido, sem a menor perspectiva de conseguir continuar a viagem e ainda por cima sem telefone e sem luz!
‘- Olha, venha. Eu vou levá-la para cidade. Com este tempo é impossível que o reboque chegue para resgatar o seu carro’.
Ela não estava convencida, não sabia se queria ir. Não tinha certeza se podia confiar nele, mas quando outro relâmpago rasgou o céu e o som ensurdecedor do trovão novamente desabou sobre sua cabeça ela concluiu que não tinha alternativa. Iria para cidade e tomaria as providências para sair logo dali, ou permanecia sozinha debaixo daquele temporal. Embora contrariada teve que admitir que a segunda opção era mais assustadora.
‘-Vamos. Eu não vou mordê-la’. Ele pensou consigo que não seria uma má idéia, morder aquele narizinho petulante que ela mantinha sempre arrebitado com uma postura afetada que fazia um homem querer cravar os dentes ali só pra sentir o gosto. ‘-Você pode usar o telefone na cidade pra fazer os contatos com a seguradora’.
‘-Acho que não tenho alternativa’.
Ele abriu a porta do carro e estendeu as mãos para ajudá-la a sair. Quando suas mãos seguraram as mãos de Júlia, ela pode sentir uma energia fluir entre eles como uma descarga elétrica. Estava louca, era como se o relâmpago que tremeluzia no céu há poucos minutos estivesse se descarregando entre eles. Ela percebeu a cabeça ligeiramente leve e uma tontura fugaz a fez perder momentaneamente o equilíbrio enquanto o coração dava pinotes dentro do peito. Ele a amparou e o calor dos seus braços em torno de seu corpo a fez arrepiar-se. Com o maior cuidado ele a conduziu pelo caminho mais seguro e bem perto ela pode avistar a caminhonete estacionada na estrada. Era uma ranger preta que ele mantivera com os faróis acessos para facilitar à caminhada debaixo do aguaceiro que caia. Quando ele espalmou as mãos generosamente em seus quadris para fazê-la subir na cabine, uma onda de excitação se irradiou da sua pelve e subiu pelo seu corpo, tão logo ela se viu sentada no banco da caminhonete percebeu que os seus mamilos estavam duros e aparentes sobre a camiseta de malha amarela, tanto em função da chuva e do vento frio quanto pela sensação erótica que as mãos dele em suas nádegas haviam provocado. Rapidamente cruzou os braços sobre o peito, mas não sem antes perceber que ele também estivera olhando para seus seios, quase devorando-a com os olhos e exibia aquele sorriso cínico e arrogante no canto da boca. Lançou-lhe um olhar furioso, tanto pelo gesto inconveniente com as mãos quanto pelo olhar descarado que ele havia lhe lançado.
‘-Eu só estava tentando evitar que você caísse, desculpe!’ Ele manteve aquele sorriso cínico nos lábios enquanto se desculpava.
Ela limitou-se a fulminá-lo com o olhar. Sujeitinho irritante! Cínico!
Enquanto ela aguardava na caminhonete, ele tomou todas as providencias necessárias. Transferiu as malas para a carroceria, certificou-se de que estavam em segurança e devidamente cobertas, trancou o carro e lhe entregou as chaves. Quando ele subiu ao volante percebeu que ela estava tremendo de frio naquela calça jeans e na camiseta ensopadas, estendeu a mão por trás do banco e conseguiu apanhar a jaqueta de couro que estava ali.
‘-Tome você vai se sentir mais aquecida’.
‘-Obrigada’. Ela limitou-se a agradecer, pois, ainda estava irritada, furiosa com a forma como ele olhara para ela, e mais ainda por perceber que ficara absurdamente excitada.
Ele guiava com segurança pela estrada molhada indicando que estava acostumado aquele clima temperamental e hostil. Alguns metros mais adiante uma pequena placa quase oculta pela vegetação indicava: Nova Esperança 20 km. Ele fez a curva com cuidado saindo da rodovia e entrando numa estrada mais estreita.
'-Estamos quase chegando, você pode se instalar no 'Palácio da Esperança' e fazer suas ligações em segurança. '
'-Tenho que ligar para os meus pais que devem estar preocupados... ' Ela falou mais para si mesmo do que para ele.
'-Estava indo visitá-los'.
Ela confirmou com um meneio de cabeça. Embora estivesse com um enorme estoque de perguntas na cabeça ele achou melhor não incomodá-la, ela parecia querer ficar só.
Alguns minutos mais e ele parou o carro. Desceu, deu a volta e abriu a porta ajudando-a a saltar. Ela pode perceber que a chuva diminuíra de intensidade e o vento não parecia mais furioso, agora soprava como uma brisa leve espalhando o agradável cheiro de terra molhada pelo ar. Aguardou enquanto ele tirava a sua mala da carroceria e o acompanhou quando ele entrou no hotel.
'-Ei, Carlos, trouxe uma hospede para você'.
Enquanto o homem idoso se aproximava com seus passos vagarosos, ela focalizou todo o ambiente ao seu redor. Não era um hotel cinco estrelas, mas o ambiente era aconchegante fazia lembrar a casa dos avós, a iluminação produzida pelos lampiões suspensos na parede davam ao local um ar acolhedor. Gostara dali, com certeza poderia ter uma noite agradável e resolver todos os problemas amanhã.
'-Boa tarde!' O velho conseguira chegar ao balcão e lhe oferecia um sorriso cativante.
Antes que o proprietário começasse a mostrar-lhe as opções de estadia, o outro homem estendeu-lhe a mão e ofereceu-lhe um sorriso sedutor.
'-Venha jantar no Guet's esta noite, e eu lhe pagarei uma bebida se você me disser o seu nome'.
Antes que ela pudesse responder ele desapareceu pela porta.

***

Julia estava de banho tomado e com roupas secas e aquecidas no amplo e aconchegante quarto do hotel. Andava de um lado para o outro com o pequeno telefone no ouvido, tentando tranqüilizar os pais, bastou se virar um pouquinho para perceber a claridade difusa que se irradiava pelos vidros da janela. Ficou curiosa, aproximou-se e com alguma dificuldade conseguiu girar o trinco com a mão livre e escancarou a janela de madeira. O espanto foi tão grande que ela achou que estivesse sonhando. Era impressionante! Como era possível? Há poucos minutos atrás uma tempestade assustadora quase inundava a cidade e agora o céu estava completamente límpido. O azul que ela enxergava era deslumbrante, parecia irreal, mágico, e... Nenhum sinal das nuvens ameaçadoras, e aquele sol pálido que irradiava seu brilho por toda parte. Deslumbrante! Ela se aproximou mais um pouco, se debruçou sob o parapeito da janela e quase deixou o telefone cair quando o viu. Era algo que sempre a encantava, era o que ela mais gostava na natureza. Fazia com que suportasse a chuva, na expectativa de que ele apareceria depois. Despediu-se rapidamente dos pais e prostrou-se na janela admirando o arco multicolorido que se desenhava no céu, era o maior, o mais brilhante e mais belo arco-íris que já vira! Imaginou ter escutado uma voz a lhe sussurrar 'no fim do arco-íris, há um pote de ouro'.
Começou a rir sozinha, agora estava ficando louca! Isto é lenda, folclore! Mas a voz novamente sussurrou em seu ouvido 'no fim do arco-íris há um pote de ouro'. Sentiu o coração palpitar e uma idéia florescer na sua mente, e se ela seguisse a trilha, e se chegasse ao fim do arco-íris? O que encontraria? Ora, Julia, que idéia mais louca! Todo mundo sabe que não existe o fim do arco-íris! A idéia voltou a florescer na sua mente e uma sensação incontrolável de ansiedade agitou seu coração, que mal havia em dar um passeio por ai, conhecer a cidade é claro que não iria perseguir a trilha do arco-íris, nem procurar um pote de ouro, era só um passeio. Calçou uma sandália de tirinhas, deu uma última olhada no espelho alisando a saia do vestido de brim com mangas japonesas, que terminava logo acima dos joelhos e moldava-lhe suavemente os quadris e desceu.
Enquanto girava pelos arredores sentia o sol queimar ligeiramente a sua pele e aspirava o aroma agradável de terra molhada. Não demorou alguns metros para passar em frente ao Guet's o que a fez recordar o convite daquele homem, 'Filho da puta machista' afastou o pensamento, teria que analisar mais tarde se iria aceitar o convite. Poderia aproveitar o passeio para descobrir se poderia jantar em outro local, embora alguma coisa lhe dissesse que ela iria aceitar. E, quando começou a se sentir ofegante pela subida de uma pequena colina, olhou para cima e percebeu que estivera todo o tempo seguindo o arco-íris, e ele a levara até ali, no alto da colina onde uma pequenina casa de madeira estava assentada.
'-Olha só, o meu pote de ouro!'
Ela estava se sentindo cansada e ofegante pela caminhada, mas também feliz. Nunca sentira uma paz e uma felicidade tão genuínas! Sentou-se na escada para tomar fôlego enquanto estudava a paisagem ao seu redor. Parecia deserta e abandonada, mas ainda assim encantadora. Começou a imaginar que seria gostoso viver ali, acordar com os sons da natureza, tomar café olhando aquela paisagem e caminhar até o trabalho, não precisaria de carro ali. No caminho até a cabana encontrara farmácia, mercado, uma agência bancaria e os correios, além do Guet's que parecia realmente ser o único bar da cidade. Levantou-se e deu a volta em torno da cabana, estava realmente abandonada, o jardim precisava de cuidados e uma pintura não seria mal. Sentiu uma alegria genuína quando viu o riacho nos fundos, era mesmo um lugar agradável, poderia ser bom viver ali.

