CAPITULO 3
Ela caiu na estrada com as mãos no volante do jipe com tração nas quatro rodas que adquirira na semana anterior. Quando fechou a porta do apartamento e entregou as chaves ao representante da imobiliária, sentiu uma estranha sensação de perda... Não era mais seu... Outras pessoas iriam residir ali, outras histórias seriam construídas naquele que fora seu lar nos últimos anos... Mas quando começou a sentir o vento fresco soprando diretamente em seu rosto pela capota arriada do jipe, sentiu uma energia renovada e tudo aquilo, apartamento, hospital, cidade grande, ficaram para trás... No passado... Um passado distante...
Inesperadamente as lembranças daquela noite a algumas semanas atrás encheram e ocuparam a sua mente, aqueles pensamentos foram capazes de colocar suas idéias em turbilhão, sentiu o sangue correr acelerado, como se quisesse disputar corrida com seu veículo... Por um pequeno lapso de tempo sentiu tudo rodar a sua volta e toda a paisagem descortinada a sua frente sair de foco. Respirou fundo e fez um esforço enorme para retomar o foco, precisava manter a mente atenta se não quisesse provocar um acidente...
Mas antes de arquivar aquelas lembranças no porão de sua memória saboreou um pouquinho mais o prazer que elas lhe proporcionavam. O poder de sentir um homem completamente rendido aos seus encantos, de tê-lo dominado pelo desejo de possuí-la. Sabia que naquelas poucas horas que passaram juntos ela poderia ter conseguido tudo o que quisesse, detinha o poder! Matheus lhe daria o mundo, subiria até o céu e roubaria as estrelas para depositar aos seus pés, tinha consciência de que ele seria capaz de transgredir todas as leis e se colocar em perigo somente para satisfazê-la. Pode perceber pelo brilho febril em seus olhos quando ele a possuía, no murmúrio e nos gemidos abafados que a satisfação do gozo libertaram. Naquela noite ele fora seu plenamente. Sentia-se realmente poderosa como uma fada tecendo encantamentos eróticos capazes de levar um homem a loucura.
'-Esqueça isto, passado... Agradável, mas passado! Vamos garota, vida nova!'
***
Nova Esperança era uma cidade pequena. Era curioso como o nome refletia seu estado de espírito. Coincidência? Destino? Não sabia se acreditava nestas coisas, a vida apenas seguia seu curso... Ainda assim não deixava de ser curioso, estava realmente ganhando nova esperança! Fora mesmo curioso à forma como tudo se desenrolara. Há um ano, estava se sentindo enfadada, cansada, desmotivada. Uma viagem para casa dos pais, à pista molhada por um pouquinho de chuva, uma pequena distração e lá estava ela, pra fora da estrada. O carro ligeiramente inclinado e a cabeça dolorida.
Não sabia há quanto tempo estava ali, o que havia acontecido? Como se envolvera naquele acidente, e sozinha! Não havia ninguém por perto. Já estava fora do carro e percebeu que ele estava bem amassado, o estrago não fora pequeno. Procurou e não encontrou outro carro, estava sozinha, só não conseguia entender como tudo havia acontecido. Sondou o relógio, eram quase onze horas, era melhor tentar voltar para estrada e retomar a viagem, na cidade mais próxima ligaria pra casa. Enfiou uma aspirina na boca e mastigou na esperança de diminuir a dor que estava sentindo. Julia entrou no Astra azul, afivelou o cinto de segurança e um segundo antes de girar a chave na ignição para dar a partida ouviu uma ordem seca numa voz forte e máscula.
'-Não. Não ligue o carro'.
Ela suspendeu o movimento com o susto. Quando girou a cabeça pode visualizar o responsável pela ordem, ou pelo menos uma parte dele. Enxergou as botas apoiadas no estribo e as patas fortes do cavalo que o sustentava. Desabotoou o cinto de segurança e colocou a cabeça pra fora ao mesmo tempo em que ele desmontava e então conseguiu vê-lo por inteiro. Precisou respirar fundo para se conter, e agradeceu por estar sentada. Suas pernas tremeram ligeiramente quando ele se aproximou da janela e falou com absoluta autoridade:
'-Jamais dê partida em um carro nestas condições, você pode se machucar'. Ele era arrogante, quase rústico. Falava como se ela fosse uma garotinha desavisada.
Ela estava muda, não conseguiu dizer nada, mas sentiu uma raiva incontrolável se acumular em seu peito. Quem ele achava que era para lhe dar ordens naquele tom? Grosso! Mais uma vez ela olhou para ele, e novamente agradeceu por estar sentada. O 'filho da puta' podia ser grosso, mas era incrivelmente bonito!
'-Venha, vou levá-la para a cidade e providenciaremos para que venham buscar o carro'. Enquanto falava ele abriu a porta do carro, segurou a sua mão e conduziu-a para fora dele, deu a volta em torno dela e avaliou-a de alto a baixo. Quando se postou novamente a sua frente ele exibia um sorriso cínico e arrogante que não escondia a satisfação pelo que via.
Ela permaneceu calada, não conseguia emitir nenhum som, apenas mantinha os olhos fixos nele. E embora sentisse uma onda enorme de ódio invadir todo seu corpo e subir pela sua garganta não conseguiu liberar todas as palavras que vieram a sua mente. 'Grosso!'; 'Filho da puta, machista!'
'-Vamos'. Ele montou o cavalo que estivera quieto todo o tempo, como se assistisse a batalha que eles travavam, e estendeu-lhe a mão para que ela montasse exibindo novamente aquele sorriso cínico e absurdamente sexy.
Aquilo foi à gota d'água. Todo o ódio que estivera retido em seu peito explodiu, e ela perdeu o controle que vinha mantendo a muito custo desde que toda essa confusão começara.
'-Seu grosso! Quem você pensa que é? Acha que pode me dar ordens? Eu não vou subir neste cavalo, e não vou a lugar nenhum com você. Seu machista!'
Ele retribuiu todo aquele acesso de fúria com uma sonora gargalhada, estava achando realmente divertido. Aquela mulher minúscula parecia ser capaz de dar-lhe uma surra se ele estivesse no chão. Além de linda, ela era temperamental... Iria gostar de conhecê-la...
'-Eu só estou tentando ajudar'. Ele falou tentando parecer sério, mas o sorriso divertido que ela lhe provocava não pode ser apagado.
Ela ficou ainda mais furiosa, além de grosso e machista ele estava zombando dela. 'Canalha!'
'-Eu não preciso da sua ajuda! Vou chamar o seguro para me rebocar'.
'-Ok! Se você prefere assim, tudo bem! Mas é melhor você entrar no carro se não quiser se molhar, as nossas tempestades de verão são violentas'. Balançou as pernas esporeando o cavalo que partiu em disparada.
'-Babaca!' Julia olhou para o céu que estava azul e ensolarado há alguns minutos atrás e viu as nuvens grossas de tonalidade cinza se avolumando sobre a sua cabeça, um vento frio e furioso começou a agitar as árvores ao seu redor. O idiota tinha razão iria cair um temporal, ela se apressou em entrar no veículo e enfiou a mão por dentro da bolsa a procura do celular.
Assim que segurou o pequeno aparelho em suas mãos, o temporal desabou. Uma chuva grossa que provocava um barulho assustador ao se chocar contra o teto do carro dando a apavorante sensação de que ele não iria resistir, o vento furioso agitava as árvores ao redor e era possível sentir a leve vibração do Astra o que provocou um arrepio de medo em todo o seu corpo.
'-Filho da puta!' Ela praguejou. O filho da puta, podia ter insistido e a obrigado a acompanhá-lo. Estava acostumada a seguir ordens, era sempre assim, nunca agia sozinha. Sempre seguindo os comandos, era mais fácil. Mais cômodo evitava problemas. E se alguma coisa saísse errada, ainda podia responsabilizar o outro.
'-Droga!' Mais uma vez praguejou. Era isto que dava fazer o que queria sempre se machucava. Agora estava ali, perdida, sozinha no meio da estrada, debaixo de um temporal capaz de fazer tremer todos os seus ossos, e com a merda do telefone exibindo no visor aquela palavrinha nojenta: roam.
'-Droga! Droga! Droga!' A porcaria de lugar não tinha nem mesmo telefone.
Quando o clarão de um relâmpago rasgou o céu de alto a baixo, e o estrondo ensurdecedor do trovão despencou sobre sua cabeça, ela sentiu o sangue fugir do seu corpo e se não estivesse sentada provavelmente teria caído. Suas pernas ficaram bambas e um medo súbito e desproporcional a invadiu. Parecia impossível segurar o pranto, não iria agüentar, seus olhos começaram a queimar e as lágrimas já estavam apontando quando escutou uma batida forte no vidro ao seu lado. Engoliu em seco e recolheu as lágrimas, não iria chorar na frente daquele grosso. Não iria lhe dar aquele gostinho, depois que zombara dela. Procurou colocar no rosto um ar casual enquanto abaixava o vidro do carro.
‘-Não temos celular por aqui, só na cidade’. Ele falou de forma descontraída como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo
‘-Mas que porra de lugar é este?! Quem são vocês? Ficaram presos no tempo? Será que vocês têm energia elétrica?’ Ela estava furiosa, perdera todo o controle e ele a deixava irritada com aquele olhar indiferente e o sorriso cínico no canto da boca.
‘-Temos sim, mas não em um tempo como este’.
‘-o que? Sem luz também?’ Ela parecia desolada. Arriou na poltrona e entregou os pontos. Achou que não iria conseguir segurar o pranto. Estava perdida num fim de mundo, debaixo de um temporal assustador, com um sacana convencido, sem a menor perspectiva de conseguir continuar a viagem e ainda por cima sem telefone e sem luz!
‘- Olha, venha. Eu vou levá-la para cidade. Com este tempo é impossível que o reboque chegue para resgatar o seu carro’.
Ela não estava convencida, não sabia se queria ir. Não tinha certeza se podia confiar nele, mas quando outro relâmpago rasgou o céu e o som ensurdecedor do trovão novamente desabou sobre sua cabeça ela concluiu que não tinha alternativa. Iria para cidade e tomaria as providências para sair logo dali, ou permanecia sozinha debaixo daquele temporal. Embora contrariada teve que admitir que a segunda opção era mais assustadora.
‘-Vamos. Eu não vou mordê-la’. Ele pensou consigo que não seria uma má idéia, morder aquele narizinho petulante que ela mantinha sempre arrebitado com uma postura afetada que fazia um homem querer cravar os dentes ali só pra sentir o gosto. ‘-Você pode usar o telefone na cidade pra fazer os contatos com a seguradora’.
‘-Acho que não tenho alternativa’.
Ele abriu a porta do carro e estendeu as mãos para ajudá-la a sair. Quando suas mãos seguraram as mãos de Júlia, ela pode sentir uma energia fluir entre eles como uma descarga elétrica. Estava louca, era como se o relâmpago que tremeluzia no céu há poucos minutos estivesse se descarregando entre eles. Ela percebeu a cabeça ligeiramente leve e uma tontura fugaz a fez perder momentaneamente o equilíbrio enquanto o coração dava pinotes dentro do peito. Ele a amparou e o calor dos seus braços em torno de seu corpo a fez arrepiar-se. Com o maior cuidado ele a conduziu pelo caminho mais seguro e bem perto ela pode avistar a caminhonete estacionada na estrada. Era uma ranger preta que ele mantivera com os faróis acessos para facilitar à caminhada debaixo do aguaceiro que caia. Quando ele espalmou as mãos generosamente em seus quadris para fazê-la subir na cabine, uma onda de excitação se irradiou da sua pelve e subiu pelo seu corpo, tão logo ela se viu sentada no banco da caminhonete percebeu que os seus mamilos estavam duros e aparentes sobre a camiseta de malha amarela, tanto em função da chuva e do vento frio quanto pela sensação erótica que as mãos dele em suas nádegas haviam provocado. Rapidamente cruzou os braços sobre o peito, mas não sem antes perceber que ele também estivera olhando para seus seios, quase devorando-a com os olhos e exibia aquele sorriso cínico e arrogante no canto da boca. Lançou-lhe um olhar furioso, tanto pelo gesto inconveniente com as mãos quanto pelo olhar descarado que ele havia lhe lançado.
‘-Eu só estava tentando evitar que você caísse, desculpe!’ Ele manteve aquele sorriso cínico nos lábios enquanto se desculpava.
Ela limitou-se a fulminá-lo com o olhar. Sujeitinho irritante! Cínico!
Enquanto ela aguardava na caminhonete, ele tomou todas as providencias necessárias. Transferiu as malas para a carroceria, certificou-se de que estavam em segurança e devidamente cobertas, trancou o carro e lhe entregou as chaves. Quando ele subiu ao volante percebeu que ela estava tremendo de frio naquela calça jeans e na camiseta ensopadas, estendeu a mão por trás do banco e conseguiu apanhar a jaqueta de couro que estava ali.
‘-Tome você vai se sentir mais aquecida’.
‘-Obrigada’. Ela limitou-se a agradecer, pois, ainda estava irritada, furiosa com a forma como ele olhara para ela, e mais ainda por perceber que ficara absurdamente excitada.
Ele guiava com segurança pela estrada molhada indicando que estava acostumado aquele clima temperamental e hostil. Alguns metros mais adiante uma pequena placa quase oculta pela vegetação indicava: Nova Esperança 20 km. Ele fez a curva com cuidado saindo da rodovia e entrando numa estrada mais estreita.
'-Estamos quase chegando, você pode se instalar no 'Palácio da Esperança' e fazer suas ligações em segurança. '
'-Tenho que ligar para os meus pais que devem estar preocupados... ' Ela falou mais para si mesmo do que para ele.
'-Estava indo visitá-los'.
Ela confirmou com um meneio de cabeça. Embora estivesse com um enorme estoque de perguntas na cabeça ele achou melhor não incomodá-la, ela parecia querer ficar só.
Alguns minutos mais e ele parou o carro. Desceu, deu a volta e abriu a porta ajudando-a a saltar. Ela pode perceber que a chuva diminuíra de intensidade e o vento não parecia mais furioso, agora soprava como uma brisa leve espalhando o agradável cheiro de terra molhada pelo ar. Aguardou enquanto ele tirava a sua mala da carroceria e o acompanhou quando ele entrou no hotel.
'-Ei, Carlos, trouxe uma hospede para você'.
Enquanto o homem idoso se aproximava com seus passos vagarosos, ela focalizou todo o ambiente ao seu redor. Não era um hotel cinco estrelas, mas o ambiente era aconchegante fazia lembrar a casa dos avós, a iluminação produzida pelos lampiões suspensos na parede davam ao local um ar acolhedor. Gostara dali, com certeza poderia ter uma noite agradável e resolver todos os problemas amanhã.
'-Boa tarde!' O velho conseguira chegar ao balcão e lhe oferecia um sorriso cativante.
Antes que o proprietário começasse a mostrar-lhe as opções de estadia, o outro homem estendeu-lhe a mão e ofereceu-lhe um sorriso sedutor.
'-Venha jantar no Guet's esta noite, e eu lhe pagarei uma bebida se você me disser o seu nome'.
Antes que ela pudesse responder ele desapareceu pela porta.
***
Julia estava de banho tomado e com roupas secas e aquecidas no amplo e aconchegante quarto do hotel. Andava de um lado para o outro com o pequeno telefone no ouvido, tentando tranqüilizar os pais, bastou se virar um pouquinho para perceber a claridade difusa que se irradiava pelos vidros da janela. Ficou curiosa, aproximou-se e com alguma dificuldade conseguiu girar o trinco com a mão livre e escancarou a janela de madeira. O espanto foi tão grande que ela achou que estivesse sonhando. Era impressionante! Como era possível? Há poucos minutos atrás uma tempestade assustadora quase inundava a cidade e agora o céu estava completamente límpido. O azul que ela enxergava era deslumbrante, parecia irreal, mágico, e... Nenhum sinal das nuvens ameaçadoras, e aquele sol pálido que irradiava seu brilho por toda parte. Deslumbrante! Ela se aproximou mais um pouco, se debruçou sob o parapeito da janela e quase deixou o telefone cair quando o viu. Era algo que sempre a encantava, era o que ela mais gostava na natureza. Fazia com que suportasse a chuva, na expectativa de que ele apareceria depois. Despediu-se rapidamente dos pais e prostrou-se na janela admirando o arco multicolorido que se desenhava no céu, era o maior, o mais brilhante e mais belo arco-íris que já vira! Imaginou ter escutado uma voz a lhe sussurrar 'no fim do arco-íris, há um pote de ouro'.
Começou a rir sozinha, agora estava ficando louca! Isto é lenda, folclore! Mas a voz novamente sussurrou em seu ouvido 'no fim do arco-íris há um pote de ouro'. Sentiu o coração palpitar e uma idéia florescer na sua mente, e se ela seguisse a trilha, e se chegasse ao fim do arco-íris? O que encontraria? Ora, Julia, que idéia mais louca! Todo mundo sabe que não existe o fim do arco-íris! A idéia voltou a florescer na sua mente e uma sensação incontrolável de ansiedade agitou seu coração, que mal havia em dar um passeio por ai, conhecer a cidade é claro que não iria perseguir a trilha do arco-íris, nem procurar um pote de ouro, era só um passeio. Calçou uma sandália de tirinhas, deu uma última olhada no espelho alisando a saia do vestido de brim com mangas japonesas, que terminava logo acima dos joelhos e moldava-lhe suavemente os quadris e desceu.
Enquanto girava pelos arredores sentia o sol queimar ligeiramente a sua pele e aspirava o aroma agradável de terra molhada. Não demorou alguns metros para passar em frente ao Guet's o que a fez recordar o convite daquele homem, 'Filho da puta machista' afastou o pensamento, teria que analisar mais tarde se iria aceitar o convite. Poderia aproveitar o passeio para descobrir se poderia jantar em outro local, embora alguma coisa lhe dissesse que ela iria aceitar. E, quando começou a se sentir ofegante pela subida de uma pequena colina, olhou para cima e percebeu que estivera todo o tempo seguindo o arco-íris, e ele a levara até ali, no alto da colina onde uma pequenina casa de madeira estava assentada.
'-Olha só, o meu pote de ouro!'