***

A noite chegou, e Julia não teve escolha. Não adiantava ficar no quarto, não iria conseguir uma refeição decente ali. E quando chegou à janela o céu de um azul escuro, completamente livre de nuvens e pontilhado de estrelas estava visível para seu deleite, à lua majestosa iluminava tudo com um brilho prateado. Sentiu-se invadida pela magia daquela noite e suspirou, afirmando para si mesmo que seria um sacrilégio permanecer trancada no quarto. Ela não iria deixar de desfrutar a noite por causa daquele troglodita. Mas um troglodita escandalosamente sexy! O pensamento se formou antes que ela pudesse contê-lo e provocou-lhe uma onda de calor que Julia afastou praguejando furiosa consigo mesma. Era hora da sua vingança! Colocou um tubinho vermelho de alcinhas finas com um generoso decote nas costas, calçou a sandália preta de salto alto e aplicou uma maquiagem leve. Algumas gotas de perfume, argolas douradas e a corrente de ouro com o pequeno coração pendurado. Olhou-se no espelho e gostou do que viu. Vamos ver o que aquele troglodita vai fazer.
O Guet's era o único bar e restaurante da cidade. É claro que existiam outros botecos espalhados por aí, aonde se podia tomar uma cerveja, uma cachaça, jogar uma sinuca e bater um papo com os amigos. Havia também o bistrô francês para um jantar sofisticado regado a um bom vinho. Mas se você queria algo mais descontraído, boa comida, música, dança e um flerte com certeza o lugar era o Guet's.
Ele a notou tão logo ela atravessou a porta. E como era uma cidade pequena todos os olhos se voltaram para ela quando Julia entrou no bar, aquilo a deixou completamente embaraçada, ela odiava ser o centro das atenções. Então para fugir da situação incomoda tanto quanto para provocá-lo ela se encaminhou ao balcão e sentou-se próximo aquele homem. Ele aspirou deliciado o perfume que sua pele exalava... Primavera em Paris era esse o cheiro que ela tinha, suave, delicado, romântico, sexy. Ele ofereceu-lhe aquele sorriso cínico e ao mesmo tempo sexy de canto de boca, e isto foi o suficiente para que a raiva completamente suplantada pelo agradável passeio sob o arco-íris viesse à tona novamente, ele era cínico e convencido, mas ainda assim não podia negar que mexia com ela. Bobagem! Fantasias, você esta se sentindo só. E apenas auto-piedade, nada mais. Toda aquela convicção, porém, não foi suficiente para impedi-la de se dirigir a ele, retribuindo o sorriso cínico.
'-Meu nome é Julia, e eu vou aceitar uma caneca de cerveja'. Ela estendeu a mão enquanto fitava a mudança em sua fisionomia, ao mesmo tempo em que sentava em um dos bancos que ficavam no balcão, cruzando as pernas e fazendo o vestido subir alguns centímetros para o deleite de Dominic.
Ele arregalou os olhos em surpresa e recolheu momentaneamente o sorriso sem acreditar no que estava acontecendo. Então ela estava querendo flertar? Aquilo era espantoso! Tinha errado em suas previsões e isto era raro em se tratando de mulheres! Ele demorou um pouquinho para recuperar o controle, armou novamente o sorriso poderoso e segurou a mão que ela lhe oferecia.
'-Dominic Firenzze, é um enorme prazer oferecer-lhe a cerveja'.
Ele beijou delicadamente a mão que estivera segurando antes de pedir ao garçom que lhes servisse. E foi a vez de Julia precisar conter o espanto. Ela não esperava um gesto como aquele vindo de um grosso. Ah! Então ele também podia ser gentil e sedutor quando queria. Julia sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha com o contato dos lábios quentes e firmes daquele homem em sua pele. Não pode evitar o pensamento de como seria sentir aqueles lábios sob os seus. Firme, possessivo, poderoso, era como deveria ser o beijo dele. Ela foi surpreendida pelo gesto gentil e isto diminuiu um pouco a raiva que ele lhe provocava.
'-Vocês têm uma cidade adorável!'
'-Eu a vi, durante à tarde, caminhando... '
A revelação era amistosa, mas ela se sentiu invadida, ele conseguia ser bastante desagradável quando queria. Quem ele pensava que era para espioná-la, era só o que faltava. O homem além de grosso era indiscreto.
'-Você estava me espionando?'
Ele soltou uma gargalhada e utilizou um tom sedutor para responder.
'-Não mesmo, mas você desfilou em frente ao banco... Exatamente no momento em que eu conversava com o gerente... Seria impossível não vê-la, estava linda seguindo o arco-íris... ' E ele pensou que era mesmo um desfile o que ele presenciara. Ela era uma beleza. Miúda, mas com um par de pernas capaz de fazer um homem sonhar acordado em como seria deslizar as mãos de cima a baixo por elas. E os quadris... Nossa! Ele não queria pensar, mas era impossível não imaginá-la montando-o e movimentando os quadris sobre ele numa cavalgada durante uma sessão de sexo selvagem.
Ela sentiu o coração palpitar com aquelas palavras, será que estava tão evidente assim, o que aquelas pessoas iriam pensar...
'-Eu não estava seguindo o arco-íris, apenas caminhando... '
'-Eu também gosto de segui-lo, mas nunca encontrei meu pote de ouro, e você?'
Ela sentiu as suas defesas desabarem, mais uma vez ele estava sendo gentil, quando ela olhou dentro dos seus olhos tinha certeza de que ele estava sendo sincero, sentiu uma onda de ternura invadi-la.
'-Um pote de ouro, não. Mas, encontrei um tesouro... ' Ela tinha um olhar sonhador e um sorriso travesso se formou em seus lábios fazendo com que Dominic pensasse em fadas e feiticeiras...
'-Ah! A cabana da colina. ' Ele sussurrou bem próximo de Julia olhando-a bem dentro dos olhos como se houvessem apenas os dois no salão completamente lotado do pub, enquanto brincava com uma mecha dos cabelos loiros de Julia entre os dedos. Mais uma vez ela se surpreendeu com a ternura e a gentileza na voz dele.
'-Você conhece?' Ela respondeu fazendo um esforço enorme para a sua voz sair firme, pois a maneira como ele a olhava, como se ela fosse a única mulher no mundo, fazia o sangue de Julia circular mais rápido em suas veias e seus joelhos ficarem bambos.