Ela estava se sentindo cansada e ofegante pela caminhada, mas também feliz. Nunca sentira uma paz e uma felicidade tão genuínas! Sentou-se na escada para tomar fôlego enquanto estudava a paisagem ao seu redor. Parecia deserta e abandonada, mas ainda assim encantadora. Começou a imaginar que seria gostoso viver ali, acordar com os sons da natureza, tomar café olhando aquela paisagem e caminhar até o trabalho, não precisaria de carro ali. No caminho até a cabana encontrara farmácia, mercado, uma agência bancaria e os correios, além do Guet's que parecia realmente ser o único bar da cidade. Levantou-se e deu a volta em torno da cabana, estava realmente abandonada, o jardim precisava de cuidados e uma pintura não seria mal. Sentiu uma alegria genuína quando viu o riacho nos fundos, era mesmo um lugar agradável, poderia ser bom viver ali.
***
A noite chegou, e Julia não teve escolha. Não adiantava ficar no quarto, não iria conseguir uma refeição decente ali. E quando chegou à janela o céu de um azul escuro, completamente livre de nuvens e pontilhado de estrelas estava visível para seu deleite, à lua majestosa iluminava tudo com um brilho prateado. Sentiu-se invadida pela magia daquela noite e suspirou, afirmando para si mesmo que seria um sacrilégio permanecer trancada no quarto. Ela não iria deixar de desfrutar a noite por causa daquele troglodita. Mas um troglodita escandalosamente sexy! O pensamento se formou antes que ela pudesse contê-lo e provocou-lhe uma onda de calor que Julia afastou praguejando furiosa consigo mesma. Era hora da sua vingança! Colocou um tubinho vermelho de alcinhas finas com um generoso decote nas costas, calçou a sandália preta de salto alto e aplicou uma maquiagem leve. Algumas gotas de perfume, argolas douradas e a corrente de ouro com o pequeno coração pendurado. Olhou-se no espelho e gostou do que viu. Vamos ver o que aquele troglodita vai fazer.
O Guet's era o único bar e restaurante da cidade. É claro que existiam outros botecos espalhados por aí, aonde se podia tomar uma cerveja, uma cachaça, jogar uma sinuca e bater um papo com os amigos. Havia também o bistrô francês para um jantar sofisticado regado a um bom vinho. Mas se você queria algo mais descontraído, boa comida, música, dança e um flerte com certeza o lugar era o Guet's.
Ele a notou tão logo ela atravessou a porta. E como era uma cidade pequena todos os olhos se voltaram para ela quando Julia entrou no bar, aquilo a deixou completamente embaraçada, ela odiava ser o centro das atenções. Então para fugir da situação incomoda tanto quanto para provocá-lo ela se encaminhou ao balcão e sentou-se próximo aquele homem. Ele aspirou deliciado o perfume que sua pele exalava... Primavera em Paris era esse o cheiro que ela tinha, suave, delicado, romântico, sexy. Ele ofereceu-lhe aquele sorriso cínico e ao mesmo tempo sexy de canto de boca, e isto foi o suficiente para que a raiva completamente suplantada pelo agradável passeio sob o arco-íris viesse à tona novamente, ele era cínico e convencido, mas ainda assim não podia negar que mexia com ela. Bobagem! Fantasias, você esta se sentindo só. E apenas auto-piedade, nada mais. Toda aquela convicção, porém, não foi suficiente para impedi-la de se dirigir a ele, retribuindo o sorriso cínico.
'-Meu nome é Julia, e eu vou aceitar uma caneca de cerveja'. Ela estendeu a mão enquanto fitava a mudança em sua fisionomia, ao mesmo tempo em que sentava em um dos bancos que ficavam no balcão, cruzando as pernas e fazendo o vestido subir alguns centímetros para o deleite de Dominic.
Ele arregalou os olhos em surpresa e recolheu momentaneamente o sorriso sem acreditar no que estava acontecendo. Então ela estava querendo flertar? Aquilo era espantoso! Tinha errado em suas previsões e isto era raro em se tratando de mulheres! Ele demorou um pouquinho para recuperar o controle, armou novamente o sorriso poderoso e segurou a mão que ela lhe oferecia.
'-Dominic Firenzze, é um enorme prazer oferecer-lhe a cerveja'.
Ele beijou delicadamente a mão que estivera segurando antes de pedir ao garçom que lhes servisse. E foi a vez de Julia precisar conter o espanto. Ela não esperava um gesto como aquele vindo de um grosso. Ah! Então ele também podia ser gentil e sedutor quando queria. Julia sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha com o contato dos lábios quentes e firmes daquele homem em sua pele. Não pode evitar o pensamento de como seria sentir aqueles lábios sob os seus. Firme, possessivo, poderoso, era como deveria ser o beijo dele. Ela foi surpreendida pelo gesto gentil e isto diminuiu um pouco a raiva que ele lhe provocava.
'-Vocês têm uma cidade adorável!'
'-Eu a vi, durante à tarde, caminhando... '
A revelação era amistosa, mas ela se sentiu invadida, ele conseguia ser bastante desagradável quando queria. Quem ele pensava que era para espioná-la, era só o que faltava. O homem além de grosso era indiscreto.
'-Você estava me espionando?'
Ele soltou uma gargalhada e utilizou um tom sedutor para responder.
'-Não mesmo, mas você desfilou em frente ao banco... Exatamente no momento em que eu conversava com o gerente... Seria impossível não vê-la, estava linda seguindo o arco-íris... ' E ele pensou que era mesmo um desfile o que ele presenciara. Ela era uma beleza. Miúda, mas com um par de pernas capaz de fazer um homem sonhar acordado em como seria deslizar as mãos de cima a baixo por elas. E os quadris... Nossa! Ele não queria pensar, mas era impossível não imaginá-la montando-o e movimentando os quadris sobre ele numa cavalgada durante uma sessão de sexo selvagem.
Ela sentiu o coração palpitar com aquelas palavras, será que estava tão evidente assim, o que aquelas pessoas iriam pensar...
'-Eu não estava seguindo o arco-íris, apenas caminhando... '
'-Eu também gosto de segui-lo, mas nunca encontrei meu pote de ouro, e você?'
Ela sentiu as suas defesas desabarem, mais uma vez ele estava sendo gentil, quando ela olhou dentro dos seus olhos tinha certeza de que ele estava sendo sincero, sentiu uma onda de ternura invadi-la.
'-Um pote de ouro, não. Mas, encontrei um tesouro... ' Ela tinha um olhar sonhador e um sorriso travesso se formou em seus lábios fazendo com que Dominic pensasse em fadas e feiticeiras...
'-Ah! A cabana da colina. ' Ele sussurrou bem próximo de Julia olhando-a bem dentro dos olhos como se houvessem apenas os dois no salão completamente lotado do pub, enquanto brincava com uma mecha dos cabelos loiros de Julia entre os dedos. Mais uma vez ela se surpreendeu com a ternura e a gentileza na voz dele.
'-Você conhece?' Ela respondeu fazendo um esforço enorme para a sua voz sair firme, pois a maneira como ele a olhava, como se ela fosse a única mulher no mundo, fazia o sangue de Julia circular mais rápido em suas veias e seus joelhos ficarem bambos.
'-É um lugar que eu costumo visitar quando quero ficar só... ' Ele respondeu colocando a mecha de cabelo atrás da orelha de Julia e deixando os dedos deslizarem pelo pescoço esguio até a base onde ele podia sentir a pulsação dela se acelerar sob os seus dedos. Engoliu em seco e respirou fundo para controlar o desejo de beijá-la ali, logo acima do colo, na reentrância sutil situada na base do pescoço onde o pingente em forma de coração repousava pendurado na fina corrente de ouro. Queria sentir o coração dela pulsando na sua boca, e depois subir até os lábios e saboreá-los.
Julia ainda estava envolvida pelas palavras e completamente cativa daquele olhar penetrante que parecia devorá-la de forma sutil e sensual. Ele exibira um tom de voz que expressava profunda solidão. Como era possível? Aquele homem tão seguro de si, confiante, até mesmo petulante, estava agora na sua frente, ela uma mulher desconhecida, completamente desarmado. Ele era surpreendente!
'-Está abandonada?' Ela falou ao mesmo tempo em que pegava a caneca de Guinnes para sorver um gole generoso tentando se afastar e quebrar a conexão sufocante que os unia de forma perigosa.
Ele também se afastou instintivamente do fogo que parecia querer fundi-los e tal como ela bebeu um largo gole da cerveja preta antes de responder.
'-Sim, há pelo menos vinte anos. Quando a Sra. Cecília morreu o marido não suportou a solidão e se mudou para o hotel. Desde então a cabana esta abandonada'.
'-E os filhos, não se interessaram?'
'-Eles não tiveram filhos’.
'-Que coisa triste... '
'-Aposto que ele adoraria vendê-la'. Ele disse estas palavras olhando-a bem dentro dos olhos, e pode perceber ali um brilho de expectativa.
A temperatura voltou a subir e aquela conexão surpreendente e assustadora ameaçava dominá-los mais uma vez, tornando o ar naquele ponto do pub quase palpável. A música começou a soar. O som da sanfona habilmente manejada por Maneco, acompanhado do triangulo que marcava o ritmo, não demorou muito para que os casais invadissem o salão. Antes que desse vazão ao desejo que estava sentindo de tomá-la nos braços e saciar a curiosidade de sentir o sabor da boca de Julia na sua, Dominic tirou-a para dançar. Sentia-se curioso para tê-la em seus braços. Já que não podia beijá-la, poderia experimentar a sensação de tê-la em seus braços e rodopiar com ela pelo salão, tinha a sensação de que seria uma experiência deliciosa.
'-Ei, vamos pra pista'. Ele convidou sem dar-lha a chance de recusar.
E antes que ela pudesse fazer qualquer objeção ele já havia arrastado-a para a pista e quando enlaçou a sua cintura Dominic não teve duvidas, ela era maravilhosa. A surpresa em Julia foi tão grande que ela ficou sem ação, e quando tomou consciência do que estava acontecendo, ele já tomara conta da situação. Ela estava completamente dominada, ele apertava seu corpo bem junto ao dela e movimentava-se sensualmente no ritmo da música projetando sua perna por entre as coxas de Julia com o movimento natural da dança. A sensação era tão agradável que embora contra sua vontade ela não conseguia se desvencilhar, quanto mais ela tentava se soltar mais ele a apertava e então ela se deixou levar no ritmo da música, procurou esquecer que estava nos braços de um homem completamente desconhecido.
Quando os últimos acordes da música soaram eles estavam ofegantes, pelo ritmo alucinante da dança e também porque o movimento sensual e quase erótico dos corpos naquele balé fazia o sangue correr mais rápido em suas veias, Dominic ainda a mantinha em seus braços, num encaixe perfeito dos corpos, sentia a cabeça tonta e o perfume dos cabelos louros de Julia o deixava embriagado, as idéias estavam desconexas em sua mente, sentia o seu sangue ferver e antes que pudesse pensar sussurrou em seu ouvido.
'-Eu seria capaz de possuí-la, aqui, se nos estivéssemos sozinhos'.
A reação dela veio antes que a frase realmente se tornasse consciente, como se fosse um reflexo condicionado. A bofetada sonora explodiu em seu rosto quase ao mesmo tempo em que as palavras foram jogadas na sua cara.
'-Canalha!'
Ele demorou alguns segundos para entender o que estava acontecendo, e quando sentiu o peso daquela mão em sua face às palavras ficaram claras na sua mente. O que ele havia dito? Não queria dizer aquilo! Não desta forma, que idiota!
'-Julia!' Ele tentou retê-la, mas ela se desvencilhou dos seus braços e saiu correndo em direção ao hotel. Dominic ainda tentou alcançá-la, mas foi em vão.
Todas as suas malas já estavam acomodadas no Corsa vermelho que seria seu pelas próximas semanas. O estrago no seu carro fora maior do que os arranhões aparentes na lataria sugeriam. Ela acertou a conta do hotel, e antes que entrasse no carro sentiu aquela mão forte detê-la pelo braço. Não precisaria se virar para saber quem era, mas mesmo assim o fez. Queria olhar na cara daquele canalha, fuzilá-lo com toda a fúria que sentiu crescer dentro de si, mas embora não quisesse admitir, tinha que lidar também com o desejo que ameaçava dominá-la, ele a excitava. Mas que droga! Era só porque estava se sentindo só.
'-Você é muito cínico!'
O olhar de fúria e desejo que ela lhe lançou apagou todas as palavras que ele havia ensaiado durante a noite para se desculpar. Ele errara, sabia disso, fora mesmo um canalha idiota, mas, droga! Ela também o desejara, podia sentir pelo tremor do seu corpo e pela pele arrepiada, quando ela estivera rodopiando pelo salão em seus braços... Antes que ela se desvencilhasse dos seus dedos, ele a segurou com mais firmeza e forçou-a a se virar, aproximou seu rosto quase a sufocando com seu hálito quente e másculo, e olhou-a bem dentro dos olhos.
'-Quando você voltar, e eu sei, pelos seus olhos, que você vai voltar, eu vou tê-la, Julia'.
O choque daquelas palavras e da convicção com que elas haviam sido pronunciadas por ele foi tão grande que ela não conseguiu emitir qualquer som, sua garganta estava travada, o coração disparado e a cabeça ressoava como um tambor. As mãos de Julia tremiam quando ela pousou-as no volante, respirou fundo e fez um esforço tremendo para girar a chave. E quando o fez ela sabia no seu íntimo que os sentimentos que agitavam o seu sangue eram ao mesmo tempo fúria e desejo.
***
sábado, 20 de agosto de 2011
domingo, 31 de julho de 2011
DEVERES, SONHOS E PAIXÕES - Capitulo 2
Capitulo 2
O gingado daqueles quadris povoou os seus sonhos durante toda a madrugada e quando ele abriu os olhos a primeira imagem que veio a sua mente foi àquela boca larga com lábios carnudos e um sorriso discreto e contido que fazia uma covinha se desenhar no canto esquerdo da face. Ele ganhara o direito de beijá-la e estava ansioso por cobrar sua dívida, queria sentir a textura daqueles lábios e a maciez de sua língua. Estendeu a mão para o criado ao lado da cama e pegou o guardanapo onde ela rabiscara o número do telefone, sabia que ela o fizera por impulso, percebera pelo seu comportamento que ela era tímida, não era uma atitude habitual, mas também não passou despercebido que ela se sentia atraída por ele tanto quanto ele ficara por ela. Aquele pensamento foi suficiente para dissipar qualquer dúvida. Sim, ele iria ligar.
Enquanto sentia a água fria molhar a sua pele ele recordou o contato que tivera na noite anterior. Ela lhe chamou a atenção tão logo adentrou no salão do pub, os olhos assustados correram todos os lados procurando aceitação e tentando afastar qualquer sinal de reprovação, então ela caminhou tentando parecer descontraída diretamente para o balcão e se sentou. Ficou pensando que embora tivessem conversado a noite toda não sabia seu nome. Começou a imaginar qual seria, e perdeu-se neste devaneio. Ao final da tarde de Domingo pegou o número rabiscado no papel e discou.
'-Oi!'
Não foi difícil para Julia reconhecer aquela voz, ela ressoara em sua mente desde que saíra do pub e povoara sua noite de sonhos. Mesmo assim ela se assustou e uma estranha náusea se formou no seu estomago, não pudera acreditar que aquilo estava acontecendo. Tinha esperança de ele fosse deixar pra lá, fora apenas uma bobagem, um flerte descontraído com uma cliente tímida e solitária... Mas, uma voz bem lá no fundo informou-a de que ela estava esperando ansiosamente por aquele telefonema e mais uma vez ela se assustou com a euforia que lutava contra o medo em sua mente.
'-Oi, você esta ai?' Ele voltou a perguntar.
'-Ah! Desculpe, eu... Eu... Não... '
'-Não acreditou que eu ligaria? Eu disse que cobraria minha dívida'.
'-É eu não esperava... ' Mas o tom de sua voz lhe dizia o contrario
'-Não mesmo? Você me pareceu interessada ontem... ' Ele deixou a frase no ar.
Mais uma vez ele estava flertando com ela e novamente ela percebeu o turbilhão em sua mente, medo e desejo... A distância fez a ousadia vencer a guerra.
'-Como posso querer algo, sem mesmo saber como se chama?'
'-Fácil resolver muito prazer Matheus e você?'
'-Julia'.
'-Um lindo nome e combina com você'.
'-Eu também gosto'.
'-Agora que já sabe meu nome eu quero o meu pagamento'.
'-Beijos'. Ele escutou o som estalado de um beijo do outro lado da linha.
'-Pronto, está pago, eu não disse que costumava pagar minhas dívidas?'
'-Não, não, não. Assim não vale, não foi este o trato'. Ele estava se divertindo com a força que ela estava fazendo para conter o desejo evidente em sua voz.
'-É claro que vale. Qual foi o trato? Um beijo, não especificamos como seria. Está pago!' Agora era ela que estava se divertindo com o desapontamento dele.
'-Não é justo, não por telefone... Você e uma má pagadora vou ter que recorrer a defesa do consumidor'.
'-Porque não tenta um acordo, primeiro?' No instante em que ela terminou a frase, se deu conta do que havia dito. E agora? Não havia mais volta, estava flertando abertamente com ele.
'-Que tal um sorvete? Está tão quente!...'
'-Um sorvete... ' Ela hesitava
'-Te espero na praia em uma hora, Fruit ok!'
Ele não demorou a se sentar na mesinha colocada no calçadão em frente ao agradável e elegante café. O ambiente propositadamente lembrava Viena ou a Riviera Francesa, as mesas redondas e as cadeiras confortáveis, a brisa suave e o cheiro de maresia, este ambiente agradável ficava completo com o brilho do sol no fim de tarde. Era sempre prazeroso tomar um expresso ou saborear o inigualável sorvete de frutas observando o mar. O deque era um local propositadamente estruturado para receber casais apaixonados e tudo ali girava em torno desta clientela especial, crianças não circulavam por ali e a noite o ambiente enchia-se de uma penumbra somente quebrada pela luz da lua e pelas velas que iluminavam o jantar ao som de violinos.
Julia sentiu-se amedrontada tão logo desligou o telefone e se deu conta do que tinha feito. Iria se encontrar com um homem que mal conhecia e ele iria querer beijá-la. Não podia fazer aquilo! É claro que fora coagida! Ele a envolvera em seu jogo de sedução, primeiro deixando-a tonta com todo aquele wisk irlandês, depois com aquela voz sedutora ao telefone... E ela caíra na armadilha... Caíra? Quem disse que ela tinha que ir? Podia simplesmente não aparecer... Isto parecia sensato... Mas, e se fosse? Qual seria o problema? Estava sozinha, havia rompido com Rodrigo há um mês... Um mês, não seria cedo? E qual seria o tempo certo? Perguntou-se. Uma vozinha tímida bem lá no fundo respondeu 'o tempo exigido por seu coração para recomeçar'.
Imediatamente o som daquela voz sensual, o brilho daqueles olhos e o sorriso encantador vieram a sua mente fazendo um fogo se acender em seu ventre. Ela girou a torneira do chuveiro até o final e se enfiou embaixo da água fria na esperança de que aquela ducha gelada diminuísse o calor que sentia na mente e no corpo com aquela lembrança. Mas foi em vão... E quando terminou a ducha e se enfiou no closet escutou aquela vozinha no fundo da sua mente, 'você já esta pronta para tentar'... E embora ainda estivesse insegura sabia que iria se encontrar com ele...
Ele estava tomando um Gim-Tônica e começou a pensar se ela viria já se passara mais de uma hora... Lembrou-se que ela parecera tímida e insegura, será que tinha sido muito arrojado? E se a tivesse amedrontado? Ela era uma mulher que exigia tato... Mas ainda assim recordou-se que ela havia flertado com ele e parecera estar atraída, e também se insinuara ao telefone... Começou a se sentir desconfortável, estava realmente querendo conhecê-la, ficara encantado desde o primeiro minuto... Mas também estava se sentindo ferido em seu orgulho, nunca antes uma mulher resistira ao seu flerte...
Enquanto ele sorvia o último gole do seu Gim-Tônica sentiu um alivio imenso e uma euforia até então desconhecida invadi-lo quando percebeu a chegada de Julia. Instintivamente aquele sorriso sedutor se espalhou em seu rosto e um brilho há muito apagado reacendeu-se em seu olhar enquanto observava ela caminhar em sua direção, linda! Realmente linda em seu vestido de verão de um degrade vermelho que realçava a pele clara e os belos olhos azuis. Ela caminhou em sua direção e também abriu um sorriso, no entanto o sorriso dela era tímido e envergonhado. Quando ele se levantou para recebê-la e se aproximou pode sentir o agradável perfume de seus cabelos recém lavados e o cheiro da fragrância em seu corpo...
'-Oi, esta uma linda tarde não?'
'-Agora que você chegou esta maravilhosa!'
Ele tomou-a pela mão e a conduziu para a mesa em que estivera sentado, e como era seu costume, ela se deixou levar.
***
Quando acordou no meio da noite, ela levou algum tempo para perceber onde estava. Somente quando seus olhos se acostumaram a penumbra reconheceu o quarto. Sentou-se na cama, completamente nua e abraçou os joelhos com as mãos. Por mais que tentasse negar uma alegria imensa e uma sensação de prazer, jamais, experimentada antes inundavam o seu corpo. Aquele pensamento voltou a pairar na sua mente 'o que havia feito? Mal o conhecia?'... Mas a sensação de prazer era mais forte e aquela onda de alegria novamente a inundou enquanto ela contemplava o homem adormecido ao seu lado.
Ele havia lhe mostrado a liberdade, definitivamente ele a libertara, sabia agora que estava pronta para realizar a mudança, sentia-se ainda insegura, mas estava fortalecida, sabia depois do que acontecera esta noite que era capaz! Havia vencido este obstáculo, dera um passo a frente, não era uma mudança de atitude, não iria sair por ai dormindo com todos os homens interessantes que cruzassem seu caminho, mas estava mais corajosa, valorizando mais as palavras do seu coração, aprendera a escutá-lo e a colocá-lo no centro da sua vida.
Ele era o seu herói. Observou fascinada, o belo homem adormecido ao seu lado. As costas largas e a pele morena contrastavam com a sua que era muito clara. E enquanto este pensamento invadia sua mente como uma tempestade, sentiu uma imensa onda de ternura inundar todo o seu pensamento como a bonança depois do turbilhão... Fez um tremendo esforço para conter as lágrimas que ameaçavam aflorar e foi só com muita dificuldade que conseguiu contê-las.
Levantou-se sorrateiramente esgueirando-se da cama para não despertá-lo, sabia que tinha que dar o fora dali antes que Matheus despertasse ou não conseguiria resistir ao seu charme... Não conseguiria? Ou será que não queria? Não conseguia pensar racionalmente sua cabeça girava confusa... Vestiu-se e deixou o apartamento. Os sapatos na mão, os cabelos desalinhados e as faces coradas de uma fêmea satisfeita no seu instinto mais primitivo. Enquanto caminhava pela praia sentindo a brisa suave e molhada acariciar o seu rosto esbarrou em alguns casais adormecidos nos braços um do outro após o sexo, como ela estivera até poucos minutos atrás.
Quando ela apreciava deslumbrada o nascer do sol, saboreando um delicioso café da varanda de seu apartamento, percebeu o que a intrigava... Como poderia ter sentido como familiares as sensações que ele lhe despertara? Não se conheciam? Eram estranhos? Agora sabia, tinha sonhado com isto, era o seu sonho erótico, mas desta vez fora real... Sentira na carne todas aquelas sensações, todo aquele prazer, sentira-se como uma deusa da luxúria, descobrira em si mesmo uma sensualidade que desconhecia... Era algo glorioso, podia ser uma loba na cama... E... Espantoso!? Aquilo não a deixava envergonhada ou constrangida, sentia-se poderosa, podia dominar o mundo, tudo por causa de uma transa fenomenal!
***
Matheus foi acordado pelo vazio na sua cama. Quando ele se moveu sonolento e estendeu a mão para tocá-la só pode sentir o vazio do lençol de cetim. Abriu os olhos lentamente tentando se proteger da luminosidade que insistia em penetrar pela fresta da varanda e murmurou o nome que era como um doce maná em seus lábios.
'-Julia. '
Como não recebeu resposta resolveu se levantar, o aroma suave de café indicava que ela estava na cozinha. Era maravilhoso, dormir com uma mulher fantástica, ela era um furacão na cama, completamente surpreendente... No inicio tímida, recatada até que ele conseguiu tocá-la, acertou aquele ponto, despertou a sensualidade que ela insistia em esconder e eles haviam feito sexo como ele nunca experimentara antes, nunca sentira tanto prazer em toda sua vida, e ele já estivera com muitas mulheres... Era um amante habilidoso e sabia dar e receber prazer, mas nunca antes sentira aquilo. Era como ser tragado para o meio de um furacão, enlouquecedor. Tinha a sensação de que seu corpo fora feito somente para aquele ato de amor, tinha sido feito para possuí-la. E ele o fizera de maneira frenética, selvagem, havia perdido todo o controle sobre seus movimentos. Quando gozaram pela primeira vez, ele ficou atordoado, a violência do que haviam feito deixou-o apreensivo ele sondou-a com medo de tê-la machucado no ato.
A resposta de Julia o surpreendeu. Puxou-o para si e envolveu-o num abraço apertado, buscou a sua boca como se aquilo fosse o ar necessário para sobreviver, sentiu as unhas da mulher embaixo de seu corpo cravarem-se em suas costas e o chamado frenético como se ela fosse uma cadela no cio. Era como ser sugado para um sonho erótico, e foi impossível não oferecer o que ela queria, mais uma vez mergulhou dentro dela e deixou toda a razão desaparecer da sua mente, era instinto puro, desejo incontrolável. Achou que poderia enlouquecer, queria prolongar a delicia de sentir aquele corpo estremecer sob o seu, de acariciar a pele daquela mulher e de beijá-la, queria olhar dentro dos seus olhos, mas ela tinha fome, urgência, febre de ser possuída por ele e não lhe permitiu hesitar. Penetrou-a bem fundo e ela o recebeu novamente como se esperasse por ele toda a eternidade. E quando estavam se aproximando do êxtase, ele se afastou um pouco e segurou-a pelos cabelos, queria olhar bem dentro dos seus olhos, queria surpreender o brilho do prazer que ele lhe proporcionava, aquilo o fazia sentir poderoso como um garanhão. E ela não o decepcionou, seus olhos irradiaram um brilho único e ela gemeu alto enquanto elevava os quadris para recebê-lo e aumentar o prazer mútuo.
Resvalaram lentamente para o sono, ofegantes, inundados de suor e de prazer. Julia exibia um sorriso satisfeito no rosto quando adormeceu. Ele permaneceu acordado por alguns momentos, admirando a bela mulher em seus braços. Não se cansava de mapear cada detalhe do seu rosto, cada curva do seu corpo, queria gravar em sua mente, em sua alma. Aspirou o perfume suave dos cabelos desgrenhados, e sentiu as pálpebras pesarem e o esforço do ato de amor se abater sob os músculos fortes. Adormeceu. E agora ela estava ali, na sua cozinha, terna fazendo café...
‘-Júlia’. Ele voltou a chamá-la
A sensação de prazer e de ternura se transformou em desapontamento amargo quando ele verificou que estava sozinho. O aroma que o iludira vinha do apartamento vizinho. Correu até o banheiro, ela devia estar tomando banho... Mais uma vez sentiu uma náusea revirar suas entranhas. Sentiu-se fraco, precisou segurar-se na parede do banheiro, e escorregou lentamente para o chão. Percebeu a ira, misturando-se com a sensação do orgulho ferido. Mas no meio destes sentimentos um enorme vazio, uma tristeza inigualável e uma sensação de desamparo. Como? Por quê? Ela havia sentido prazer também? Ele sabia, pelos gemidos na hora do gozo, pelo sorriso de felicidade em seus lábios quando ela adormeceu em seus braços... Fez um esforço gigantesco, para conter a náusea que subia pelas suas entranhas e para afastar as garras que apertavam o seu peito como um torno poderoso. Vasculhou a casa, procurou em todos os cantos, nada. Nem um bilhete, um recado rabiscado com batom no espelho... Nem um muito obrigada!
Entrou embaixo do chuveiro e abriu a torneira até o final, o jato de água gelado, pareceu aliviar um pouco a dor que estava sentindo. Sentia-se humilhado. Estava ferido no orgulho, sempre se acostumara a ter as mulheres rastejando aos seus pés. Era ele que sumia sorrateiramente no meio da noite quando o interesse era puramente sexual. Jamais uma mulher havia abandonado a sua cama, não se ele não a tivesse gentilmente convidado a sair. Praguejou contra a sua imagem refletida no espelho, colocando para fora nas palavras o caldo que era como uma mistura amarga de dor e raiva que fervilhava no seu íntimo.
Caíra na sua armadilha, ela tinha armado direitinho, e ele caíra como um patinho. Quantos homens ela havia enganado com aquele disfarce, timidez! Recato! Uma mulher com aquela performance na cama, só podia ser experiente, com toda certeza já tivera inúmeros amantes. Aquele pensamento fez a sua cabeça doer, ao mesmo tempo em que o seu peito era trespassado por uma pontada aguda. Sentia-se humilhado, fora um idiota! E estava sentindo ciúmes!
'-Ridículo ciúmes! Eles nem mesmo se conheciam, fora somente sexo. Desde o inicio a atração entre eles fora puramente erótica'. Bem lá no fundo uma vozinha abafada quis gritar, 'encantamento', e ele tratou de afastá-la rapidamente.
Fora somente sexo, e que sexo! Nunca tinha experimentado uma trepada tão gloriosa como aquela! Se este era o preço a pagar ponderou que valia a pena, ele fora habilmente atraído para sua teia de sedução.
'-Julia, Julia. Você é uma mulher excepcionalmente deliciosa'.
Sua cabeça estava doendo, uma sensação desconfortável que era agravada por todos aqueles pensamentos. Ele estendeu a mão para fora do boxe e pegou uma aspirina, enfiou-a na boca, mastigou e engoliu um bocado da água do chuveiro. Sentou-se no chão do boxe e deixou o líquido gelado cair como uma cachoeira sobre sua cabeça e escorrer pelo seu corpo, ele poderia lavar a angústia e a amargura que estava sentindo.
Algum tempo depois enquanto aguardava distraído o café que sairia da sua máquina de expresso e vigiando o ponto das torradas, ele não pode conter a manifestação daquele pensamento. Ela se mostrara tímida, reservada, percebera uma inconfundível insegurança pairando em seus olhos quando eles flertaram no pub e depois na praia sentados no aconchegante café. Também não podia negar que desde o primeiro instante uma energia muito forte os havia atraído, um fluxo de energia erótica que tinha a força de um furacão... É claro! Que estúpido! O tempo todo na minha frente e eu não conseguia enxergar... Ela ficara assustada com a fúria do desejo que experimentaram, é claro que acordara apavorada! Fugira! Teria que ser cauteloso, hábil, precisava planejar com calma... O melhor agora seria tomar um farto desjejum e ir pra faculdade. Quando ele girou a chave do seu Fiesta dourado sentia-se bem. Tinha a sensação de que nunca se sentira tão bem em toda vida.
'-Nada como uma boa trepada!' Ele gritou a plenos pulmões através da janela aberta.
Ele ainda tentou encontrá-la nas semanas que se sucederam aquela noite de sexo selvagem, mas foi em vão. O único contato que ele tinha o telefone, fora desligado e os dias que se seguiram àquela noite de prazer alucinante foram amargos. Ela povoava seus pensamentos, tanto a sensação erótica que a lembrança do sexo despertava quanto à ternura da tarde passada em sua companhia enquanto tomavam um sorvete, o assaltavam nos momentos mais inoportunos. Pare com isto seu idiota! Acabou! Foi uma boa trepada, mas só isto! Você pode conseguir outras, até melhores. E quando ele conheceu Fabíola, durante uma festa da faculdade não teve dúvidas. Arquivou os últimos resquícios daquela noite no porão da sua mente e se forçou a seguir em frente.
***
O gingado daqueles quadris povoou os seus sonhos durante toda a madrugada e quando ele abriu os olhos a primeira imagem que veio a sua mente foi àquela boca larga com lábios carnudos e um sorriso discreto e contido que fazia uma covinha se desenhar no canto esquerdo da face. Ele ganhara o direito de beijá-la e estava ansioso por cobrar sua dívida, queria sentir a textura daqueles lábios e a maciez de sua língua. Estendeu a mão para o criado ao lado da cama e pegou o guardanapo onde ela rabiscara o número do telefone, sabia que ela o fizera por impulso, percebera pelo seu comportamento que ela era tímida, não era uma atitude habitual, mas também não passou despercebido que ela se sentia atraída por ele tanto quanto ele ficara por ela. Aquele pensamento foi suficiente para dissipar qualquer dúvida. Sim, ele iria ligar.
Enquanto sentia a água fria molhar a sua pele ele recordou o contato que tivera na noite anterior. Ela lhe chamou a atenção tão logo adentrou no salão do pub, os olhos assustados correram todos os lados procurando aceitação e tentando afastar qualquer sinal de reprovação, então ela caminhou tentando parecer descontraída diretamente para o balcão e se sentou. Ficou pensando que embora tivessem conversado a noite toda não sabia seu nome. Começou a imaginar qual seria, e perdeu-se neste devaneio. Ao final da tarde de Domingo pegou o número rabiscado no papel e discou.
'-Oi!'
Não foi difícil para Julia reconhecer aquela voz, ela ressoara em sua mente desde que saíra do pub e povoara sua noite de sonhos. Mesmo assim ela se assustou e uma estranha náusea se formou no seu estomago, não pudera acreditar que aquilo estava acontecendo. Tinha esperança de ele fosse deixar pra lá, fora apenas uma bobagem, um flerte descontraído com uma cliente tímida e solitária... Mas, uma voz bem lá no fundo informou-a de que ela estava esperando ansiosamente por aquele telefonema e mais uma vez ela se assustou com a euforia que lutava contra o medo em sua mente.
'-Oi, você esta ai?' Ele voltou a perguntar.
'-Ah! Desculpe, eu... Eu... Não... '
'-Não acreditou que eu ligaria? Eu disse que cobraria minha dívida'.
'-É eu não esperava... ' Mas o tom de sua voz lhe dizia o contrario
'-Não mesmo? Você me pareceu interessada ontem... ' Ele deixou a frase no ar.
Mais uma vez ele estava flertando com ela e novamente ela percebeu o turbilhão em sua mente, medo e desejo... A distância fez a ousadia vencer a guerra.
'-Como posso querer algo, sem mesmo saber como se chama?'
'-Fácil resolver muito prazer Matheus e você?'
'-Julia'.
'-Um lindo nome e combina com você'.
'-Eu também gosto'.
'-Agora que já sabe meu nome eu quero o meu pagamento'.
'-Beijos'. Ele escutou o som estalado de um beijo do outro lado da linha.
'-Pronto, está pago, eu não disse que costumava pagar minhas dívidas?'
'-Não, não, não. Assim não vale, não foi este o trato'. Ele estava se divertindo com a força que ela estava fazendo para conter o desejo evidente em sua voz.
'-É claro que vale. Qual foi o trato? Um beijo, não especificamos como seria. Está pago!' Agora era ela que estava se divertindo com o desapontamento dele.
'-Não é justo, não por telefone... Você e uma má pagadora vou ter que recorrer a defesa do consumidor'.
'-Porque não tenta um acordo, primeiro?' No instante em que ela terminou a frase, se deu conta do que havia dito. E agora? Não havia mais volta, estava flertando abertamente com ele.
'-Que tal um sorvete? Está tão quente!...'
'-Um sorvete... ' Ela hesitava
'-Te espero na praia em uma hora, Fruit ok!'