'-É um lugar que eu costumo visitar quando quero ficar só... ' Ele respondeu colocando a mecha de cabelo atrás da orelha de Julia e deixando os dedos deslizarem pelo pescoço esguio até a base onde ele podia sentir a pulsação dela se acelerar sob os seus dedos. Engoliu em seco e respirou fundo para controlar o desejo de beijá-la ali, logo acima do colo, na reentrância sutil situada na base do pescoço onde o pingente em forma de coração repousava pendurado na fina corrente de ouro. Queria sentir o coração dela pulsando na sua boca, e depois subir até os lábios e saboreá-los.
Julia ainda estava envolvida pelas palavras e completamente cativa daquele olhar penetrante que parecia devorá-la de forma sutil e sensual. Ele exibira um tom de voz que expressava profunda solidão. Como era possível? Aquele homem tão seguro de si, confiante, até mesmo petulante, estava agora na sua frente, ela uma mulher desconhecida, completamente desarmado. Ele era surpreendente!
'-Está abandonada?' Ela falou ao mesmo tempo em que pegava a caneca de Guinnes para sorver um gole generoso tentando se afastar e quebrar a conexão sufocante que os unia de forma perigosa.
Ele também se afastou instintivamente do fogo que parecia querer fundi-los e tal como ela bebeu um largo gole da cerveja preta antes de responder.
'-Sim, há pelo menos vinte anos. Quando a Sra. Cecília morreu o marido não suportou a solidão e se mudou para o hotel. Desde então a cabana esta abandonada'.
'-E os filhos, não se interessaram?'
'-Eles não tiveram filhos’.
'-Que coisa triste... '
'-Aposto que ele adoraria vendê-la'. Ele disse estas palavras olhando-a bem dentro dos olhos, e pode perceber ali um brilho de expectativa.
A temperatura voltou a subir e aquela conexão surpreendente e assustadora ameaçava dominá-los mais uma vez, tornando o ar naquele ponto do pub quase palpável. A música começou a soar. O som da sanfona habilmente manejada por Maneco, acompanhado do triangulo que marcava o ritmo, não demorou muito para que os casais invadissem o salão. Antes que desse vazão ao desejo que estava sentindo de tomá-la nos braços e saciar a curiosidade de sentir o sabor da boca de Julia na sua, Dominic tirou-a para dançar. Sentia-se curioso para tê-la em seus braços. Já que não podia beijá-la, poderia experimentar a sensação de tê-la em seus braços e rodopiar com ela pelo salão, tinha a sensação de que seria uma experiência deliciosa.
'-Ei, vamos pra pista'. Ele convidou sem dar-lha a chance de recusar.
E antes que ela pudesse fazer qualquer objeção ele já havia arrastado-a para a pista e quando enlaçou a sua cintura Dominic não teve duvidas, ela era maravilhosa. A surpresa em Julia foi tão grande que ela ficou sem ação, e quando tomou consciência do que estava acontecendo, ele já tomara conta da situação. Ela estava completamente dominada, ele apertava seu corpo bem junto ao dela e movimentava-se sensualmente no ritmo da música projetando sua perna por entre as coxas de Julia com o movimento natural da dança. A sensação era tão agradável que embora contra sua vontade ela não conseguia se desvencilhar, quanto mais ela tentava se soltar mais ele a apertava e então ela se deixou levar no ritmo da música, procurou esquecer que estava nos braços de um homem completamente desconhecido.
Quando os últimos acordes da música soaram eles estavam ofegantes, pelo ritmo alucinante da dança e também porque o movimento sensual e quase erótico dos corpos naquele balé fazia o sangue correr mais rápido em suas veias, Dominic ainda a mantinha em seus braços, num encaixe perfeito dos corpos, sentia a cabeça tonta e o perfume dos cabelos louros de Julia o deixava embriagado, as idéias estavam desconexas em sua mente, sentia o seu sangue ferver e antes que pudesse pensar sussurrou em seu ouvido.
'-Eu seria capaz de possuí-la, aqui, se nos estivéssemos sozinhos'.
A reação dela veio antes que a frase realmente se tornasse consciente, como se fosse um reflexo condicionado. A bofetada sonora explodiu em seu rosto quase ao mesmo tempo em que as palavras foram jogadas na sua cara.
'-Canalha!'
Ele demorou alguns segundos para entender o que estava acontecendo, e quando sentiu o peso daquela mão em sua face às palavras ficaram claras na sua mente. O que ele havia dito? Não queria dizer aquilo! Não desta forma, que idiota!
'-Julia!' Ele tentou retê-la, mas ela se desvencilhou dos seus braços e saiu correndo em direção ao hotel. Dominic ainda tentou alcançá-la, mas foi em vão.
Todas as suas malas já estavam acomodadas no Corsa vermelho que seria seu pelas próximas semanas. O estrago no seu carro fora maior do que os arranhões aparentes na lataria sugeriam. Ela acertou a conta do hotel, e antes que entrasse no carro sentiu aquela mão forte detê-la pelo braço. Não precisaria se virar para saber quem era, mas mesmo assim o fez. Queria olhar na cara daquele canalha, fuzilá-lo com toda a fúria que sentiu crescer dentro de si, mas embora não quisesse admitir, tinha que lidar também com o desejo que ameaçava dominá-la, ele a excitava. Mas que droga! Era só porque estava se sentindo só.
'-Você é muito cínico!'
O olhar de fúria e desejo que ela lhe lançou apagou todas as palavras que ele havia ensaiado durante a noite para se desculpar. Ele errara, sabia disso, fora mesmo um canalha idiota, mas, droga! Ela também o desejara, podia sentir pelo tremor do seu corpo e pela pele arrepiada, quando ela estivera rodopiando pelo salão em seus braços... Antes que ela se desvencilhasse dos seus dedos, ele a segurou com mais firmeza e forçou-a a se virar, aproximou seu rosto quase a sufocando com seu hálito quente e másculo, e olhou-a bem dentro dos olhos.
'-Quando você voltar, e eu sei, pelos seus olhos, que você vai voltar, eu vou tê-la, Julia'.
O choque daquelas palavras e da convicção com que elas haviam sido pronunciadas por ele foi tão grande que ela não conseguiu emitir qualquer som, sua garganta estava travada, o coração disparado e a cabeça ressoava como um tambor. As mãos de Julia tremiam quando ela pousou-as no volante, respirou fundo e fez um esforço tremendo para girar a chave. E quando o fez ela sabia no seu íntimo que os sentimentos que agitavam o seu sangue eram ao mesmo tempo fúria e desejo.