Ele não demorou a se sentar na mesinha colocada no calçadão em frente ao agradável e elegante café. O ambiente propositadamente lembrava Viena ou a Riviera Francesa, as mesas redondas e as cadeiras confortáveis, a brisa suave e o cheiro de maresia, este ambiente agradável ficava completo com o brilho do sol no fim de tarde. Era sempre prazeroso tomar um expresso ou saborear o inigualável sorvete de frutas observando o mar. O deque era um local propositadamente estruturado para receber casais apaixonados e tudo ali girava em torno desta clientela especial, crianças não circulavam por ali e a noite o ambiente enchia-se de uma penumbra somente quebrada pela luz da lua e pelas velas que iluminavam o jantar ao som de violinos.
Julia sentiu-se amedrontada tão logo desligou o telefone e se deu conta do que tinha feito. Iria se encontrar com um homem que mal conhecia e ele iria querer beijá-la. Não podia fazer aquilo! É claro que fora coagida! Ele a envolvera em seu jogo de sedução, primeiro deixando-a tonta com todo aquele wisk irlandês, depois com aquela voz sedutora ao telefone... E ela caíra na armadilha... Caíra? Quem disse que ela tinha que ir? Podia simplesmente não aparecer... Isto parecia sensato... Mas, e se fosse? Qual seria o problema? Estava sozinha, havia rompido com Rodrigo há um mês... Um mês, não seria cedo? E qual seria o tempo certo? Perguntou-se. Uma vozinha tímida bem lá no fundo respondeu 'o tempo exigido por seu coração para recomeçar'.
Imediatamente o som daquela voz sensual, o brilho daqueles olhos e o sorriso encantador vieram a sua mente fazendo um fogo se acender em seu ventre. Ela girou a torneira do chuveiro até o final e se enfiou embaixo da água fria na esperança de que aquela ducha gelada diminuísse o calor que sentia na mente e no corpo com aquela lembrança. Mas foi em vão... E quando terminou a ducha e se enfiou no closet escutou aquela vozinha no fundo da sua mente, 'você já esta pronta para tentar'... E embora ainda estivesse insegura sabia que iria se encontrar com ele...
Ele estava tomando um Gim-Tônica e começou a pensar se ela viria já se passara mais de uma hora... Lembrou-se que ela parecera tímida e insegura, será que tinha sido muito arrojado? E se a tivesse amedrontado? Ela era uma mulher que exigia tato... Mas ainda assim recordou-se que ela havia flertado com ele e parecera estar atraída, e também se insinuara ao telefone... Começou a se sentir desconfortável, estava realmente querendo conhecê-la, ficara encantado desde o primeiro minuto... Mas também estava se sentindo ferido em seu orgulho, nunca antes uma mulher resistira ao seu flerte...
Enquanto ele sorvia o último gole do seu Gim-Tônica sentiu um alivio imenso e uma euforia até então desconhecida invadi-lo quando percebeu a chegada de Julia. Instintivamente aquele sorriso sedutor se espalhou em seu rosto e um brilho há muito apagado reacendeu-se em seu olhar enquanto observava ela caminhar em sua direção, linda! Realmente linda em seu vestido de verão de um degrade vermelho que realçava a pele clara e os belos olhos azuis. Ela caminhou em sua direção e também abriu um sorriso, no entanto o sorriso dela era tímido e envergonhado. Quando ele se levantou para recebê-la e se aproximou pode sentir o agradável perfume de seus cabelos recém lavados e o cheiro da fragrância em seu corpo...
'-Oi, esta uma linda tarde não?'
'-Agora que você chegou esta maravilhosa!'
Ele tomou-a pela mão e a conduziu para a mesa em que estivera sentado, e como era seu costume, ela se deixou levar.
***
Quando acordou no meio da noite, ela levou algum tempo para perceber onde estava. Somente quando seus olhos se acostumaram a penumbra reconheceu o quarto. Sentou-se na cama, completamente nua e abraçou os joelhos com as mãos. Por mais que tentasse negar uma alegria imensa e uma sensação de prazer, jamais, experimentada antes inundavam o seu corpo. Aquele pensamento voltou a pairar na sua mente 'o que havia feito? Mal o conhecia?'... Mas a sensação de prazer era mais forte e aquela onda de alegria novamente a inundou enquanto ela contemplava o homem adormecido ao seu lado.
Ele havia lhe mostrado a liberdade, definitivamente ele a libertara, sabia agora que estava pronta para realizar a mudança, sentia-se ainda insegura, mas estava fortalecida, sabia depois do que acontecera esta noite que era capaz! Havia vencido este obstáculo, dera um passo a frente, não era uma mudança de atitude, não iria sair por ai dormindo com todos os homens interessantes que cruzassem seu caminho, mas estava mais corajosa, valorizando mais as palavras do seu coração, aprendera a escutá-lo e a colocá-lo no centro da sua vida.
Ele era o seu herói. Observou fascinada, o belo homem adormecido ao seu lado. As costas largas e a pele morena contrastavam com a sua que era muito clara. E enquanto este pensamento invadia sua mente como uma tempestade, sentiu uma imensa onda de ternura inundar todo o seu pensamento como a bonança depois do turbilhão... Fez um tremendo esforço para conter as lágrimas que ameaçavam aflorar e foi só com muita dificuldade que conseguiu contê-las.
Levantou-se sorrateiramente esgueirando-se da cama para não despertá-lo, sabia que tinha que dar o fora dali antes que Matheus despertasse ou não conseguiria resistir ao seu charme... Não conseguiria? Ou será que não queria? Não conseguia pensar racionalmente sua cabeça girava confusa... Vestiu-se e deixou o apartamento. Os sapatos na mão, os cabelos desalinhados e as faces coradas de uma fêmea satisfeita no seu instinto mais primitivo. Enquanto caminhava pela praia sentindo a brisa suave e molhada acariciar o seu rosto esbarrou em alguns casais adormecidos nos braços um do outro após o sexo, como ela estivera até poucos minutos atrás.
Quando ela apreciava deslumbrada o nascer do sol, saboreando um delicioso café da varanda de seu apartamento, percebeu o que a intrigava... Como poderia ter sentido como familiares as sensações que ele lhe despertara? Não se conheciam? Eram estranhos? Agora sabia, tinha sonhado com isto, era o seu sonho erótico, mas desta vez fora real... Sentira na carne todas aquelas sensações, todo aquele prazer, sentira-se como uma deusa da luxúria, descobrira em si mesmo uma sensualidade que desconhecia... Era algo glorioso, podia ser uma loba na cama... E... Espantoso!? Aquilo não a deixava envergonhada ou constrangida, sentia-se poderosa, podia dominar o mundo, tudo por causa de uma transa fenomenal!
***
Matheus foi acordado pelo vazio na sua cama. Quando ele se moveu sonolento e estendeu a mão para tocá-la só pode sentir o vazio do lençol de cetim. Abriu os olhos lentamente tentando se proteger da luminosidade que insistia em penetrar pela fresta da varanda e murmurou o nome que era como um doce maná em seus lábios.
'-Julia. '
Como não recebeu resposta resolveu se levantar, o aroma suave de café indicava que ela estava na cozinha. Era maravilhoso, dormir com uma mulher fantástica, ela era um furacão na cama, completamente surpreendente... No inicio tímida, recatada até que ele conseguiu tocá-la, acertou aquele ponto, despertou a sensualidade que ela insistia em esconder e eles haviam feito sexo como ele nunca experimentara antes, nunca sentira tanto prazer em toda sua vida, e ele já estivera com muitas mulheres... Era um amante habilidoso e sabia dar e receber prazer, mas nunca antes sentira aquilo. Era como ser tragado para o meio de um furacão, enlouquecedor. Tinha a sensação de que seu corpo fora feito somente para aquele ato de amor, tinha sido feito para possuí-la. E ele o fizera de maneira frenética, selvagem, havia perdido todo o controle sobre seus movimentos. Quando gozaram pela primeira vez, ele ficou atordoado, a violência do que haviam feito deixou-o apreensivo ele sondou-a com medo de tê-la machucado no ato.
A resposta de Julia o surpreendeu. Puxou-o para si e envolveu-o num abraço apertado, buscou a sua boca como se aquilo fosse o ar necessário para sobreviver, sentiu as unhas da mulher embaixo de seu corpo cravarem-se em suas costas e o chamado frenético como se ela fosse uma cadela no cio. Era como ser sugado para um sonho erótico, e foi impossível não oferecer o que ela queria, mais uma vez mergulhou dentro dela e deixou toda a razão desaparecer da sua mente, era instinto puro, desejo incontrolável. Achou que poderia enlouquecer, queria prolongar a delicia de sentir aquele corpo estremecer sob o seu, de acariciar a pele daquela mulher e de beijá-la, queria olhar dentro dos seus olhos, mas ela tinha fome, urgência, febre de ser possuída por ele e não lhe permitiu hesitar. Penetrou-a bem fundo e ela o recebeu novamente como se esperasse por ele toda a eternidade. E quando estavam se aproximando do êxtase, ele se afastou um pouco e segurou-a pelos cabelos, queria olhar bem dentro dos seus olhos, queria surpreender o brilho do prazer que ele lhe proporcionava, aquilo o fazia sentir poderoso como um garanhão. E ela não o decepcionou, seus olhos irradiaram um brilho único e ela gemeu alto enquanto elevava os quadris para recebê-lo e aumentar o prazer mútuo.
Resvalaram lentamente para o sono, ofegantes, inundados de suor e de prazer. Julia exibia um sorriso satisfeito no rosto quando adormeceu. Ele permaneceu acordado por alguns momentos, admirando a bela mulher em seus braços. Não se cansava de mapear cada detalhe do seu rosto, cada curva do seu corpo, queria gravar em sua mente, em sua alma. Aspirou o perfume suave dos cabelos desgrenhados, e sentiu as pálpebras pesarem e o esforço do ato de amor se abater sob os músculos fortes. Adormeceu. E agora ela estava ali, na sua cozinha, terna fazendo café...
‘-Júlia’. Ele voltou a chamá-la
A sensação de prazer e de ternura se transformou em desapontamento amargo quando ele verificou que estava sozinho. O aroma que o iludira vinha do apartamento vizinho. Correu até o banheiro, ela devia estar tomando banho... Mais uma vez sentiu uma náusea revirar suas entranhas. Sentiu-se fraco, precisou segurar-se na parede do banheiro, e escorregou lentamente para o chão. Percebeu a ira, misturando-se com a sensação do orgulho ferido. Mas no meio destes sentimentos um enorme vazio, uma tristeza inigualável e uma sensação de desamparo. Como? Por quê? Ela havia sentido prazer também? Ele sabia, pelos gemidos na hora do gozo, pelo sorriso de felicidade em seus lábios quando ela adormeceu em seus braços... Fez um esforço gigantesco, para conter a náusea que subia pelas suas entranhas e para afastar as garras que apertavam o seu peito como um torno poderoso. Vasculhou a casa, procurou em todos os cantos, nada. Nem um bilhete, um recado rabiscado com batom no espelho... Nem um muito obrigada!
Entrou embaixo do chuveiro e abriu a torneira até o final, o jato de água gelado, pareceu aliviar um pouco a dor que estava sentindo. Sentia-se humilhado. Estava ferido no orgulho, sempre se acostumara a ter as mulheres rastejando aos seus pés. Era ele que sumia sorrateiramente no meio da noite quando o interesse era puramente sexual. Jamais uma mulher havia abandonado a sua cama, não se ele não a tivesse gentilmente convidado a sair. Praguejou contra a sua imagem refletida no espelho, colocando para fora nas palavras o caldo que era como uma mistura amarga de dor e raiva que fervilhava no seu íntimo.
Caíra na sua armadilha, ela tinha armado direitinho, e ele caíra como um patinho. Quantos homens ela havia enganado com aquele disfarce, timidez! Recato! Uma mulher com aquela performance na cama, só podia ser experiente, com toda certeza já tivera inúmeros amantes. Aquele pensamento fez a sua cabeça doer, ao mesmo tempo em que o seu peito era trespassado por uma pontada aguda. Sentia-se humilhado, fora um idiota! E estava sentindo ciúmes!
'-Ridículo ciúmes! Eles nem mesmo se conheciam, fora somente sexo. Desde o inicio a atração entre eles fora puramente erótica'. Bem lá no fundo uma vozinha abafada quis gritar, 'encantamento', e ele tratou de afastá-la rapidamente.
Fora somente sexo, e que sexo! Nunca tinha experimentado uma trepada tão gloriosa como aquela! Se este era o preço a pagar ponderou que valia a pena, ele fora habilmente atraído para sua teia de sedução.
'-Julia, Julia. Você é uma mulher excepcionalmente deliciosa'.
Sua cabeça estava doendo, uma sensação desconfortável que era agravada por todos aqueles pensamentos. Ele estendeu a mão para fora do boxe e pegou uma aspirina, enfiou-a na boca, mastigou e engoliu um bocado da água do chuveiro. Sentou-se no chão do boxe e deixou o líquido gelado cair como uma cachoeira sobre sua cabeça e escorrer pelo seu corpo, ele poderia lavar a angústia e a amargura que estava sentindo.
Algum tempo depois enquanto aguardava distraído o café que sairia da sua máquina de expresso e vigiando o ponto das torradas, ele não pode conter a manifestação daquele pensamento. Ela se mostrara tímida, reservada, percebera uma inconfundível insegurança pairando em seus olhos quando eles flertaram no pub e depois na praia sentados no aconchegante café. Também não podia negar que desde o primeiro instante uma energia muito forte os havia atraído, um fluxo de energia erótica que tinha a força de um furacão... É claro! Que estúpido! O tempo todo na minha frente e eu não conseguia enxergar... Ela ficara assustada com a fúria do desejo que experimentaram, é claro que acordara apavorada! Fugira! Teria que ser cauteloso, hábil, precisava planejar com calma... O melhor agora seria tomar um farto desjejum e ir pra faculdade. Quando ele girou a chave do seu Fiesta dourado sentia-se bem. Tinha a sensação de que nunca se sentira tão bem em toda vida.
'-Nada como uma boa trepada!' Ele gritou a plenos pulmões através da janela aberta.
Ele ainda tentou encontrá-la nas semanas que se sucederam aquela noite de sexo selvagem, mas foi em vão. O único contato que ele tinha o telefone, fora desligado e os dias que se seguiram àquela noite de prazer alucinante foram amargos. Ela povoava seus pensamentos, tanto a sensação erótica que a lembrança do sexo despertava quanto à ternura da tarde passada em sua companhia enquanto tomavam um sorvete, o assaltavam nos momentos mais inoportunos. Pare com isto seu idiota! Acabou! Foi uma boa trepada, mas só isto! Você pode conseguir outras, até melhores. E quando ele conheceu Fabíola, durante uma festa da faculdade não teve dúvidas. Arquivou os últimos resquícios daquela noite no porão da sua mente e se forçou a seguir em frente.
***
sábado, 9 de julho de 2011
Deveres, Sonhos e Paixões - Capitulo 1
DEVERES, SONHOS E PAIXÕES
Erika Maria Gonçalves Campana
Capitulo 1
A recepcionista quis saber para quantas pessoas era a mesa, Julia informou que queria sentar-se no balcão e que estava sozinha, então a atendente se afastou e lhe deu passagem. Ela avançou pelo salão apinhado de mesas em direção ao amplo balcão situado no fundo do pub e sentou-se no único banco que estava disponível.
Tivera sorte, situava-se em uma das pontas e iria permitir apreciar o movimento nas mesas e quem sabe flertar com alguém interessante.
'-Boa noite?'
Ela foi pega de surpresa por aquela voz quente e sensual e quando se virou para responder teve alguns minutos de hesitação ao visualizar o seu dono. Era um homem alto e moreno com belos olhos castanhos que a olhava exibindo um sorriso discreto e confiante.
'-Oi.'
'-Posso ajudá-la? O que vai querer?'
'-Hum! O que você sugere?' Ela devolveu-lhe o sorriso e empinou o nariz de uma forma afetada que o deixou fascinado.
'-Recomendo Irlanda Unida, uísque, creme de menta e sorvete de baunilha’.
'-Parece tentador, vou aceitar a oferta. Mas, isto não vai me deixar tonta, não é? Estou sozinha!'
'-Se você não estiver com pressa eu posso acompanhá-la, caso você passe dos limites'. Ele era insinuante.
'-Não pretendo passar dos limites, mas tenho todo tempo do mundo'.
Ele preparou o drink de forma habilidosa e ágil manejando os ingredientes com desenvoltura e enquanto ele manipulava a coqueteleira ela pode visualizar a curva dos seus músculos nos braços fortes e sentir um calor estranho inundar seu corpo
'-Aqui está'.
Julia sorveu lentamente um gole da bebida. Deixou o líquido demorar-se na sua boca e descer lentamente pela garganta aquecendo-a por inteiro enquanto mantinha os olhos fixos naquele homem a sua frente.
'-E então?' Ele perguntou mais uma vez com aquela voz sensual próxima ao seu ouvido.
'-É quente... E... Delicioso... Aquece a alma'.
'-Como você... A propósito, o que faz uma mulher fabulosa como você sozinha neste balcão?'
Ela se surpreendeu mais uma vez, ele estava flertando descaradamente com ela. E... Ela estava gostando do jogo. Ele se afastou para atender a um pedido de outro cliente e ela achou providencial para poder respirar.
'-Então?...' Ele insistiu
'-São as vantagens da modernidade. Uma mulher pode se sentar sozinha no balcão de um pub e conversar com o barman sem se sentir envergonhada'. Ela havia recuperado a calma e a confiança ao responder.
'-E você é uma mulher moderna?'
'-Uma exemplar legítima'.
Mais uma vez ele se afastou para servir uma caneca de cerveja
'-E você? O que faz um homem tão bonito atrás deste balcão? É um emprego temporário ou esta é sua vocação?'
O tom de voz era divertido, não exibia ironia, apenas sincera curiosidade e uma tímida malicia.
'-Acho que tenho pelo menos um pouquinho de vocação... Mas é o custeio do curso que me colocou aqui'.
'-Ah! Faculdade? Faz o que?'
'-Direito. Último ano'.
'-Hum! Deixe-me ver?' E ela se afastou e apertou os olhos tentando visualizar.
Ele ficou curioso e sentiu-se discretamente desconfortável em estar sendo avaliado por aquela mulher.
'-Você dará um belo advogado, realmente terno e gravata cairão bem em você.'
Ele sorriu aquele sorriso discreto e confiante e ela retribuiu.
'-E você? O que faz?'
Quando ele se afastou mais uma vez para atender a um cliente ela considerou que queria flertar um pouquinho mais e que um jogo de adivinha seria ideal. Quando ele retornou, ela emendou.
'-O que você acha? De que eu tenho cara?
Ele não esperava por aquilo, estava sendo envolvido num jogo de sedução por aquela mulher. Achou gostoso, estava se divertindo ela era realmente interessante.
'-Qual vai ser o meu prêmio, se eu acertar?'
'-Prêmio?'
'-É claro! Isto é um jogo, tem que haver um prêmio'.
'-É justo. Hum... Não sei...'
Como ela hesitava, ele não demorou a estabelecer o seu preço, já estava na sua cabeça e não foi difícil falar.
'-Um beijo! Se eu acertar você me da um beijo'
Ela não pode conter o espanto com a ousadia dele, mas sentiu o seu coração acelerar e imaginou como seria ser beijada por ele. Queria saber, mas não era certo! Ainda assim queria. Dane-se o certo!
'-Você esta trabalhando... Como vou poder pagar?' Ela estava hesitante, mas conseguiu dizer as palavras.
'-Você disse que tinha todo tempo do mundo... Podemos esperar o pub fechar... Ou... Se você ficar entediada pode me dar o seu telefone e eu me encarrego de cobrar'. Ele voltou a oferecer aquele sorriso encantador e olhou-a bem dento dos olhos
'-Você é um advogado nato, um negociador hábil, ok! Fechado’.
'-Hum... Publicitária?'
Ela soltou uma gargalhada divertida e sorveu mais um gole do drink.
'-Passou bem longe'.
‘-Três chances'. Ele falou.
Julia ponderou enquanto ele servia uma dose de wisk e entregava a uma das garçonetes.
- Tudo bem, três chances'. Ela concordou sentindo um frio na barriga por estar flertando abertamente com ele.
Matheus despachou cinco canecas de Guinnes antes de voltar até ela.
'-Empresária?'
Mais uma vez ela riu, fez um gesto negativo com a cabeça e sorveu um gole da bebida. O cliente que estava sentado a poucos centímetros de distancia e estivera observando o flerte dos dois chamou o barman.
'-Uma dose de Jommel's e... Conheço aquela belezinha. Ela é médica, e muito boa, salvou a vida do meu pai'.
Ele não se conteve e antes de entregar o pedido se aproximou de Julia com sorriso triunfante nos lábios.
'-Médica'.
Ela levou um susto. Não esperava que ele acertasse, ou esperava? O coração acelerou e a cabeça girou lentamente, ele permanecia a sua frente com o sorriso de triunfo nos lábios. Sem perceber ela retribuiu ao sorriso.
'-Como você descobriu?'
'-Sou muito observador, e... Um bom barman sempre tem bons contatos'.
Ele apontou com a cabeça para o homem sentado ao lado, e se dirigiu a ele com uma dose generosa de Jommel's que colocou no balcão e disse:
'-Este é por conta da casa'.
Ela ficou curiosa, fitou o homem que a cumprimentou com um aceno de cabeça, mas não pode reconhecê-lo. Não podia ser um paciente de outra forma ela o teria reconhecido.
'-Quem é? Eu não o conheço'.
'-Você salvou a vida do pai dele, e ele lhe e grato por isto'.
'-E retribui me entregando direitinho? É jogo sujo, trapaça!'
'-Nada disto. Eu acertei e agora vou querer o meu prêmio'. Ele tinha se aproximado muito dela por cima do balcão e Julia pode sentir o hálito quente em seu rosto, o perfume que ele estava usando era delicioso.
Mais uma vez ela sentiu um calor subindo pelo seu corpo. Estava louca? O que era aquilo? Nunca se sentira assim antes, aquilo era loucura! Ela nunca tinha visto aquele homem antes, como podia estar ali, em público flertando com ele sem qualquer timidez? Estava torcendo para não ruborizar. Não queria parecer uma adolescente tímida e inexperiente, era uma mulher de quase trinta anos!
'-E então? Como vamos fazer?' Ele retornou a carga após servir mais uma rodada de cerveja para uma das garçonetes que atendia as mesas.
'-Você esta trabalhando, deixa rolar... A gente decide mais tarde... '
'-Tudo bem, mas eu não vou abrir mão do que é meu'.
Embora estivesse se sentindo nervosa, a perspectiva de beijar o barman a deixava excitada e ela percebeu que estava ligeiramente alta. Não tinha certeza de quantas doses havia tomado seu copo fora mantido propositadamente cheio, a sensação de leveza que estava sentindo deixou-a repentinamente amedrontada. Não podia estar a sós com ele neste estado! Ou podia? O que iria acontecer se ele a beijasse agora? Ela iria se conter? Precisava, mas... Iria conseguir? Ele era tão bonito! Tão sexy! Percebeu que não estava em condições de manter um comportamento decente neste estado, não iria conseguir se controlar. Não podia ficar ali e esperar o pub fechar, seria impossível não cumprir o acordo, ele fora taxativo. Era melhor dar o fora logo.
'-Por favor, quer fechar a conta para mim?'
'-Você disse que tinha todo o tempo do mundo?!' Ele não escondeu o desapontamento ao pronuncias essas palavras.
'-Acho que isto é tempo demais... Estou cansada... E... Você se encarregou de manter o meu copo sempre cheio, acho melhor parar por aqui'.
'-Você ainda me deve uma aposta'. Ele segurou as mãos dela entre as suas e acariciou lentamente fazendo um arrepio gostoso subir pela sua espinha.
Ela engoliu em seco, tentou retirar as mãos, mas, ele aumentou a pressão.
‘-Eu não vou abrir mão, nós fizemos uma aposta e eu ganhei’. Aquele sorriso voltou a aparecer no rosto dele.
Ela não tinha escolha, ele não iria deixá-la partir sem pagar a aposta. E enquanto pensava nisto percebeu que queria paga-la, queria revê-lo, mas não assim fora do seu controle. Ela tomou a caneta que estava presa no bolso da camisa que ele usava, anotou o numero do seu telefone num guardanapo de papel e entregou-lhe.
‘-Eu costumo pagar as minhas dívidas. Tchau!
Ele ficou olhando aquela mulher se afastar e não pode deixar de prestar atenção ao gingado dos seus quadris. Ela era timidamente sensual. Quando chegou à porta Julia não se conteve e virou-se para dar de cara com o barman que estivera acompanhando seu desfile pelo salão, ele deixou aquele sorriso confiante se abrir e piscou discretamente para ela enquanto apontava para o número anotado no guardanapo fazendo sinal de que iria ligar.
***
Quando chegou a casa Julia estava completamente desperta. O trajeto pela auto-estrada com as janelas do Astra azul metálico arriadas sentindo o vento frio e úmido da noite bater em seu rosto foi suficiente para afastar o excesso de álcool que ela havia ingerido. Sabia que o cansaço alegado era uma desculpa. Estava com medo! Era estranho se sentir assim, atraída por um homem completamente desconhecido.
Ela não era assim, não costumava flertar com desconhecidos em bares noite adentro. Onde estava com a cabeça? E ainda por cima estava se sentindo excitada ao lembrar-se do sorriso que o barman lhe lançou e pensar na possibilidade de beijá-lo. Meu Deus! O que seus pais iriam pensar se soubessem daquilo? Não era uma atitude decente! Moças de família não saiam por aí dando o seu telefone e apostando beijos com barman’s! Estava mais assustada porque embora mantivesse uma guerra moral com a sua consciência sentia que estava perdendo a batalha. Todos aqueles argumentos que vinha evocando em voz alta ao longo do caminho estavam sendo ditos da boca pra fora. Não estava se sentindo culpada, nem com vergonha! Não era uma vadia! Era uma mulher livre! Independente e dona do seu próprio nariz!
Não fora sempre assim. Não, antes era tímida. Uma moça de família, que sabia como se comportar. Todos os namoros anteriores haviam sido completamente dentro do padrão pré-estabelecido de comportamento. Em casa, com o aval dos pais, almoço de domingo, e com rapazes de famílias renomadas, que ela havia conhecido no colégio ou na faculdade. Jamais imaginara sair a noite sozinha, sentar em um bar, beber um pouquinho além da conta e ficar louca de desejo de ir pra cama com o barman. Então era isto!? Agora havia acontecido! Ela permitiu que o pensamento se formasse em sua cabeça, e era verdade. Ela não queria apenas beijá-lo, experimentava um desejo enorme de fazer sexo com ele. Aquele pensamento deixou-a perturbada e ainda mais desperta.
Enquanto preparava um expresso na aconchegante cozinha do seu apartamento se esforçava para descobrir em que ponto do caminho havia dado esta guinada. O que há levara até este ponto? Quando ocorrera a mudança? Quanto mais se esforçava, mais difícil era. As idéias vinham de forma desconexa em sua mente. Acho que ainda estou tonta, pensou. Mas, uma voz bem lá no fundo a alertou: não está não! Você esta completamente sóbria. As coisas estão mesmo confusas. Seus sentimentos estavam emaranhados como um novelo de lã. Insatisfação, deveres, desejos, sonhos, medos, paixões, expectativas... Todos juntos como num grande balaio de gato.
Achava que tudo havia começado com a insatisfação progressiva que o exercício de sua profissão estava se tornando. Ainda assim quanto mais pensava nisto, sempre acabava chegando a conclusão de que não queria estar fazendo outra coisa. Como era possível? Ser médica era tudo o que queria e mesmo assim cada dia se tornava um fardo maior chegar ao hospital. Não fazia diferença se estava atendendo no ambulatório, no consultório ou se estava de plantão na emergência, era sempre desgastante.
Ficou curiosa ao perceber agora, que embora estivesse insatisfeita era sempre um grande prazer dar aula para os estudantes da graduação, seja em sala ou a beira do leito. Não estava enfadada da medicina e nem de seus pacientes, seu coração ainda palpitava e sua mente ainda ficava prontamente alerta com um caso clínico interessante. Sentia-se presa e amarrada com a burocracia de todo o processo. Mais da metade do trabalho de um médico consistia em preencher papeis, guias de convênio, prontuários, fichas e mais fichas... Sobrava pouco tempo para o que realmente interessava: o paciente! Se você não estava atolado em fichas e papéis, o volume desproporcional de pessoas que necessitavam do serviço público forçava a um atendimento apressado e muitas vezes superficial. Quando o paciente tinha seguro-saúde, ainda assim a situação não era muito diferente. Desta vez a baixa remuneração por cada consulta, obrigava o médico a inchar a sua agenda espremendo os horários e encurtando o tempo de cada consulta. Sentia-se num campo de batalha, onde o prêmio era exercer a sua profissão com alguma dignidade.
Onde estavam todos aqueles sonhos e ideais embutidos no juramento de Hipócrates? Toda ação humanitária e desprendida amplamente contada na longa história da medicina? Todas as expectativas criadas enquanto estava na graduação se dissolveram como um castelo de areia no seu primeiro ano como médica. Todos os seus sonhos de cuidar dos pacientes, dedicar-lhes tempo, afeto, foram sendo engolidos pela perversa engrenagem da residência medica, do serviço público e dos seguros-saúde...
Cada vez que tinha que brigar para que um exame ou procedimento fosse autorizado sentia-se esgotada. Ao final do dia estava completamente desanimada, deprimida e sentindo-se prostituída. Vendia seus sonhos por uma migalha de permissão para exercer a medicina. Mas as coisas eram assim há muito tempo e ela era somente mais uma peça em toda a engrenagem do sistema. Deixou-se levar neste curso sem contestar, aceitando as coisas com resignação. Fora ensinada a ser assim, não devia se rebelar, não era certo.
À medida que o tempo transcorria foi acumulando insatisfações e mágoas, e sentia-se cada vez mais distante. Atendia de forma mecânica. Era tecnicamente impecável, sempre fora uma excelente médica e não se descuidava da atualização, utilizava-se de todo o arsenal tecnológico que dispunha para manter-se atualizada, internet, congressos, videoconferências. Mas, a cada ano sua chama de paixão diminuía, já não tinha mais aquele brilho febril no olhar, se acomodara a situação.
O que acabou desencadeando todo o processo de mudança, agora estava claro! Fora o seu relacionamento com Rodrigo, eles estavam juntos há quase seis anos. Haviam se conhecido no inicio da residência, ele era filho de uma família ilustre da cidade, o pai era um famoso cirurgião e Rodrigo estava seguindo os seus passos. Quando completaram dois meses de namoro ela o apresentou aos seus pais, viajaram para sua cidade no fim de semana e estavam oficialmente comprometidos. Quando eles começaram a dormir juntos parecia certo que fosse uma questão de tempo para estarem casados e para que Julia iniciasse a descendência dos Degoule.
Mas ela resistira fora sua primeira rebeldia. Tímida, amparada na desculpa de que queria consolidar a sua carreira primeiro, e de que Rodrigo iria fazer um período de residência em Londres... E as coisas foram sendo levadas em “banho Maria”. Nem mesmo ela tinha consciência de que começava a sua mudança ali, que iria culminar nesta mudança completa de planos algum tempo depois. Fora há alguns meses atrás, eles haviam transado e Rodrigo adormecera em seu apartamento como algumas vezes acontecia. Ela acordou no meio da noite e sentou-se na cama envolvendo os joelhos e abraçando-os como fazia quando era criança e um pesadelo a despertava. Desta vez não fora um pesadelo, e sim um sonho erótico!?! A sensação de prazer que experimentara fora tão intensa, que ainda estava impregnada em sua pele...
Tentou se lembrar do sonho estava assustada! Era como se estivesse traindo o namorado que dormia ao seu lado, porque ele não estava presente... Disto ela estava plenamente certa. Não era Rodrigo o homem que lhe despertara todas aquelas sensações. Não conseguia visualizar a fisionomia do homem, por mais que se esforçasse não era capaz de ver o seu rosto. Mas, o seu corpo foi se tornando cada vez mais nítido em sua mente. Era mais forte que Rodrigo, a pele mais morena, e... Aquilo começou a deixá-la excitada.
Que loucura! Nunca se sentira assim antes! Rodrigo nunca lhe despertara todo aquele desejo, aquela urgência. Não que fosse ruim fazer amor com ele. É claro que não! Sentia prazer, ele era delicado, carinhoso, mas... Sentia agora que faltava aquele turbilhão, aquele arrebatamento. Era tudo calmo demais... Mas que droga! Estava ficando louca! Ela o amava e... E... Sentia prazer com ele, é claro que sim! Mas... Não aquilo, não aquela sensação tão intensa que queimava a sua pele mesmo quando havia apenas sonhado com tudo aquilo.
Procurou retroceder um pouco mais as suas lembranças e os outros namorados com quem havia transado vieram a sua mente. Com Pedro Henrique e Danilo durante a faculdade era mais divertido, faziam sexo com uma freqüência alucinante, eram jovens e queriam experimentar tudo, mesmo assim nunca experimentara aquela sensação tão intensa e completa de prazer. Antes houvera o Fernando, da época do colégio, fora o primeiro, mas eram ambos adolescentes, inexperientes...
Começou a pensar que talvez ela fosse o problema. Conhecera quatro homens diferentes em sua vida, e nunca conseguira obter o prazer pleno até aquele momento, mesmo com Rodrigo a quem ela amava. Amava? Quando aquele pensamento perturbador iria começar a se infiltrar em sua mente ele abriu os olhos e ofereceu-lhe aquele sorriso meigo que ela conhecia tão bem.
‘-O que foi querida? Em que esta pensando?’ Ele percebera a fisionomia tensa de sua namorada
‘-Hum! Nada!’ Ela não podia contar nada daquilo a ele.
‘-Não adianta fingir, o que esta te preocupando?’
Ela não podia contar a ele o que estivera pensando. Teria que sair pela tangente, fazer aquilo que mais detestava mentir, dissimular, mas era o certo. Não poderia magoá-lo
‘-Estou pensando na sua viagem... Está tão perto agora... ’
Ele voltou a abrir um sorriso no rosto. Ela estava triste por causa dele, já estava com saudades, que gracinha.
‘-Ah minha querida! Não fique assim. Vai ser rápido, dois meses e eu estou de volta. Então nós vamos nos casar’. Ele levantou-se e abraçou-a suavemente
Aquela palavra caiu como uma pedra no seu coração. Era como se ele estivesse cravando uma estaca bem no meio do seu peito. Casar! Sentiu um frio enorme por dentro, como se todos os seus ossos estivessem congelados, uma estranha náusea inundou o seu estomago, estava apavorada.
‘-Vamos tomar café?’ Ele levantou-se de um pulo e puxou-a para cozinha.
***
Erika Maria Gonçalves Campana
Capitulo 1
A recepcionista quis saber para quantas pessoas era a mesa, Julia informou que queria sentar-se no balcão e que estava sozinha, então a atendente se afastou e lhe deu passagem. Ela avançou pelo salão apinhado de mesas em direção ao amplo balcão situado no fundo do pub e sentou-se no único banco que estava disponível.
Tivera sorte, situava-se em uma das pontas e iria permitir apreciar o movimento nas mesas e quem sabe flertar com alguém interessante.
'-Boa noite?'
Ela foi pega de surpresa por aquela voz quente e sensual e quando se virou para responder teve alguns minutos de hesitação ao visualizar o seu dono. Era um homem alto e moreno com belos olhos castanhos que a olhava exibindo um sorriso discreto e confiante.
'-Oi.'
'-Posso ajudá-la? O que vai querer?'
'-Hum! O que você sugere?' Ela devolveu-lhe o sorriso e empinou o nariz de uma forma afetada que o deixou fascinado.
'-Recomendo Irlanda Unida, uísque, creme de menta e sorvete de baunilha’.
'-Parece tentador, vou aceitar a oferta. Mas, isto não vai me deixar tonta, não é? Estou sozinha!'
'-Se você não estiver com pressa eu posso acompanhá-la, caso você passe dos limites'. Ele era insinuante.
'-Não pretendo passar dos limites, mas tenho todo tempo do mundo'.