***


domingo, 31 de julho de 2011

DEVERES, SONHOS E PAIXÕES - Capitulo 2

Capitulo 2

O gingado daqueles quadris povoou os seus sonhos durante toda a madrugada e quando ele abriu os olhos a primeira imagem que veio a sua mente foi àquela boca larga com lábios carnudos e um sorriso discreto e contido que fazia uma covinha se desenhar no canto esquerdo da face. Ele ganhara o direito de beijá-la e estava ansioso por cobrar sua dívida, queria sentir a textura daqueles lábios e a maciez de sua língua. Estendeu a mão para o criado ao lado da cama e pegou o guardanapo onde ela rabiscara o número do telefone, sabia que ela o fizera por impulso, percebera pelo seu comportamento que ela era tímida, não era uma atitude habitual, mas também não passou despercebido que ela se sentia atraída por ele tanto quanto ele ficara por ela. Aquele pensamento foi suficiente para dissipar qualquer dúvida. Sim, ele iria ligar.
Enquanto sentia a água fria molhar a sua pele ele recordou o contato que tivera na noite anterior. Ela lhe chamou a atenção tão logo adentrou no salão do pub, os olhos assustados correram todos os lados procurando aceitação e tentando afastar qualquer sinal de reprovação, então ela caminhou tentando parecer descontraída diretamente para o balcão e se sentou. Ficou pensando que embora tivessem conversado a noite toda não sabia seu nome. Começou a imaginar qual seria, e perdeu-se neste devaneio. Ao final da tarde de Domingo pegou o número rabiscado no papel e discou.
'-Oi!'
Não foi difícil para Julia reconhecer aquela voz, ela ressoara em sua mente desde que saíra do pub e povoara sua noite de sonhos. Mesmo assim ela se assustou e uma estranha náusea se formou no seu estomago, não pudera acreditar que aquilo estava acontecendo. Tinha esperança de ele fosse deixar pra lá, fora apenas uma bobagem, um flerte descontraído com uma cliente tímida e solitária... Mas, uma voz bem lá no fundo informou-a de que ela estava esperando ansiosamente por aquele telefonema e mais uma vez ela se assustou com a euforia que lutava contra o medo em sua mente.
'-Oi, você esta ai?' Ele voltou a perguntar.
'-Ah! Desculpe, eu... Eu... Não... '
'-Não acreditou que eu ligaria? Eu disse que cobraria minha dívida'.
'-É eu não esperava... ' Mas o tom de sua voz lhe dizia o contrario
'-Não mesmo? Você me pareceu interessada ontem... ' Ele deixou a frase no ar.
Mais uma vez ele estava flertando com ela e novamente ela percebeu o turbilhão em sua mente, medo e desejo... A distância fez a ousadia vencer a guerra.
'-Como posso querer algo, sem mesmo saber como se chama?'
'-Fácil resolver muito prazer Matheus e você?'
'-Julia'.
'-Um lindo nome e combina com você'.
'-Eu também gosto'.
'-Agora que já sabe meu nome eu quero o meu pagamento'.
'-Beijos'. Ele escutou o som estalado de um beijo do outro lado da linha.
'-Pronto, está pago, eu não disse que costumava pagar minhas dívidas?'
'-Não, não, não. Assim não vale, não foi este o trato'. Ele estava se divertindo com a força que ela estava fazendo para conter o desejo evidente em sua voz.
'-É claro que vale. Qual foi o trato? Um beijo, não especificamos como seria. Está pago!' Agora era ela que estava se divertindo com o desapontamento dele.
'-Não é justo, não por telefone... Você e uma má pagadora vou ter que recorrer a defesa do consumidor'.
'-Porque não tenta um acordo, primeiro?' No instante em que ela terminou a frase, se deu conta do que havia dito. E agora? Não havia mais volta, estava flertando abertamente com ele.
'-Que tal um sorvete? Está tão quente!...'
'-Um sorvete... ' Ela hesitava
'-Te espero na praia em uma hora, Fruit ok!'
Ele não demorou a se sentar na mesinha colocada no calçadão em frente ao agradável e elegante café. O ambiente propositadamente lembrava Viena ou a Riviera Francesa, as mesas redondas e as cadeiras confortáveis, a brisa suave e o cheiro de maresia, este ambiente agradável ficava completo com o brilho do sol no fim de tarde. Era sempre prazeroso tomar um expresso ou saborear o inigualável sorvete de frutas observando o mar. O deque era um local propositadamente estruturado para receber casais apaixonados e tudo ali girava em torno desta clientela especial, crianças não circulavam por ali e a noite o ambiente enchia-se de uma penumbra somente quebrada pela luz da lua e pelas velas que iluminavam o jantar ao som de violinos.
Julia sentiu-se amedrontada tão logo desligou o telefone e se deu conta do que tinha feito. Iria se encontrar com um homem que mal conhecia e ele iria querer beijá-la. Não podia fazer aquilo! É claro que fora coagida! Ele a envolvera em seu jogo de sedução, primeiro deixando-a tonta com todo aquele wisk irlandês, depois com aquela voz sedutora ao telefone... E ela caíra na armadilha... Caíra? Quem disse que ela tinha que ir? Podia simplesmente não aparecer... Isto parecia sensato... Mas, e se fosse? Qual seria o problema? Estava sozinha, havia rompido com Rodrigo há um mês... Um mês, não seria cedo? E qual seria o tempo certo? Perguntou-se. Uma vozinha tímida bem lá no fundo respondeu 'o tempo exigido por seu coração para recomeçar'.
Imediatamente o som daquela voz sensual, o brilho daqueles olhos e o sorriso encantador vieram a sua mente fazendo um fogo se acender em seu ventre. Ela girou a torneira do chuveiro até o final e se enfiou embaixo da água fria na esperança de que aquela ducha gelada diminuísse o calor que sentia na mente e no corpo com aquela lembrança. Mas foi em vão... E quando terminou a ducha e se enfiou no closet escutou aquela vozinha no fundo da sua mente, 'você já esta pronta para tentar'... E embora ainda estivesse insegura sabia que iria se encontrar com ele...
Ele estava tomando um Gim-Tônica e começou a pensar se ela viria já se passara mais de uma hora... Lembrou-se que ela parecera tímida e insegura, será que tinha sido muito arrojado? E se a tivesse amedrontado? Ela era uma mulher que exigia tato... Mas ainda assim recordou-se que ela havia flertado com ele e parecera estar atraída, e também se insinuara ao telefone... Começou a se sentir desconfortável, estava realmente querendo conhecê-la, ficara encantado desde o primeiro minuto... Mas também estava se sentindo ferido em seu orgulho, nunca antes uma mulher resistira ao seu flerte...
Enquanto ele sorvia o último gole do seu Gim-Tônica sentiu um alivio imenso e uma euforia até então desconhecida invadi-lo quando percebeu a chegada de Julia. Instintivamente aquele sorriso sedutor se espalhou em seu rosto e um brilho há muito apagado reacendeu-se em seu olhar enquanto observava ela caminhar em sua direção, linda! Realmente linda em seu vestido de verão de um degrade vermelho que realçava a pele clara e os belos olhos azuis. Ela caminhou em sua direção e também abriu um sorriso, no entanto o sorriso dela era tímido e envergonhado. Quando ele se levantou para recebê-la e se aproximou pode sentir o agradável perfume de seus cabelos recém lavados e o cheiro da fragrância em seu corpo...
'-Oi, esta uma linda tarde não?'
'-Agora que você chegou esta maravilhosa!'
Ele tomou-a pela mão e a conduziu para a mesa em que estivera sentado, e como era seu costume, ela se deixou levar.