Ele preparou o drink de forma habilidosa e ágil manejando os ingredientes com desenvoltura e enquanto ele manipulava a coqueteleira ela pode visualizar a curva dos seus músculos nos braços fortes e sentir um calor estranho inundar seu corpo
'-Aqui está'.
Julia sorveu lentamente um gole da bebida. Deixou o líquido demorar-se na sua boca e descer lentamente pela garganta aquecendo-a por inteiro enquanto mantinha os olhos fixos naquele homem a sua frente.
'-E então?' Ele perguntou mais uma vez com aquela voz sensual próxima ao seu ouvido.
'-É quente... E... Delicioso... Aquece a alma'.
'-Como você... A propósito, o que faz uma mulher fabulosa como você sozinha neste balcão?'
Ela se surpreendeu mais uma vez, ele estava flertando descaradamente com ela. E... Ela estava gostando do jogo. Ele se afastou para atender a um pedido de outro cliente e ela achou providencial para poder respirar.
'-Então?...' Ele insistiu
'-São as vantagens da modernidade. Uma mulher pode se sentar sozinha no balcão de um pub e conversar com o barman sem se sentir envergonhada'. Ela havia recuperado a calma e a confiança ao responder.
'-E você é uma mulher moderna?'
'-Uma exemplar legítima'.
Mais uma vez ele se afastou para servir uma caneca de cerveja
'-E você? O que faz um homem tão bonito atrás deste balcão? É um emprego temporário ou esta é sua vocação?'
O tom de voz era divertido, não exibia ironia, apenas sincera curiosidade e uma tímida malicia.
'-Acho que tenho pelo menos um pouquinho de vocação... Mas é o custeio do curso que me colocou aqui'.
'-Ah! Faculdade? Faz o que?'
'-Direito. Último ano'.
'-Hum! Deixe-me ver?' E ela se afastou e apertou os olhos tentando visualizar.
Ele ficou curioso e sentiu-se discretamente desconfortável em estar sendo avaliado por aquela mulher.
'-Você dará um belo advogado, realmente terno e gravata cairão bem em você.'
Ele sorriu aquele sorriso discreto e confiante e ela retribuiu.
'-E você? O que faz?'
Quando ele se afastou mais uma vez para atender a um cliente ela considerou que queria flertar um pouquinho mais e que um jogo de adivinha seria ideal. Quando ele retornou, ela emendou.
'-O que você acha? De que eu tenho cara?
Ele não esperava por aquilo, estava sendo envolvido num jogo de sedução por aquela mulher. Achou gostoso, estava se divertindo ela era realmente interessante.
'-Qual vai ser o meu prêmio, se eu acertar?'
'-Prêmio?'
'-É claro! Isto é um jogo, tem que haver um prêmio'.
'-É justo. Hum... Não sei...'
Como ela hesitava, ele não demorou a estabelecer o seu preço, já estava na sua cabeça e não foi difícil falar.
'-Um beijo! Se eu acertar você me da um beijo'
Ela não pode conter o espanto com a ousadia dele, mas sentiu o seu coração acelerar e imaginou como seria ser beijada por ele. Queria saber, mas não era certo! Ainda assim queria. Dane-se o certo!
'-Você esta trabalhando... Como vou poder pagar?' Ela estava hesitante, mas conseguiu dizer as palavras.
'-Você disse que tinha todo tempo do mundo... Podemos esperar o pub fechar... Ou... Se você ficar entediada pode me dar o seu telefone e eu me encarrego de cobrar'. Ele voltou a oferecer aquele sorriso encantador e olhou-a bem dento dos olhos
'-Você é um advogado nato, um negociador hábil, ok! Fechado’.
'-Hum... Publicitária?'
Ela soltou uma gargalhada divertida e sorveu mais um gole do drink.
'-Passou bem longe'.
‘-Três chances'. Ele falou.
Julia ponderou enquanto ele servia uma dose de wisk e entregava a uma das garçonetes.
- Tudo bem, três chances'. Ela concordou sentindo um frio na barriga por estar flertando abertamente com ele.
Matheus despachou cinco canecas de Guinnes antes de voltar até ela.
'-Empresária?'
Mais uma vez ela riu, fez um gesto negativo com a cabeça e sorveu um gole da bebida. O cliente que estava sentado a poucos centímetros de distancia e estivera observando o flerte dos dois chamou o barman.
'-Uma dose de Jommel's e... Conheço aquela belezinha. Ela é médica, e muito boa, salvou a vida do meu pai'.
Ele não se conteve e antes de entregar o pedido se aproximou de Julia com sorriso triunfante nos lábios.
'-Médica'.
Ela levou um susto. Não esperava que ele acertasse, ou esperava? O coração acelerou e a cabeça girou lentamente, ele permanecia a sua frente com o sorriso de triunfo nos lábios. Sem perceber ela retribuiu ao sorriso.
'-Como você descobriu?'
'-Sou muito observador, e... Um bom barman sempre tem bons contatos'.
Ele apontou com a cabeça para o homem sentado ao lado, e se dirigiu a ele com uma dose generosa de Jommel's que colocou no balcão e disse:
'-Este é por conta da casa'.
Ela ficou curiosa, fitou o homem que a cumprimentou com um aceno de cabeça, mas não pode reconhecê-lo. Não podia ser um paciente de outra forma ela o teria reconhecido.
'-Quem é? Eu não o conheço'.
'-Você salvou a vida do pai dele, e ele lhe e grato por isto'.
'-E retribui me entregando direitinho? É jogo sujo, trapaça!'
'-Nada disto. Eu acertei e agora vou querer o meu prêmio'. Ele tinha se aproximado muito dela por cima do balcão e Julia pode sentir o hálito quente em seu rosto, o perfume que ele estava usando era delicioso.
Mais uma vez ela sentiu um calor subindo pelo seu corpo. Estava louca? O que era aquilo? Nunca se sentira assim antes, aquilo era loucura! Ela nunca tinha visto aquele homem antes, como podia estar ali, em público flertando com ele sem qualquer timidez? Estava torcendo para não ruborizar. Não queria parecer uma adolescente tímida e inexperiente, era uma mulher de quase trinta anos!
'-E então? Como vamos fazer?' Ele retornou a carga após servir mais uma rodada de cerveja para uma das garçonetes que atendia as mesas.
'-Você esta trabalhando, deixa rolar... A gente decide mais tarde... '
'-Tudo bem, mas eu não vou abrir mão do que é meu'.
Embora estivesse se sentindo nervosa, a perspectiva de beijar o barman a deixava excitada e ela percebeu que estava ligeiramente alta. Não tinha certeza de quantas doses havia tomado seu copo fora mantido propositadamente cheio, a sensação de leveza que estava sentindo deixou-a repentinamente amedrontada. Não podia estar a sós com ele neste estado! Ou podia? O que iria acontecer se ele a beijasse agora? Ela iria se conter? Precisava, mas... Iria conseguir? Ele era tão bonito! Tão sexy! Percebeu que não estava em condições de manter um comportamento decente neste estado, não iria conseguir se controlar. Não podia ficar ali e esperar o pub fechar, seria impossível não cumprir o acordo, ele fora taxativo. Era melhor dar o fora logo.
'-Por favor, quer fechar a conta para mim?'
'-Você disse que tinha todo o tempo do mundo?!' Ele não escondeu o desapontamento ao pronuncias essas palavras.
'-Acho que isto é tempo demais... Estou cansada... E... Você se encarregou de manter o meu copo sempre cheio, acho melhor parar por aqui'.
'-Você ainda me deve uma aposta'. Ele segurou as mãos dela entre as suas e acariciou lentamente fazendo um arrepio gostoso subir pela sua espinha.
Ela engoliu em seco, tentou retirar as mãos, mas, ele aumentou a pressão.
‘-Eu não vou abrir mão, nós fizemos uma aposta e eu ganhei’. Aquele sorriso voltou a aparecer no rosto dele.
Ela não tinha escolha, ele não iria deixá-la partir sem pagar a aposta. E enquanto pensava nisto percebeu que queria paga-la, queria revê-lo, mas não assim fora do seu controle. Ela tomou a caneta que estava presa no bolso da camisa que ele usava, anotou o numero do seu telefone num guardanapo de papel e entregou-lhe.
‘-Eu costumo pagar as minhas dívidas. Tchau!
Ele ficou olhando aquela mulher se afastar e não pode deixar de prestar atenção ao gingado dos seus quadris. Ela era timidamente sensual. Quando chegou à porta Julia não se conteve e virou-se para dar de cara com o barman que estivera acompanhando seu desfile pelo salão, ele deixou aquele sorriso confiante se abrir e piscou discretamente para ela enquanto apontava para o número anotado no guardanapo fazendo sinal de que iria ligar.
***
Quando chegou a casa Julia estava completamente desperta. O trajeto pela auto-estrada com as janelas do Astra azul metálico arriadas sentindo o vento frio e úmido da noite bater em seu rosto foi suficiente para afastar o excesso de álcool que ela havia ingerido. Sabia que o cansaço alegado era uma desculpa. Estava com medo! Era estranho se sentir assim, atraída por um homem completamente desconhecido.
Ela não era assim, não costumava flertar com desconhecidos em bares noite adentro. Onde estava com a cabeça? E ainda por cima estava se sentindo excitada ao lembrar-se do sorriso que o barman lhe lançou e pensar na possibilidade de beijá-lo. Meu Deus! O que seus pais iriam pensar se soubessem daquilo? Não era uma atitude decente! Moças de família não saiam por aí dando o seu telefone e apostando beijos com barman’s! Estava mais assustada porque embora mantivesse uma guerra moral com a sua consciência sentia que estava perdendo a batalha. Todos aqueles argumentos que vinha evocando em voz alta ao longo do caminho estavam sendo ditos da boca pra fora. Não estava se sentindo culpada, nem com vergonha! Não era uma vadia! Era uma mulher livre! Independente e dona do seu próprio nariz!
Não fora sempre assim. Não, antes era tímida. Uma moça de família, que sabia como se comportar. Todos os namoros anteriores haviam sido completamente dentro do padrão pré-estabelecido de comportamento. Em casa, com o aval dos pais, almoço de domingo, e com rapazes de famílias renomadas, que ela havia conhecido no colégio ou na faculdade. Jamais imaginara sair a noite sozinha, sentar em um bar, beber um pouquinho além da conta e ficar louca de desejo de ir pra cama com o barman. Então era isto!? Agora havia acontecido! Ela permitiu que o pensamento se formasse em sua cabeça, e era verdade. Ela não queria apenas beijá-lo, experimentava um desejo enorme de fazer sexo com ele. Aquele pensamento deixou-a perturbada e ainda mais desperta.
Enquanto preparava um expresso na aconchegante cozinha do seu apartamento se esforçava para descobrir em que ponto do caminho havia dado esta guinada. O que há levara até este ponto? Quando ocorrera a mudança? Quanto mais se esforçava, mais difícil era. As idéias vinham de forma desconexa em sua mente. Acho que ainda estou tonta, pensou. Mas, uma voz bem lá no fundo a alertou: não está não! Você esta completamente sóbria. As coisas estão mesmo confusas. Seus sentimentos estavam emaranhados como um novelo de lã. Insatisfação, deveres, desejos, sonhos, medos, paixões, expectativas... Todos juntos como num grande balaio de gato.
Achava que tudo havia começado com a insatisfação progressiva que o exercício de sua profissão estava se tornando. Ainda assim quanto mais pensava nisto, sempre acabava chegando a conclusão de que não queria estar fazendo outra coisa. Como era possível? Ser médica era tudo o que queria e mesmo assim cada dia se tornava um fardo maior chegar ao hospital. Não fazia diferença se estava atendendo no ambulatório, no consultório ou se estava de plantão na emergência, era sempre desgastante.
Ficou curiosa ao perceber agora, que embora estivesse insatisfeita era sempre um grande prazer dar aula para os estudantes da graduação, seja em sala ou a beira do leito. Não estava enfadada da medicina e nem de seus pacientes, seu coração ainda palpitava e sua mente ainda ficava prontamente alerta com um caso clínico interessante. Sentia-se presa e amarrada com a burocracia de todo o processo. Mais da metade do trabalho de um médico consistia em preencher papeis, guias de convênio, prontuários, fichas e mais fichas... Sobrava pouco tempo para o que realmente interessava: o paciente! Se você não estava atolado em fichas e papéis, o volume desproporcional de pessoas que necessitavam do serviço público forçava a um atendimento apressado e muitas vezes superficial. Quando o paciente tinha seguro-saúde, ainda assim a situação não era muito diferente. Desta vez a baixa remuneração por cada consulta, obrigava o médico a inchar a sua agenda espremendo os horários e encurtando o tempo de cada consulta. Sentia-se num campo de batalha, onde o prêmio era exercer a sua profissão com alguma dignidade.
Onde estavam todos aqueles sonhos e ideais embutidos no juramento de Hipócrates? Toda ação humanitária e desprendida amplamente contada na longa história da medicina? Todas as expectativas criadas enquanto estava na graduação se dissolveram como um castelo de areia no seu primeiro ano como médica. Todos os seus sonhos de cuidar dos pacientes, dedicar-lhes tempo, afeto, foram sendo engolidos pela perversa engrenagem da residência medica, do serviço público e dos seguros-saúde...
Cada vez que tinha que brigar para que um exame ou procedimento fosse autorizado sentia-se esgotada. Ao final do dia estava completamente desanimada, deprimida e sentindo-se prostituída. Vendia seus sonhos por uma migalha de permissão para exercer a medicina. Mas as coisas eram assim há muito tempo e ela era somente mais uma peça em toda a engrenagem do sistema. Deixou-se levar neste curso sem contestar, aceitando as coisas com resignação. Fora ensinada a ser assim, não devia se rebelar, não era certo.
À medida que o tempo transcorria foi acumulando insatisfações e mágoas, e sentia-se cada vez mais distante. Atendia de forma mecânica. Era tecnicamente impecável, sempre fora uma excelente médica e não se descuidava da atualização, utilizava-se de todo o arsenal tecnológico que dispunha para manter-se atualizada, internet, congressos, videoconferências. Mas, a cada ano sua chama de paixão diminuía, já não tinha mais aquele brilho febril no olhar, se acomodara a situação.
O que acabou desencadeando todo o processo de mudança, agora estava claro! Fora o seu relacionamento com Rodrigo, eles estavam juntos há quase seis anos. Haviam se conhecido no inicio da residência, ele era filho de uma família ilustre da cidade, o pai era um famoso cirurgião e Rodrigo estava seguindo os seus passos. Quando completaram dois meses de namoro ela o apresentou aos seus pais, viajaram para sua cidade no fim de semana e estavam oficialmente comprometidos. Quando eles começaram a dormir juntos parecia certo que fosse uma questão de tempo para estarem casados e para que Julia iniciasse a descendência dos Degoule.
Mas ela resistira fora sua primeira rebeldia. Tímida, amparada na desculpa de que queria consolidar a sua carreira primeiro, e de que Rodrigo iria fazer um período de residência em Londres... E as coisas foram sendo levadas em “banho Maria”. Nem mesmo ela tinha consciência de que começava a sua mudança ali, que iria culminar nesta mudança completa de planos algum tempo depois. Fora há alguns meses atrás, eles haviam transado e Rodrigo adormecera em seu apartamento como algumas vezes acontecia. Ela acordou no meio da noite e sentou-se na cama envolvendo os joelhos e abraçando-os como fazia quando era criança e um pesadelo a despertava. Desta vez não fora um pesadelo, e sim um sonho erótico!?! A sensação de prazer que experimentara fora tão intensa, que ainda estava impregnada em sua pele...
Tentou se lembrar do sonho estava assustada! Era como se estivesse traindo o namorado que dormia ao seu lado, porque ele não estava presente... Disto ela estava plenamente certa. Não era Rodrigo o homem que lhe despertara todas aquelas sensações. Não conseguia visualizar a fisionomia do homem, por mais que se esforçasse não era capaz de ver o seu rosto. Mas, o seu corpo foi se tornando cada vez mais nítido em sua mente. Era mais forte que Rodrigo, a pele mais morena, e... Aquilo começou a deixá-la excitada.
Que loucura! Nunca se sentira assim antes! Rodrigo nunca lhe despertara todo aquele desejo, aquela urgência. Não que fosse ruim fazer amor com ele. É claro que não! Sentia prazer, ele era delicado, carinhoso, mas... Sentia agora que faltava aquele turbilhão, aquele arrebatamento. Era tudo calmo demais... Mas que droga! Estava ficando louca! Ela o amava e... E... Sentia prazer com ele, é claro que sim! Mas... Não aquilo, não aquela sensação tão intensa que queimava a sua pele mesmo quando havia apenas sonhado com tudo aquilo.
Procurou retroceder um pouco mais as suas lembranças e os outros namorados com quem havia transado vieram a sua mente. Com Pedro Henrique e Danilo durante a faculdade era mais divertido, faziam sexo com uma freqüência alucinante, eram jovens e queriam experimentar tudo, mesmo assim nunca experimentara aquela sensação tão intensa e completa de prazer. Antes houvera o Fernando, da época do colégio, fora o primeiro, mas eram ambos adolescentes, inexperientes...
Começou a pensar que talvez ela fosse o problema. Conhecera quatro homens diferentes em sua vida, e nunca conseguira obter o prazer pleno até aquele momento, mesmo com Rodrigo a quem ela amava. Amava? Quando aquele pensamento perturbador iria começar a se infiltrar em sua mente ele abriu os olhos e ofereceu-lhe aquele sorriso meigo que ela conhecia tão bem.
‘-O que foi querida? Em que esta pensando?’ Ele percebera a fisionomia tensa de sua namorada
‘-Hum! Nada!’ Ela não podia contar nada daquilo a ele.
‘-Não adianta fingir, o que esta te preocupando?’
Ela não podia contar a ele o que estivera pensando. Teria que sair pela tangente, fazer aquilo que mais detestava mentir, dissimular, mas era o certo. Não poderia magoá-lo
‘-Estou pensando na sua viagem... Está tão perto agora... ’
Ele voltou a abrir um sorriso no rosto. Ela estava triste por causa dele, já estava com saudades, que gracinha.