***

Quando acordou no meio da noite, ela levou algum tempo para perceber onde estava. Somente quando seus olhos se acostumaram a penumbra reconheceu o quarto. Sentou-se na cama, completamente nua e abraçou os joelhos com as mãos. Por mais que tentasse negar uma alegria imensa e uma sensação de prazer, jamais, experimentada antes inundavam o seu corpo. Aquele pensamento voltou a pairar na sua mente 'o que havia feito? Mal o conhecia?'... Mas a sensação de prazer era mais forte e aquela onda de alegria novamente a inundou enquanto ela contemplava o homem adormecido ao seu lado.
Ele havia lhe mostrado a liberdade, definitivamente ele a libertara, sabia agora que estava pronta para realizar a mudança, sentia-se ainda insegura, mas estava fortalecida, sabia depois do que acontecera esta noite que era capaz! Havia vencido este obstáculo, dera um passo a frente, não era uma mudança de atitude, não iria sair por ai dormindo com todos os homens interessantes que cruzassem seu caminho, mas estava mais corajosa, valorizando mais as palavras do seu coração, aprendera a escutá-lo e a colocá-lo no centro da sua vida.
Ele era o seu herói. Observou fascinada, o belo homem adormecido ao seu lado. As costas largas e a pele morena contrastavam com a sua que era muito clara. E enquanto este pensamento invadia sua mente como uma tempestade, sentiu uma imensa onda de ternura inundar todo o seu pensamento como a bonança depois do turbilhão... Fez um tremendo esforço para conter as lágrimas que ameaçavam aflorar e foi só com muita dificuldade que conseguiu contê-las.
Levantou-se sorrateiramente esgueirando-se da cama para não despertá-lo, sabia que tinha que dar o fora dali antes que Matheus despertasse ou não conseguiria resistir ao seu charme... Não conseguiria? Ou será que não queria? Não conseguia pensar racionalmente sua cabeça girava confusa... Vestiu-se e deixou o apartamento. Os sapatos na mão, os cabelos desalinhados e as faces coradas de uma fêmea satisfeita no seu instinto mais primitivo. Enquanto caminhava pela praia sentindo a brisa suave e molhada acariciar o seu rosto esbarrou em alguns casais adormecidos nos braços um do outro após o sexo, como ela estivera até poucos minutos atrás.
Quando ela apreciava deslumbrada o nascer do sol, saboreando um delicioso café da varanda de seu apartamento, percebeu o que a intrigava... Como poderia ter sentido como familiares as sensações que ele lhe despertara? Não se conheciam? Eram estranhos? Agora sabia, tinha sonhado com isto, era o seu sonho erótico, mas desta vez fora real... Sentira na carne todas aquelas sensações, todo aquele prazer, sentira-se como uma deusa da luxúria, descobrira em si mesmo uma sensualidade que desconhecia... Era algo glorioso, podia ser uma loba na cama... E... Espantoso!? Aquilo não a deixava envergonhada ou constrangida, sentia-se poderosa, podia dominar o mundo, tudo por causa de uma transa fenomenal!

***

Matheus foi acordado pelo vazio na sua cama. Quando ele se moveu sonolento e estendeu a mão para tocá-la só pode sentir o vazio do lençol de cetim. Abriu os olhos lentamente tentando se proteger da luminosidade que insistia em penetrar pela fresta da varanda e murmurou o nome que era como um doce maná em seus lábios.
'-Julia. '
Como não recebeu resposta resolveu se levantar, o aroma suave de café indicava que ela estava na cozinha. Era maravilhoso, dormir com uma mulher fantástica, ela era um furacão na cama, completamente surpreendente... No inicio tímida, recatada até que ele conseguiu tocá-la, acertou aquele ponto, despertou a sensualidade que ela insistia em esconder e eles haviam feito sexo como ele nunca experimentara antes, nunca sentira tanto prazer em toda sua vida, e ele já estivera com muitas mulheres... Era um amante habilidoso e sabia dar e receber prazer, mas nunca antes sentira aquilo. Era como ser tragado para o meio de um furacão, enlouquecedor. Tinha a sensação de que seu corpo fora feito somente para aquele ato de amor, tinha sido feito para possuí-la. E ele o fizera de maneira frenética, selvagem, havia perdido todo o controle sobre seus movimentos. Quando gozaram pela primeira vez, ele ficou atordoado, a violência do que haviam feito deixou-o apreensivo ele sondou-a com medo de tê-la machucado no ato.
A resposta de Julia o surpreendeu. Puxou-o para si e envolveu-o num abraço apertado, buscou a sua boca como se aquilo fosse o ar necessário para sobreviver, sentiu as unhas da mulher embaixo de seu corpo cravarem-se em suas costas e o chamado frenético como se ela fosse uma cadela no cio. Era como ser sugado para um sonho erótico, e foi impossível não oferecer o que ela queria, mais uma vez mergulhou dentro dela e deixou toda a razão desaparecer da sua mente, era instinto puro, desejo incontrolável. Achou que poderia enlouquecer, queria prolongar a delicia de sentir aquele corpo estremecer sob o seu, de acariciar a pele daquela mulher e de beijá-la, queria olhar dentro dos seus olhos, mas ela tinha fome, urgência, febre de ser possuída por ele e não lhe permitiu hesitar. Penetrou-a bem fundo e ela o recebeu novamente como se esperasse por ele toda a eternidade. E quando estavam se aproximando do êxtase, ele se afastou um pouco e segurou-a pelos cabelos, queria olhar bem dentro dos seus olhos, queria surpreender o brilho do prazer que ele lhe proporcionava, aquilo o fazia sentir poderoso como um garanhão. E ela não o decepcionou, seus olhos irradiaram um brilho único e ela gemeu alto enquanto elevava os quadris para recebê-lo e aumentar o prazer mútuo.
Resvalaram lentamente para o sono, ofegantes, inundados de suor e de prazer. Julia exibia um sorriso satisfeito no rosto quando adormeceu. Ele permaneceu acordado por alguns momentos, admirando a bela mulher em seus braços. Não se cansava de mapear cada detalhe do seu rosto, cada curva do seu corpo, queria gravar em sua mente, em sua alma. Aspirou o perfume suave dos cabelos desgrenhados, e sentiu as pálpebras pesarem e o esforço do ato de amor se abater sob os músculos fortes. Adormeceu. E agora ela estava ali, na sua cozinha, terna fazendo café...
‘-Júlia’. Ele voltou a chamá-la
A sensação de prazer e de ternura se transformou em desapontamento amargo quando ele verificou que estava sozinho. O aroma que o iludira vinha do apartamento vizinho. Correu até o banheiro, ela devia estar tomando banho... Mais uma vez sentiu uma náusea revirar suas entranhas. Sentiu-se fraco, precisou segurar-se na parede do banheiro, e escorregou lentamente para o chão. Percebeu a ira, misturando-se com a sensação do orgulho ferido. Mas no meio destes sentimentos um enorme vazio, uma tristeza inigualável e uma sensação de desamparo. Como? Por quê? Ela havia sentido prazer também? Ele sabia, pelos gemidos na hora do gozo, pelo sorriso de felicidade em seus lábios quando ela adormeceu em seus braços... Fez um esforço gigantesco, para conter a náusea que subia pelas suas entranhas e para afastar as garras que apertavam o seu peito como um torno poderoso. Vasculhou a casa, procurou em todos os cantos, nada. Nem um bilhete, um recado rabiscado com batom no espelho... Nem um muito obrigada!
Entrou embaixo do chuveiro e abriu a torneira até o final, o jato de água gelado, pareceu aliviar um pouco a dor que estava sentindo. Sentia-se humilhado. Estava ferido no orgulho, sempre se acostumara a ter as mulheres rastejando aos seus pés. Era ele que sumia sorrateiramente no meio da noite quando o interesse era puramente sexual. Jamais uma mulher havia abandonado a sua cama, não se ele não a tivesse gentilmente convidado a sair. Praguejou contra a sua imagem refletida no espelho, colocando para fora nas palavras o caldo que era como uma mistura amarga de dor e raiva que fervilhava no seu íntimo.
Caíra na sua armadilha, ela tinha armado direitinho, e ele caíra como um patinho. Quantos homens ela havia enganado com aquele disfarce, timidez! Recato! Uma mulher com aquela performance na cama, só podia ser experiente, com toda certeza já tivera inúmeros amantes. Aquele pensamento fez a sua cabeça doer, ao mesmo tempo em que o seu peito era trespassado por uma pontada aguda. Sentia-se humilhado, fora um idiota! E estava sentindo ciúmes!
'-Ridículo ciúmes! Eles nem mesmo se conheciam, fora somente sexo. Desde o inicio a atração entre eles fora puramente erótica'. Bem lá no fundo uma vozinha abafada quis gritar, 'encantamento', e ele tratou de afastá-la rapidamente.
Fora somente sexo, e que sexo! Nunca tinha experimentado uma trepada tão gloriosa como aquela! Se este era o preço a pagar ponderou que valia a pena, ele fora habilmente atraído para sua teia de sedução.
'-Julia, Julia. Você é uma mulher excepcionalmente deliciosa'.
Sua cabeça estava doendo, uma sensação desconfortável que era agravada por todos aqueles pensamentos. Ele estendeu a mão para fora do boxe e pegou uma aspirina, enfiou-a na boca, mastigou e engoliu um bocado da água do chuveiro. Sentou-se no chão do boxe e deixou o líquido gelado cair como uma cachoeira sobre sua cabeça e escorrer pelo seu corpo, ele poderia lavar a angústia e a amargura que estava sentindo.
Algum tempo depois enquanto aguardava distraído o café que sairia da sua máquina de expresso e vigiando o ponto das torradas, ele não pode conter a manifestação daquele pensamento. Ela se mostrara tímida, reservada, percebera uma inconfundível insegurança pairando em seus olhos quando eles flertaram no pub e depois na praia sentados no aconchegante café. Também não podia negar que desde o primeiro instante uma energia muito forte os havia atraído, um fluxo de energia erótica que tinha a força de um furacão... É claro! Que estúpido! O tempo todo na minha frente e eu não conseguia enxergar... Ela ficara assustada com a fúria do desejo que experimentaram, é claro que acordara apavorada! Fugira! Teria que ser cauteloso, hábil, precisava planejar com calma... O melhor agora seria tomar um farto desjejum e ir pra faculdade. Quando ele girou a chave do seu Fiesta dourado sentia-se bem. Tinha a sensação de que nunca se sentira tão bem em toda vida.
'-Nada como uma boa trepada!' Ele gritou a plenos pulmões através da janela aberta.
Ele ainda tentou encontrá-la nas semanas que se sucederam aquela noite de sexo selvagem, mas foi em vão. O único contato que ele tinha o telefone, fora desligado e os dias que se seguiram àquela noite de prazer alucinante foram amargos. Ela povoava seus pensamentos, tanto a sensação erótica que a lembrança do sexo despertava quanto à ternura da tarde passada em sua companhia enquanto tomavam um sorvete, o assaltavam nos momentos mais inoportunos. Pare com isto seu idiota! Acabou! Foi uma boa trepada, mas só isto! Você pode conseguir outras, até melhores. E quando ele conheceu Fabíola, durante uma festa da faculdade não teve dúvidas. Arquivou os últimos resquícios daquela noite no porão da sua mente e se forçou a seguir em frente.