‘-Ah minha querida! Não fique assim. Vai ser rápido, dois meses e eu estou de volta. Então nós vamos nos casar’. Ele levantou-se e abraçou-a suavemente
Aquela palavra caiu como uma pedra no seu coração. Era como se ele estivesse cravando uma estaca bem no meio do seu peito. Casar! Sentiu um frio enorme por dentro, como se todos os seus ossos estivessem congelados, uma estranha náusea inundou o seu estomago, estava apavorada.
‘-Vamos tomar café?’ Ele levantou-se de um pulo e puxou-a para cozinha.
***
Livro novo!!!
Vou começar a postar por aqui o novo livro... Divirtam-se tanto quanto eu me diverti brincando de escritora rsrs
"Deveres, sonhos e paixões"
"Deveres, sonhos e paixões"
domingo, 3 de abril de 2011
Caminhos Cruzados Cap 57 - FINAL
ASSIM QUE TERMINOU O CHECK-OUT NO AEROPORTO GUSTAVO OLHOU NO RELÓGIO E PERCEBEU QUE FALTAVA POUCO MAIS DE UMA HORA PARA O CASAMENTO. ELE TERIA QUE SER RÁPIDO DE QUIZESSE CHEGAR A TEMPO. JÁ TINHA FEITO A RESERVA EM UM HOTEL NÃO MUITO LONGE DA IGRJA.
TOMOU BANHO E RELAXOU ESTIRADO NA CAMA ENQUANTO AGUARDAVA A ROUPA QUE TINHA MANDADO PASSAR. NÃO FOI DIFÍCIL ESCOLHER O QUE USAR. O MESMO BLASER MARROM, AS MESMAS CALÇAS, E CAMISA. A GRAVATA ELE NÃO TEVE DÚVIDAS, ESCOLHEU A VERMELHA QUE AMANDA HAVIA LHE DADO NA NOITE EM QUE FIZERAM AMOR PELA PRIMEIRA VEZ, AO COMPLETAREM DOIS MESES DE NAMORO.
ESTAVA TOMANDO UMA DOSE DE WISK, TENTANDO NÃO TREMER E PROCURANDO SE ACALMAR, MAS ESTAVA DIFÍCIL. SERÁ QUE ELA AINDA O AMAVA? JÁ HAVIAM SE PASSADO QUASE CINCO MESES DESDE QUE ELE PARTIRA PARA LOS ANGELES. E ELES NEM HAVIAM SE DESPEDIDO. UMA BRIGA, NENHUM ADEUS, E ELE TINHA IDO EMBORA. NÃO HAVIAM SE COMUNICADO DESDE ENTÃO.
E NA VERDADE HÁ PELO MENOS DOIS MESES NÃO TINHA QUALQUER NOTÍCIA, MESMO POR CARTA OU TELEFONE DOS AMIGOS EM COMUM. E SE ELA JÁ ESTIVESSE COM OUTRO? CINCO MESES... ELA ERA UMA MULHER ATRAENTE... LINDA... MARAVILHOSA... COM CERTEZA NÃO TERIA DEIXADO DE TER PRETENDENTES, MAS... NÃO IMPORTAVA, ELE PRECISAVA VÊ-LA. MESMO QUE FOSSE PRA DIZER ADEUS... AINDA ASSIM PRECISAVA VÊ-LA, OU ENTÃO NÃO PODERIA SEGUIR SEU CAMINHO... CAMINHO... QUE CAMINHO, O ÚNICO CAMINHO QUE LHE INTERESSAVA ERA O QUE O LEVARIA AO CORAÇÃO DELA. AMANDA... COMO EU A AMO! COMO SINTO A SUA FALTA... DO SEU CHEIRO, DO SEU RISO, DE SUA VOZ... DE FAZER AMOR COM VOCÊ...
ESTAVA PERDIDO EM PENSAMENTOS QUANDO OUVIU A CAMPAINHA.
‘-SERVIÇO DE QUARTO. SUAS ROUPAS, SENHOR.’
GUSTAVO OLHOU PARA O RELÓGIO, NÃO HAVIA DÚVIDAS CHEGARIA ATRAZADO. VESTIU-SE COM CALMA, AJEITOU A GRAVATA, TOMOU O RESTINHO DO WISK E PEGOU O TELEFONE
‘-POR FAVOR, PODERIA ME CHAMAR UM TAXI?’
‘-POIS NÃO, SENHOR.’
QUANDO ELE DESCEU ESTAVA INCRIVELMENTE BONITO. HAVIA FEITO A BARBA, MAS DEIXARA O BIGODE QUE ELE SABIA QUE AMANDA ADORAVA. COLOCARA TAMBÉM O PERFUME QUE ELA MAIS GOSTAVA. ESTAVA ANSIOSO, MAS JÁ NÃO TREMIA MAIS. O TAXI CHEGOU EM DEZ MINUTOS.
‘-IGREJA MATRIZ, POR FAVOR.’
ELE CHEGOU QUASE UMA HORA APÓS O INICIO DA CRIMÔNIA. A IGREJA ESTAVA COMPLETAMENTE LOTADA, NÃO HAVIA NENHUM LUGAR PARA SE SENTAR E MESMO NO FINAL DO SALÃO E NAS LATERAIS HAVIA PESSOAS EM PÉ. GUSTAVO PERMANECEU NO FUNDO DA IGREJA, NÃO QUERIA CHAMAR ATENÇÃO. PROCURAVA ANSIOSO POR AMANDA E NÃO DEMOROU MUITO A VÊ-LA, NO ALTAR, JUNTAMENTE COM OS OUTROS CASAIS QUE IRIAM APADRINHAR OS NOIVOS. ELA ESTAVA LINDA! A VISÃO DE AMANDA FEZ SUBIR-LHE UM CALOR PELO CORPO. COMO ELA ESTAVA LINDA! O VESTIDO AZUL MOLDAVA PERFEITAMENTE O BELO CORPO, ELA FICAVA LINDA DE AZUL. OS CABELOS ESTAVAM PRESOS O QUE REALÇAVA O SEU PERFIL, E ELA TINHA UM SORRISO NO ROSTO.
ELE ADORAVA AQUELE SORRISO. QUEM SERIA AQUELE QUE A ACOMPANHAVA? ERA UM BELO HOMEM, AO SEU LADO, DE FRAQUE, ELEGANTE. GUSTAVO NÃO CONSEGUIA TER UMA VISÃO COMPLETA DA CENA, E UMA PONTINHA DE CIÚMES COMEÇOU A MARTELAR-LHE A CABEÇA. CINCO MESES, ELA ERA UMA MULHER FABULOSA, SERIA ESPANTOSO SE NÃO TIVESSE ENCONTRADO ALGUÉM. ELE OS OLHOU NOVAMENTE, O HOMEM APROXIMOU A CABEÇA E SUSSUROU ALGUMA COISA NO OUVIDO DELA QUE SORRIU, E ENTÃO GUSTAVO O VIU MEIO DE COSTAS, MAS... SERIA POSSÍVEL? ELE..., ELE... ESTAVA COM OS CABELOS PRESOS NUM RABO DE CAVALO? ELA NUNCA GOSTARA DE HOMENS COM CABELO CUMPRIDO!?!
ELE RIU COM UM FIO DE AMARGURA, QUEM ELE ESTAVA PENSANDO QUE ERA? AS PESSOAS MUDAM, AMANDA PODERIA TER MUDADO. E ENTÃO O PADRE ESTAVA PRONUNCIANDO AS PALVRAS FINAIS DA CERIMONIA.
‘-EU OS DECLARO MARIDO E MULHER.’
QUANDO ANDRÉ E REBECA SE BEIJARAM, GUSTAVO SORRIU E SENTIU-SE FELIZ PELOS AMIGOS, MAS TAMBÉM SENTIU-SE TRISTE E AMARGURADO PELA SUA SITUAÇÃO. OS NOIVOS E OS PADRINHOS PROCEDERAM A BUROCRACIA DE ASSINAR OS AUTOS DA CERIMONIA.
‘-OS NOIVOS RECEBERÃO OS CONVIDADOS NO CLUBE HÍPICO, ONDE CONVIDAM A TODOS PARA CELEBRAR O ACONTECIMENTO.’
E ENTÃO SE PREPARARAM PARA A PROCISSÃO DE SAÍDA. OS RECÉM-CASADOS A FRENTE, OS PADRINHOS EM FILA INDIANA. GUSTAVO RECUOU E FOI OCULTADO PELOS CONVIDADOS QUE QUERIAM VER OS NOIVOS, MAS MESMO ASSIM ELE PODE VÊ-LA, LINDA, SORRIDENTE, E... DE MAÕS DADAS COM O SEU PAR, PARECIAM FELIZES. PARECIAM MUITO FELIZES.ELE DEIXOU-SE FICAR MAIS UM POUCO NA IGREJA.
UMA FILA DE CONVIDADOS SE FORMOU NA ENTRADA DO SALÃO PARA CUMPRIMENTAR OS NOIVOS E DEPOIS ENTAR PARA A FESTA. FOI SÓ QUANDO QUASE TODOS JÁ TINHAM ENTRADO QUE GUSTAVO SE DIRIGIU PARA LÁ.
‘-GUSTAVO! EU NÃO ACREDITO!’ EXCLAMOU RADIANTE REBECA.
‘-GUSTAVO! VOCÊ! MAS... QUANDO VOCÊ CHEGOU?’PERGUNTOU ANDRÉ, IGUALMENTE EXULTANTE.
‘-HÁ POUCO MAIS DE UMA HORA. EU... ACABEI CHEGANDO ATRAZADO, MAS PEGUEI A PARTE MAIS IMPORTANTE... O BEIJO DOS APAIXONADOS.’
ANDRÉ E REBECA RIRAM JUNTOS, ENQUANTO ABRAÇAVAM O AMIGO.
‘-ESPERO QUE VOCÊS SEJAM MUITO FELIZES, VOCÊS MERECEM, E EU... AH! EU ADORO VOCÊS.’
‘-EU TAMBÉM TE ADORO.’FALOU REBECA ENQUANTO ENLAÇAVA-LHE O PESCOÇO E BEIJAVA-LHE NO ROSTO.
‘-ORA,ORA. EU NÃO TENHO CULPA, ELA É QUE ESTÁ ME AGARRANDO, VOCÊ ESTÁ DE PROVA.’FALOU ELE ENQUANTO SOLTAVA UMA GARGALHADA.
‘-ORA, IDIOTA!’FALOU REBECA E ELA E ANDRÉ RIRAM JUNTOS.
‘-VOCÊ TINHA QUE ESTAR LÁ NO ALTAR, COMO NOSSO PADRINHO. AFINAL, VOCÊ TAMBÉM TEM “CULPA” NESTE CASAMENTO.’ANDRÉ RIA ENQUANTO FALAVA.
‘-BOBAGEM. POSSO NÃO SER PADRINHO OFICIALMENTE, MAS SE VOCÊS PENSAM QUE VÃO FICAR LIVRES DE MIM PODEM ESQUECER. ESTOU DE OLHO EM VOCÊS.’
‘-VOCÊ JÁ VIU TODO MUNDO?... JÁ VIU A... AMANDA?’
ELE FICOU SÉRIO, MAS LOGO UM ENORME SORRISO SE ABRIU E SEUS OLHOS BRILHARAM QUANDO ELE RESPONDEU
‘-NÃO... EU QUIS CUMPRIMENTÁ-LOS PRIMEIRO. E... VI A AMANDA, NO ALTAR...., ELA... ESTAVA LINDA... LINDA!’
REBECA VIU TODA A TERNURA E TODA PAIXÃO EXPRESSAS NAQUELES OLHOS VERDES, E FITOU SIGNIFICATIVAMENTE ANDRÉ.
‘-VOCÊ PRECISA FALAR COM ELA, A AMANDA VAI ADORAR REVÊ-LO’ ELE CAPTOU A MENSAGEM DA ESPOSA E COMPLETOU O CERCO.
‘-É... PODE SER... AMIGOS, FELICIDADES. VOCÊS MERECEM TUDO.’
ELE ABRAÇOU-OS E ENTROU NO SALÃO.
‘-VOCÊ ENTENDEU?’
‘-NADINHA. “PODE SER...” O QUE ELE QUIS DIZER COM ISTO?’ REBECA TINHA UM OLHAR DE INTERROGAÇÃO PARA ANDRÉ, E ENTÃO ELE A FITOU COMO SE TIVESSE FEITO A DESCOBERTA DO SÉCULO.
‘-REBECA. SERÁ. ELE HÁ VIU NO ALTAR... AO LADO DO JEAN... SERÁ?’
‘-NÃO É POSSÍVEL? ELE CONHECE O JEAN!’
‘-CONHECE MESMO? QUANTAS VEZES ELE JÁ O VIU?’
REBECA COMEÇOU A ENTENDER, TALVEZ ELE ESTIVESSE PENSANDO QUE AMANDA JÁ ESTAVA SAINDO COM OUTRO. OH! DEUS, MAS E SE ELE NÃO FOSSE FALAR COM ELA?
‘-VOCÊ TEM RAZÃO. ACHO QUE ELE REALMENTE NUNCA O VIU. CONHECE A HISTÓRIA DO JEAN, É CLARO QUE A AMANDA LHE CONTOU, MAS ACHO QUE NUNCA FORAM APRESENTADOS.’
‘-FIQUE TRANQUILA.VAMOS AGUARDAR OS ACONTECIMENTOS, SE FOR PRECISO, NÓS SEREMOS OS CUPIDOS DESTA VEZ.’
REBECA CONCORDOU COM ANDRÉ. ABRAÇOU-O E BEIJOU-LHE ENQUANTO ELES ERAM ABORDADOS PELOS ÚLTIMOS CONVIDADOS.
‘-GUSTAVO!’MAJÚ EXCLAMOU ALTO QUANDO VIU O AMIGO ENTRANDO NO SALÃO E CORREU AO SEU ENCONTRO ENVOLVENDO-LHE O PESCOÇO PARA UM ABRAÇO AFETUOSO.
‘-OLÁ SUMIDO!’ ARTHUR SE APROXIMOU PARA ABRAÇÁ-LO TAMBÉM.
AMANDA ESTAVA NO LADO OPOSTO DO SALÃO, DE COSTAS PARA A ENTRADA, SOZINHA COM UMA TAÇA DE CHAMPANHE NAS MÃOS E OUVIU QUANDO MAJÚ COMEMOROU A CHEGADA SURPRESA DO AMIGO. VIROU-SE RAPIDAMENTE E OS VIU ABRAÇADOS, ELA PENDURANDO-SE NO PESCOÇO DELE E ENCHENDO-O DE BEIJINHOS AFETUOSOS ENQUANTO ARTHUR TAMBÉM SE APROXIMAVA PARA CUMPRIMENTÁ-LO.
ELA ACHOU QUE NÃO IRIA SUPORTAR. UM TURBILHÃO DE EMOÇÕES INVADIU A SUA MENTE. A FELICIDADE IMENSA EM REVÊ-LO, SAUDADE DO SEU TOQUE E TODAS AS SENSAÇÕES QUE ELE LHE PROVOCAVA, MAS TAMBÉM UM MEDO SÚBITO DE QUE GUSTAVO NÃO HÁ QUISESSE MAIS. E SE ELE TIVESSE VINDO SÓ PRA DIZER ADEUS...
SEU CORAÇÃO COMEÇOU A BATER MAIS FORTE, COMPLETAMENTE DESCOMPASSADO, PARECIA QUE IRIA SALTAR PARA FORA DO SEU PEITO, SUAS MÃOS COMEÇARAM A TREMER, OS OLHOS SE ENCHERAM DE LÁGRIMAS, MAS ELA SE FORÇOU A CONTÊ-LAS.
‘-QUANDO VOCÊ CHEGOU?’ PERGUNTOU MAJÚ AINDA DEPENDURADA NO PESCOÇO DE GUSTAVO.
‘-HÁ ALGUMAS HORAS. QUASE PERDI O CASAMENTO.’ GUSTAVO RESPONDEU, MAS NÃO ESTAVA PRESTANDO ATENÇÃO NO QUE OS AMIGOS FALAVAM. ESTAVA AFLITO, PROCURANDO POR SOBRE AS CABEÇAS NO SALÃO. ONDE ELA ESTÁ? PRECISO ENCONTRÁ-LA ANTES QUE ALGUÉM MAIS SE APROXIME.
MAJÚ PERCEBEU A INQUIETAÇÃO DO AMIGO E PROCUROU AFASTAR ARTHUR QUANDO ELE IRIA INICIAR AQUELE PAPO TÍPICO DE RETORNO DE VIAGEM...
‘-COMO FOI...’
‘-ARTHUR, VEM.’
‘-PERAÍ, EU QUERO CONVERSAR COM O GUSTAVO, PÔ?’
‘-DEPOIS, VEM.’ E MAJÚ ARRASTOU O NAMORADO QUE NÃO TEVE ALTERNATIVA SENÃO SEGUI-LA.
‘-O QUE DEU EM VOCÊ? EU QUERO CONVERSAR COM ELE.’
MAJÚ SUSSUROU-LHE AO OUVIDO.
‘-PUTA QUE PARIU! VOCÊ NÃO PERCEBEU?’
‘-PERCEBEU O QUE?’ PERGUNTOU ARTHUR SEM ENTENDER.
‘-ELE ESTÁ PROCURANDO...’
MAS ANTES QUE ELA TERMINASSE A FRASE ELE HAVIA COMPLETADO
‘-A AMANDA, É CLARO! QUE IDIOTA QUE EU SOU.’
E ENTÃO ELE A VIU. DO OUTRO LADO DO SALÃO. SOZINHA, COM UMA TAÇA DE CHAMPANHE NAS MÃOS. ELA ESTAVA LINDA! MAS DE REPENTE FOI COMO SE ELE TIVESSE FICADO PARALIZADO, COMPLETAMENTE PARALIZADO. SEUS MÚSCULOS NÃO CORRESPONDIAM AS SUAS ORDENS. ELE TINHA VINDO DE TÃO LONGE SÓ PARA REVÊ-LA, E ELA ESTAVA ALI, ALGUNS METROS A SUA FRENTE E ELE NÃO CONSEGUIA MOVER UM MÚSCULO SEQUER. ERA RIDÍCULO!