***

sábado, 9 de julho de 2011

Deveres, Sonhos e Paixões - Capitulo 1

DEVERES, SONHOS E PAIXÕES

Erika Maria Gonçalves Campana

Capitulo 1

A recepcionista quis saber para quantas pessoas era a mesa, Julia informou que queria sentar-se no balcão e que estava sozinha, então a atendente se afastou e lhe deu passagem. Ela avançou pelo salão apinhado de mesas em direção ao amplo balcão situado no fundo do pub e sentou-se no único banco que estava disponível.
Tivera sorte, situava-se em uma das pontas e iria permitir apreciar o movimento nas mesas e quem sabe flertar com alguém interessante.
'-Boa noite?'
Ela foi pega de surpresa por aquela voz quente e sensual e quando se virou para responder teve alguns minutos de hesitação ao visualizar o seu dono. Era um homem alto e moreno com belos olhos castanhos que a olhava exibindo um sorriso discreto e confiante.
'-Oi.'
'-Posso ajudá-la? O que vai querer?'
'-Hum! O que você sugere?' Ela devolveu-lhe o sorriso e empinou o nariz de uma forma afetada que o deixou fascinado.
'-Recomendo Irlanda Unida, uísque, creme de menta e sorvete de baunilha’.
'-Parece tentador, vou aceitar a oferta. Mas, isto não vai me deixar tonta, não é? Estou sozinha!'
'-Se você não estiver com pressa eu posso acompanhá-la, caso você passe dos limites'. Ele era insinuante.
'-Não pretendo passar dos limites, mas tenho todo tempo do mundo'.
Ele preparou o drink de forma habilidosa e ágil manejando os ingredientes com desenvoltura e enquanto ele manipulava a coqueteleira ela pode visualizar a curva dos seus músculos nos braços fortes e sentir um calor estranho inundar seu corpo
'-Aqui está'.
Julia sorveu lentamente um gole da bebida. Deixou o líquido demorar-se na sua boca e descer lentamente pela garganta aquecendo-a por inteiro enquanto mantinha os olhos fixos naquele homem a sua frente.
'-E então?' Ele perguntou mais uma vez com aquela voz sensual próxima ao seu ouvido.
'-É quente... E... Delicioso... Aquece a alma'.
'-Como você... A propósito, o que faz uma mulher fabulosa como você sozinha neste balcão?'
Ela se surpreendeu mais uma vez, ele estava flertando descaradamente com ela. E... Ela estava gostando do jogo. Ele se afastou para atender a um pedido de outro cliente e ela achou providencial para poder respirar.
'-Então?...' Ele insistiu
'-São as vantagens da modernidade. Uma mulher pode se sentar sozinha no balcão de um pub e conversar com o barman sem se sentir envergonhada'. Ela havia recuperado a calma e a confiança ao responder.
'-E você é uma mulher moderna?'
'-Uma exemplar legítima'.
Mais uma vez ele se afastou para servir uma caneca de cerveja
'-E você? O que faz um homem tão bonito atrás deste balcão? É um emprego temporário ou esta é sua vocação?'
O tom de voz era divertido, não exibia ironia, apenas sincera curiosidade e uma tímida malicia.
'-Acho que tenho pelo menos um pouquinho de vocação... Mas é o custeio do curso que me colocou aqui'.
'-Ah! Faculdade? Faz o que?'
'-Direito. Último ano'.
'-Hum! Deixe-me ver?' E ela se afastou e apertou os olhos tentando visualizar.
Ele ficou curioso e sentiu-se discretamente desconfortável em estar sendo avaliado por aquela mulher.
'-Você dará um belo advogado, realmente terno e gravata cairão bem em você.'
Ele sorriu aquele sorriso discreto e confiante e ela retribuiu.
'-E você? O que faz?'
Quando ele se afastou mais uma vez para atender a um cliente ela considerou que queria flertar um pouquinho mais e que um jogo de adivinha seria ideal. Quando ele retornou, ela emendou.
'-O que você acha? De que eu tenho cara?
Ele não esperava por aquilo, estava sendo envolvido num jogo de sedução por aquela mulher. Achou gostoso, estava se divertindo ela era realmente interessante.
'-Qual vai ser o meu prêmio, se eu acertar?'
'-Prêmio?'
'-É claro! Isto é um jogo, tem que haver um prêmio'.
'-É justo. Hum... Não sei...'
Como ela hesitava, ele não demorou a estabelecer o seu preço, já estava na sua cabeça e não foi difícil falar.
'-Um beijo! Se eu acertar você me da um beijo'
Ela não pode conter o espanto com a ousadia dele, mas sentiu o seu coração acelerar e imaginou como seria ser beijada por ele. Queria saber, mas não era certo! Ainda assim queria. Dane-se o certo!
'-Você esta trabalhando... Como vou poder pagar?' Ela estava hesitante, mas conseguiu dizer as palavras.
'-Você disse que tinha todo tempo do mundo... Podemos esperar o pub fechar... Ou... Se você ficar entediada pode me dar o seu telefone e eu me encarrego de cobrar'. Ele voltou a oferecer aquele sorriso encantador e olhou-a bem dento dos olhos
'-Você é um advogado nato, um negociador hábil, ok! Fechado’.
'-Hum... Publicitária?'
Ela soltou uma gargalhada divertida e sorveu mais um gole do drink.
'-Passou bem longe'.
‘-Três chances'. Ele falou.
Julia ponderou enquanto ele servia uma dose de wisk e entregava a uma das garçonetes.
- Tudo bem, três chances'. Ela concordou sentindo um frio na barriga por estar flertando abertamente com ele.
Matheus despachou cinco canecas de Guinnes antes de voltar até ela.
'-Empresária?'
Mais uma vez ela riu, fez um gesto negativo com a cabeça e sorveu um gole da bebida. O cliente que estava sentado a poucos centímetros de distancia e estivera observando o flerte dos dois chamou o barman.
'-Uma dose de Jommel's e... Conheço aquela belezinha. Ela é médica, e muito boa, salvou a vida do meu pai'.
Ele não se conteve e antes de entregar o pedido se aproximou de Julia com sorriso triunfante nos lábios.
'-Médica'.
Ela levou um susto. Não esperava que ele acertasse, ou esperava? O coração acelerou e a cabeça girou lentamente, ele permanecia a sua frente com o sorriso de triunfo nos lábios. Sem perceber ela retribuiu ao sorriso.
'-Como você descobriu?'
'-Sou muito observador, e... Um bom barman sempre tem bons contatos'.
Ele apontou com a cabeça para o homem sentado ao lado, e se dirigiu a ele com uma dose generosa de Jommel's que colocou no balcão e disse:
'-Este é por conta da casa'.
Ela ficou curiosa, fitou o homem que a cumprimentou com um aceno de cabeça, mas não pode reconhecê-lo. Não podia ser um paciente de outra forma ela o teria reconhecido.
'-Quem é? Eu não o conheço'.
'-Você salvou a vida do pai dele, e ele lhe e grato por isto'.
'-E retribui me entregando direitinho? É jogo sujo, trapaça!'
'-Nada disto. Eu acertei e agora vou querer o meu prêmio'. Ele tinha se aproximado muito dela por cima do balcão e Julia pode sentir o hálito quente em seu rosto, o perfume que ele estava usando era delicioso.
Mais uma vez ela sentiu um calor subindo pelo seu corpo. Estava louca? O que era aquilo? Nunca se sentira assim antes, aquilo era loucura! Ela nunca tinha visto aquele homem antes, como podia estar ali, em público flertando com ele sem qualquer timidez? Estava torcendo para não ruborizar. Não queria parecer uma adolescente tímida e inexperiente, era uma mulher de quase trinta anos!
'-E então? Como vamos fazer?' Ele retornou a carga após servir mais uma rodada de cerveja para uma das garçonetes que atendia as mesas.
'-Você esta trabalhando, deixa rolar... A gente decide mais tarde... '
'-Tudo bem, mas eu não vou abrir mão do que é meu'.
Embora estivesse se sentindo nervosa, a perspectiva de beijar o barman a deixava excitada e ela percebeu que estava ligeiramente alta. Não tinha certeza de quantas doses havia tomado seu copo fora mantido propositadamente cheio, a sensação de leveza que estava sentindo deixou-a repentinamente amedrontada. Não podia estar a sós com ele neste estado! Ou podia? O que iria acontecer se ele a beijasse agora? Ela iria se conter? Precisava, mas... Iria conseguir? Ele era tão bonito! Tão sexy! Percebeu que não estava em condições de manter um comportamento decente neste estado, não iria conseguir se controlar. Não podia ficar ali e esperar o pub fechar, seria impossível não cumprir o acordo, ele fora taxativo. Era melhor dar o fora logo.
'-Por favor, quer fechar a conta para mim?'
'-Você disse que tinha todo o tempo do mundo?!' Ele não escondeu o desapontamento ao pronuncias essas palavras.
'-Acho que isto é tempo demais... Estou cansada... E... Você se encarregou de manter o meu copo sempre cheio, acho melhor parar por aqui'.
'-Você ainda me deve uma aposta'. Ele segurou as mãos dela entre as suas e acariciou lentamente fazendo um arrepio gostoso subir pela sua espinha.
Ela engoliu em seco, tentou retirar as mãos, mas, ele aumentou a pressão.
‘-Eu não vou abrir mão, nós fizemos uma aposta e eu ganhei’. Aquele sorriso voltou a aparecer no rosto dele.
Ela não tinha escolha, ele não iria deixá-la partir sem pagar a aposta. E enquanto pensava nisto percebeu que queria paga-la, queria revê-lo, mas não assim fora do seu controle. Ela tomou a caneta que estava presa no bolso da camisa que ele usava, anotou o numero do seu telefone num guardanapo de papel e entregou-lhe.
‘-Eu costumo pagar as minhas dívidas. Tchau!
Ele ficou olhando aquela mulher se afastar e não pode deixar de prestar atenção ao gingado dos seus quadris. Ela era timidamente sensual. Quando chegou à porta Julia não se conteve e virou-se para dar de cara com o barman que estivera acompanhando seu desfile pelo salão, ele deixou aquele sorriso confiante se abrir e piscou discretamente para ela enquanto apontava para o número anotado no guardanapo fazendo sinal de que iria ligar.

***

Quando chegou a casa Julia estava completamente desperta. O trajeto pela auto-estrada com as janelas do Astra azul metálico arriadas sentindo o vento frio e úmido da noite bater em seu rosto foi suficiente para afastar o excesso de álcool que ela havia ingerido. Sabia que o cansaço alegado era uma desculpa. Estava com medo! Era estranho se sentir assim, atraída por um homem completamente desconhecido.
Ela não era assim, não costumava flertar com desconhecidos em bares noite adentro. Onde estava com a cabeça? E ainda por cima estava se sentindo excitada ao lembrar-se do sorriso que o barman lhe lançou e pensar na possibilidade de beijá-lo. Meu Deus! O que seus pais iriam pensar se soubessem daquilo? Não era uma atitude decente! Moças de família não saiam por aí dando o seu telefone e apostando beijos com barman’s! Estava mais assustada porque embora mantivesse uma guerra moral com a sua consciência sentia que estava perdendo a batalha. Todos aqueles argumentos que vinha evocando em voz alta ao longo do caminho estavam sendo ditos da boca pra fora. Não estava se sentindo culpada, nem com vergonha! Não era uma vadia! Era uma mulher livre! Independente e dona do seu próprio nariz!
Não fora sempre assim. Não, antes era tímida. Uma moça de família, que sabia como se comportar. Todos os namoros anteriores haviam sido completamente dentro do padrão pré-estabelecido de comportamento. Em casa, com o aval dos pais, almoço de domingo, e com rapazes de famílias renomadas, que ela havia conhecido no colégio ou na faculdade. Jamais imaginara sair a noite sozinha, sentar em um bar, beber um pouquinho além da conta e ficar louca de desejo de ir pra cama com o barman. Então era isto!? Agora havia acontecido! Ela permitiu que o pensamento se formasse em sua cabeça, e era verdade. Ela não queria apenas beijá-lo, experimentava um desejo enorme de fazer sexo com ele. Aquele pensamento deixou-a perturbada e ainda mais desperta.
Enquanto preparava um expresso na aconchegante cozinha do seu apartamento se esforçava para descobrir em que ponto do caminho havia dado esta guinada. O que há levara até este ponto? Quando ocorrera a mudança? Quanto mais se esforçava, mais difícil era. As idéias vinham de forma desconexa em sua mente. Acho que ainda estou tonta, pensou. Mas, uma voz bem lá no fundo a alertou: não está não! Você esta completamente sóbria. As coisas estão mesmo confusas. Seus sentimentos estavam emaranhados como um novelo de lã. Insatisfação, deveres, desejos, sonhos, medos, paixões, expectativas... Todos juntos como num grande balaio de gato.
Achava que tudo havia começado com a insatisfação progressiva que o exercício de sua profissão estava se tornando. Ainda assim quanto mais pensava nisto, sempre acabava chegando a conclusão de que não queria estar fazendo outra coisa. Como era possível? Ser médica era tudo o que queria e mesmo assim cada dia se tornava um fardo maior chegar ao hospital. Não fazia diferença se estava atendendo no ambulatório, no consultório ou se estava de plantão na emergência, era sempre desgastante.
Ficou curiosa ao perceber agora, que embora estivesse insatisfeita era sempre um grande prazer dar aula para os estudantes da graduação, seja em sala ou a beira do leito. Não estava enfadada da medicina e nem de seus pacientes, seu coração ainda palpitava e sua mente ainda ficava prontamente alerta com um caso clínico interessante. Sentia-se presa e amarrada com a burocracia de todo o processo. Mais da metade do trabalho de um médico consistia em preencher papeis, guias de convênio, prontuários, fichas e mais fichas... Sobrava pouco tempo para o que realmente interessava: o paciente! Se você não estava atolado em fichas e papéis, o volume desproporcional de pessoas que necessitavam do serviço público forçava a um atendimento apressado e muitas vezes superficial. Quando o paciente tinha seguro-saúde, ainda assim a situação não era muito diferente. Desta vez a baixa remuneração por cada consulta, obrigava o médico a inchar a sua agenda espremendo os horários e encurtando o tempo de cada consulta. Sentia-se num campo de batalha, onde o prêmio era exercer a sua profissão com alguma dignidade.
Onde estavam todos aqueles sonhos e ideais embutidos no juramento de Hipócrates? Toda ação humanitária e desprendida amplamente contada na longa história da medicina? Todas as expectativas criadas enquanto estava na graduação se dissolveram como um castelo de areia no seu primeiro ano como médica. Todos os seus sonhos de cuidar dos pacientes, dedicar-lhes tempo, afeto, foram sendo engolidos pela perversa engrenagem da residência medica, do serviço público e dos seguros-saúde...
Cada vez que tinha que brigar para que um exame ou procedimento fosse autorizado sentia-se esgotada. Ao final do dia estava completamente desanimada, deprimida e sentindo-se prostituída. Vendia seus sonhos por uma migalha de permissão para exercer a medicina. Mas as coisas eram assim há muito tempo e ela era somente mais uma peça em toda a engrenagem do sistema. Deixou-se levar neste curso sem contestar, aceitando as coisas com resignação. Fora ensinada a ser assim, não devia se rebelar, não era certo.
À medida que o tempo transcorria foi acumulando insatisfações e mágoas, e sentia-se cada vez mais distante. Atendia de forma mecânica. Era tecnicamente impecável, sempre fora uma excelente médica e não se descuidava da atualização, utilizava-se de todo o arsenal tecnológico que dispunha para manter-se atualizada, internet, congressos, videoconferências. Mas, a cada ano sua chama de paixão diminuía, já não tinha mais aquele brilho febril no olhar, se acomodara a situação.
O que acabou desencadeando todo o processo de mudança, agora estava claro! Fora o seu relacionamento com Rodrigo, eles estavam juntos há quase seis anos. Haviam se conhecido no inicio da residência, ele era filho de uma família ilustre da cidade, o pai era um famoso cirurgião e Rodrigo estava seguindo os seus passos. Quando completaram dois meses de namoro ela o apresentou aos seus pais, viajaram para sua cidade no fim de semana e estavam oficialmente comprometidos. Quando eles começaram a dormir juntos parecia certo que fosse uma questão de tempo para estarem casados e para que Julia iniciasse a descendência dos Degoule.
Mas ela resistira fora sua primeira rebeldia. Tímida, amparada na desculpa de que queria consolidar a sua carreira primeiro, e de que Rodrigo iria fazer um período de residência em Londres... E as coisas foram sendo levadas em “banho Maria”. Nem mesmo ela tinha consciência de que começava a sua mudança ali, que iria culminar nesta mudança completa de planos algum tempo depois. Fora há alguns meses atrás, eles haviam transado e Rodrigo adormecera em seu apartamento como algumas vezes acontecia. Ela acordou no meio da noite e sentou-se na cama envolvendo os joelhos e abraçando-os como fazia quando era criança e um pesadelo a despertava. Desta vez não fora um pesadelo, e sim um sonho erótico!?! A sensação de prazer que experimentara fora tão intensa, que ainda estava impregnada em sua pele...
Tentou se lembrar do sonho estava assustada! Era como se estivesse traindo o namorado que dormia ao seu lado, porque ele não estava presente... Disto ela estava plenamente certa. Não era Rodrigo o homem que lhe despertara todas aquelas sensações. Não conseguia visualizar a fisionomia do homem, por mais que se esforçasse não era capaz de ver o seu rosto. Mas, o seu corpo foi se tornando cada vez mais nítido em sua mente. Era mais forte que Rodrigo, a pele mais morena, e... Aquilo começou a deixá-la excitada.
Que loucura! Nunca se sentira assim antes! Rodrigo nunca lhe despertara todo aquele desejo, aquela urgência. Não que fosse ruim fazer amor com ele. É claro que não! Sentia prazer, ele era delicado, carinhoso, mas... Sentia agora que faltava aquele turbilhão, aquele arrebatamento. Era tudo calmo demais... Mas que droga! Estava ficando louca! Ela o amava e... E... Sentia prazer com ele, é claro que sim! Mas... Não aquilo, não aquela sensação tão intensa que queimava a sua pele mesmo quando havia apenas sonhado com tudo aquilo.
Procurou retroceder um pouco mais as suas lembranças e os outros namorados com quem havia transado vieram a sua mente. Com Pedro Henrique e Danilo durante a faculdade era mais divertido, faziam sexo com uma freqüência alucinante, eram jovens e queriam experimentar tudo, mesmo assim nunca experimentara aquela sensação tão intensa e completa de prazer. Antes houvera o Fernando, da época do colégio, fora o primeiro, mas eram ambos adolescentes, inexperientes...
Começou a pensar que talvez ela fosse o problema. Conhecera quatro homens diferentes em sua vida, e nunca conseguira obter o prazer pleno até aquele momento, mesmo com Rodrigo a quem ela amava. Amava? Quando aquele pensamento perturbador iria começar a se infiltrar em sua mente ele abriu os olhos e ofereceu-lhe aquele sorriso meigo que ela conhecia tão bem.
‘-O que foi querida? Em que esta pensando?’ Ele percebera a fisionomia tensa de sua namorada
‘-Hum! Nada!’ Ela não podia contar nada daquilo a ele.
‘-Não adianta fingir, o que esta te preocupando?’
Ela não podia contar a ele o que estivera pensando. Teria que sair pela tangente, fazer aquilo que mais detestava mentir, dissimular, mas era o certo. Não poderia magoá-lo
‘-Estou pensando na sua viagem... Está tão perto agora... ’
Ele voltou a abrir um sorriso no rosto. Ela estava triste por causa dele, já estava com saudades, que gracinha.
‘-Ah minha querida! Não fique assim. Vai ser rápido, dois meses e eu estou de volta. Então nós vamos nos casar’. Ele levantou-se e abraçou-a suavemente
Aquela palavra caiu como uma pedra no seu coração. Era como se ele estivesse cravando uma estaca bem no meio do seu peito. Casar! Sentiu um frio enorme por dentro, como se todos os seus ossos estivessem congelados, uma estranha náusea inundou o seu estomago, estava apavorada.
‘-Vamos tomar café?’ Ele levantou-se de um pulo e puxou-a para cozinha.

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Livro novo!!!

Vou começar a postar por aqui o novo livro... Divirtam-se tanto quanto eu me diverti brincando de escritora rsrs

"Deveres, sonhos e paixões"