E ELA TAMBÉM O VIU, E ESTAVA IGUALMENTE PARALIZADA. FEITO UMA ESTÁTUA A SUA FRENTE. SUAS MÃOS TREMIAM TANTO QUE ELA TEMEU DEIXAR CAIR A TAÇA DE CHAMPANHE. ENTÃO ELA COMEÇOU A SORRIR, O SEU SORRISO MAIS LINDO, QUE ELE ADORAVA. E FOI COMO SE ELA TIVESSE LHE DADO A SENHA, LIGADO O INTERRUPTOR, ELE COMEÇOU A SE MOVER NA DIREÇÃO DELA, CONTROLANDO OS PASSOS PARA NÃO CORRER.
‘-OI! BOA NOITE!’ ELE FALOU PRIMEIRO, COM UM SORRISO ENCANTADOR QUE LHE AQUECEU A ALMA.
‘-OI!’
E ELES PERMANECERAM CALADOS. OLHANDO-SE MUTUAMENTE E SORRINDO UM PARA O OUTRO. COMO SE ACHASSEM QUE ESTAVAM SONHANDO. GUSTAVO SENTIA AS PERNAS BAMBAS, E ERA COM ENORME FORÇA QUE CONTINHA AS LÁGRIMAS. AMANDA CONTINUAVA A SENTIR AS MÃOS TREMEREM E SEU CORAÇÃO BATIA TÃO FORTE QUE ELA TEVE RECFEIO DE QUE TODOS NA FESTA PUDESSEM OUVI-LO. JÁ TINHAM VENCIDO A DISTÂNCIA QUE OS SEPARAVA E ESTAVAM ALI, UM DIANTE DO OUTRO, MAS NÃO CONSEGUIAM DIZER NADA. SÓ SE OLHAVAM E SORRIAM.
‘-VOCÊ ESTÁ LINDA!’
‘-VOCÊ TAMBÉM ESTÁ LINDO, ALIÁS, ADOREI A SUA GRAVATA.’AMANDA RESPONDEU RINDO E FAZENDO TROÇA COM ELE.
‘-É, EU TAMBÉM A ADORO.’ E ELE TAMBÉM ESTAVA RINDO.
CÉUS! COMO SENTIRA FALTA DO SEU SENSO DE HUMOR! DAQUELE SORRISO...
MAIS UMA VEZ FICARAM MUDOS, OLHANDO-SE MUTUAMENTE E SORRINDO, E DESTA VEZ FOI AMANDA QUE TOMOU A INICIATIVA DA CONVERSA.
‘-QUANDO VOCÊ CHEGOU?’
‘-HÁ ALGUMAS HORAS. VIM QUASE DIRETAMENTE DO AEROPORTO PARA O CASAMENTO.’
‘-E... A SUA BAGAGEM?’QUANDO TERMINOU A FRASE ELA SE DEU CONTA DE QUE NÃO SABIA SE ELE ESTAVA DE VOLTA, NÃO DEFINITIVAMENTE. TALVEZ TIVESSE VINDO APENAS PARA O CASAMENTO E SE APROXIMARA PARA CUMPRIMENTÁ-LA, OU SERÁ QUE ELE ESTAVA REALMENTE DE VOLTA? ELA PRESCISAVA SABER. TINHA QUE FAZER A PERGUNTA, MAS TINHA MEDO DA RESPOSTA.
‘-EU ESTOU NO PALACE HOTEL. EU... SÓ DECIDI VOLTAR HÁ QUATRO DIAS, E... NÃO TIVE COMO ME COMUNICAR... NÃO SABIA SE VOCÊ...’ ELE NÃO TERMINOU A FRASE. TINHA MEDO DO QUE IRIA OUVIR. LEMBROU-SE ENQUANTO FALAVA DO HOMEM QUE ESTAVA AO LADO DELA NO ALTAR.
ELA, NO ENTANTO NÃO PODE DEIXAR DE PRESTAR ATENÇÃO NO QUE ELE DISSERA ‘EU DECIDI VOLTAR..’, SIM ELE HAVIA VOLTADO, PARA ELA? ERA TUDO O QUE ELA PRESCISVA SABER, ERA SÓ O QUE IMPORTAVA. ENTÃO, ABANDONANDO A TAÇA DE CHAMPANHE NUMA MESA PRÓXIMA ELA SEGUROU AS MÃOS DE GUSTAVO NAS SUAS ENQUANTO MURMURAVA OLHANDO BEM DENTRO DOS SEUS OLHOS.
‘-VAMOS SAIR DAQUI. TEMOS MUITO QUE CONVERSAR. EU QUERO FICAR SOZINHA COM VOCÊ.’
MESMO COM TODA INTENSIDADE DO OLHAR DA MULHER ELE NÃO PODE DEIXAR DE PERGUNTAR, COM UMA PONTA DE DOR NA VOZ.
‘-MAS... VOCÊ NÃO ESTAVA ACOMPANHADA?’
AMANDA RIU E ESTENDEU-LHE A JOÍA NO SEU PESCOÇO ENQUANTO RESPONDIA.
‘-SE EU ESTIVESSE COM ALGUÉM NÃO ESTARIA USANDO ISTO.’
FOI SÓ ENTÃO, QUE ELE VIU O CORAÇÃO DE DIAMANTES PENDURADO NA CORRENTE DOURADA QUE ELE HAVIA LHE DADO NA NOITE EM QUE HAVIAM SE TORNADO AMANTES. PROCUROU LUTAR CONTRA SUAS EMOÇÕES, MAS AS LÁGRIMAS INUNDARAM SUA FACE, E AMANDA SECOU-AS DELICADAMENTE E PUXOU-O PELAS MÃOS PARA QUE ELES SAISSEM DO SALÃO.
GUSTAVO SE DEIXOU LEVAR, EM QUATRO DIAS ERA A SEGUNDA VEZ QUE ELE ERA ARRASTADO PELAS MÃOS DE UMA MULHER. MAS, DESTA VEZ ELE ESTAVA BEM LÚCIDO, SABIA PARA ONDE ESTAVA INDO, IRIA PRA CASA, PELOS BRAÇOS DE SUA MULHER.
QUANDO CHEGARAM AO ESTACIONAMENTO QUASE DESERTO NÃO PUDERAM MAIS SE CONTER. GUSTAVO PUXOU-A PARA JUNTO DE SI E AMANDA SE ANINHOU NO CÍRCULO DOS SEUS BRAÇOS. FICARAM ASSIM, UM BOM TEMPO, ABRAÇADOS. ELE COMEÇOU A ACARICIAR-LHE OS CACHOS DOS CABELOS QUE ADORAVA. E ENTÃO ELA COMEÇOU A BEIJAR-LHE O PESCOÇO E A PROCURAR A SUA BOCA CHEIA DE DESEJO. ELE CORRESPONDEU AO BEIJO COM A MESMA INTENSIDADE ENQUANTO MANTINHA-NA PRESA EM SEUS BRAÇOS COMO SE TIVESSE MEDO DE QUE ELA FOSSE SUMIR.
‘-OH DEUS! COMO SENTI SUA FALTA!’AMANDA CONSEGUIU MURMURAR ENTRE SUSPIROS.
‘-EU TAMBÉM! EU TAMBÉM! FIQUEI LOUCO DE SAUDADES.’
ELA COMEÇOU A APERTÁ-LO, ACARICIAR SEU ROSTO SEUS CABELOS.
‘-É REAL! VOCÊ ESTÁ AQUI, DE VOLTA! COMIGO.’
‘-É CLARO QUE É REAL, SUA BOBA! ACHOU QUE FOSSE O QUE?’ E DESTA VEZ FOI ELE QUE BRINCOU COM ELA.
‘-AH! NÃO SEI, TALVEZ EFEITO DO CHAMPANHE.’
‘-EFEITO DO CHAMPANHE?! VOCÊ NEM MESMO CONSEGUIU BEBE-LO? EU BEM VI, A TAÇA NA SUA MÃO ESTAVA COMPLETAMENTE CHEIA E VOCÊ TREMIA COMO UMA LOUCA. FIQUEI COM MEDO DE QUE VOCÊ FOSSE DERRAMAR TUDO EM MIM.’
ELA DEU-LHE UM SOCO DE BRINCADEIRA NO PEITO E COMEÇOU A GARGALHAR.
‘-SEU... SACANA CONVENCIDO.’
‘-SOU UM SACANA CONVENCIDO, MAS FELIZ. SOU O SACANA CONVENCIDO MAIS FELIZ DO MUNDO, E TAMBÉM ESTOU TREMENDO. MINHAS PERNAS ESTÃO TÃO BAMBAS QUE ACHO QUE NÃO CONSIGO MAIS FICAR EM PÉ. PRA ONDE A SENHORA VAI ME LEVAR? OU SERÁ QUE VAMOS FICAR AQUI NESTE ESTACIONAMENTO O RESTO DA NOITE.’
AMANDA ABRAÇOU-O, BEIJOU-O COM TERNURA E FITOU-O NOS OLHOS.
‘-ADORO SEUS OLHOS. VAMOS, VAMOS PRA CASA.’
E NOVAMENTE ELA O PUXOU, DESTA VEZ NÃO SEGUROU-LHE AS MÃOS, MAS DEPENDUROU-SE NO SEU BRAÇO E ELES CAMINHARAM DE BRAÇOS DADOS ATÉ O TIGRA VERMELHO, AMANDA COMPLETAMENTE DEPENDURADA NO BRAÇO DE GUSTAVO QUE LUTAVA PARA CONSEGUIR CONTROLAR AS PROPRIAS PERNAS AINDA BAMBAS DE EMOÇÃO.
ELA LIGOU O CARRO E DEPOIS O RÁDIO QUE JÁ ESTAVA SINTONIZADO NA SUA ESTAÇÃO PREFERIDA. ENTÃO ELES OUVIRAM A ENTRADA DE UMA MELODIA MUITO FAMILIAR E A VOZ INCONFUNDIVEL DE TOM JOBIM
‘... EU, VOCÊ, NÓS DOIS...’
AMANDA SORRIU DIANTE DA COINCIDENCIA. HÁ QUASE CINCO MESES ELA NÃO OUVIA ESTA CANÇÃO. A CANÇÃO DELES E AGORA QUE ELES ESTAVAM ALI, DE VOLTA, QUE ELE ESTAVA ALI DE NOVO AO SEU LADO, A MÚSICA... GUSTAVO TAMBÉM SORRIA E ESPEROU OS ACORDES FINAIS PARA SEGUINDO A LETRA DA MÚSICA BEIJÁ-LA. SÓ ENTÃO ELA DEU A PARTIDA NO CARRO.
‘-SABE SE UMA COISA SENHORITA, EU SOU APAIXONADO POR VOCÊ.’
‘-EU TAMBÉM SOU APAIXONADA POR VOCÊ.’
‘-PRA ONDE VOCÊ ESTÁ ME LEVANDO, DONA.’
‘-ORA, SEU PALHAÇO, PRA CASA!’
‘-VOCÊ CONTINUA MORANDO LÁ?’ ELE LEMBROU-SE QUE NAS ÚLTIMAS CARTAS O PAI MENCIONARA ALGUMA COISA A RESPEITO DE AMANDA TER IDO PARA O APARTAMENTO, MAS NÃO ESTAVA DE TODO CERTO.
‘-NÃO. EU NÃO PUDE FICAR LÁ. NÃO SEM VOCÊ. ERA DOLOROSO DEMAIS. HÁ QUASE QUATRO MESES VOLTEI PARA O APARTAMENTO.’
‘-SEI.’
‘-MAS A CASA ESTÁ EM ORDEM. EU SEPAREI AS SUAS COISAS E COLOQUEI NO ESCRITÓRIO QUANDO O SEU PAI VEIO PEGAR O QUE VOCÊ PEDIU.’ ELA FALAVA COM A VOZ FIRME, MAS O TOM DEMONSTRAVA TRISTEZA.
‘-HUM!’
‘-EU NÃO SABIA O QUE IRIA ACONTECER. SE VOCÊ... SE NÓS... IRIAMOS... VOLTAR...’ E ELE PERCEBEU A DOR ESTAMPADA EM SEUS OLHOS.
‘-BOM, MOCINHA, AGORA VOCÊ JÁ SABE O QUE ACONTECEU.’
‘-É, E EU ESTOU MUITO FELIZ!’ AGORA ELA TINHA NO ROSTO AQUELE SORRISO QUE ELE ADORAVA.
‘-E LINDA, MARAVILHOSA, FABULOSA! MAS, UM POUQUINHO MAIS MAGRA.’
‘-ASSIM VOCÊ VAI ME DEIXAR CONVENCIDA, E VOCÊ TAMBÉM ESTÁ MAIS MAGRO. MAS TAMBÉM LINDO.’
‘-QUE BOM, QUEM SABE NÃO CONSEGUIMOS GANHAR ALGUM DINHEIRO COM ISTO?’ ELE COMEÇOU A RIR. AMANDA OLHOU-O SEM ENTENDER, MAS NÃO PODE DEIXAR DE RIR TAMBÉM.
‘-DINHEIRO? COMO? FICOU MALUCO?!’
‘-NÃO MESMO. VAMOS PATENTIAR O MÉTODO DE PERDER PESO DA Dra. AMANDA. É SÓ VOCÊ BRIGAR COM O SEU NAMORADO, ELE VIAJA E DESAPARECE POR CINCO MESES E ENTÃO, BINGO! VOCÊ VAI FICAR EM FORMA.’
‘-NÃO TEM GRAÇA.’AMANDA COMEÇOU A FALAR SÉRIO, MAS GUSTAVO GARGALHAVA TÃO ALTO QUE ELA NÃO PODE SE CONTER.
‘-EU TE AMO SABIA.’ FALOU GUSTAVO
‘-SABIA.’
‘-PRETENCIOSA, HEIM!’
‘-O QUE! VOCÊ VEM DE LOS ANGELES PRA ME CHAMAR DE PRETENCIOSA? COMO PODE?’
‘-É SIM, MAS EU A ADORO. E ADORO QUE VOCÊ SEJA ASSIM.’ ELE RIA ENQUANTO FITAVA O SEU PERFIL.
‘-ENTÃO NÓS FORMAMOS O CASAL PERFEITO, A PRETENCIOSA E O CONVÊNCIDO.’
COMO ERA GOSTOSO ESTAR AO LADO DELE NOVAMENTE, RINDO, BRINCANDO, ELES SEMPRE SE DIVERTIAM JUNTOS. A VIDA ERA TÃO MAIS INTERESSANTE AO LADO DELE. SOB O ÂNGULO DO SEU OLHAR, AO SOM DE SUAS GARGALHADAS, COM A SENSAÇÃO DO SEU TOQUE. ERA ISTO QUE FAZIA A DIFERENÇA, A CAPACIDADE QUE ELES TINHAM DE SE DIVERTIREM JUNTOS, DE BRINCAREM FEITO DUAS CRIANÇAS.
ELA SENTIU TODO O SEU CORPO SE ARREPIAR E UMA SENSAÇÃO DE DESEJO SUBIR-LHE POR ENTRE AS PERNAS QUANDO GUSTAVO COMEÇOU A ACARICIAR-LHE O PESCOÇO DENTRO DO CARRO.
‘-AH! QUE GOSTOSO SENTIR O SEU TOQUE.’
‘-TAMBÉM SENTI FALTA DE TOCAR EM VOCÊ, DO SEU CHEIRO, DO SEU BEIJO...’
‘-HUM, PARA COM ISTO, EU ESTOU TENTANDO DIRIGIR, DEIXA PELO MENOS EU CHEGAR EM CASA.’
ELA ESTACIONOU O TIGRA NA GARAGEM E ELES SUBIRAM AS ESCADS. AMANDA ENFIOU A CHAVE NA FECHADURA E GIROU. QUANDO ELA IA RODAR A MAÇANETA PARA ABRIR A PORTA GUSTAVO A CONTEVE.
‘-ESPERA.’ TOMOU-A NO COLO, BEIJOU-LHE OS LÁBIOS E ENTROU EM CASA. ELA TATEOU A MÃO PELA PAREDE PROCURANDO O INTERRUPTOR E A LUZ INUNDOU A SALA DE ESTAR. ERA A CASA DELES. E AGORA COM ELE DE VOLTA NÃO ESTAVA MAIS MORTA, E SIM CHEIA DE VIDA.
ELA COMEÇOU A BEIJA-LO CHEIA DE DESEJO E ELE CORRESPONDEU AO BEIJO SENTINDO UMA PONTA DE EXCITAÇÃO SUBIR-LHE PELO CORPO. AMANDA SUSSUROU AO SEU OUVIDO COM A VOZ SENSUAL
‘-EU TE AMO. ME FAZ TUA MULHER, NOVAMENTE.’
ELE ALCANÇOU O QUARTO, E ANTES QUE PUDESSEM RETIRAR A COLCHA QUE COBRIA A CAMA ELE JÁ ESTAVA LEVANTANDO-LHE O VESTIDO, ENQUANTO AMANDA ARRANCAVA-LHE O PALETÓ E DESABOTOAVA SUAS CALÇAS. E, ENTÃO ELES FIZERAM AMOR, MEIO VESTIDOS, MEIO NÚS, EM CIMA DA CAMA AINDA COBERTA, COM A FOME DOS AMANTES QUE CONHECEM AS DORES DA SEPARAÇÃO. DAQUELES QUE POR SE CONHECEREM TEEM A NOÇÃO EXATA DO QUE ESTAVAM PERDENDO. DO GRAU DE SUAS SAUDADES. E QUANDO ELE GOZOU DENTRO DELA, ELES PERMANECERAM JUNTOS, ABRAÇADOS. SENTINDO A RESPIRAÇÃO SE ACALMAR POUCO A POUCO, AINDA PARCIALMENTE VESTIDOS, SEMI NÚS.
DEPOIS ELE SE LEVANTOU E PUXOU-A PARA SI, E COMEÇOU A DESABOTOAR SEU VESTIDO. O CREPE AZUL ESCORREGOU PARA SEUS PÉS E ELA FICOU COMPLETAMENTE NUA DIANTE DELE. ELA DESABOTOOU A CAMISA DE GUSTAVO, TIROU-LHE A GRAVATA E ELE TAMBÉM ESTAVA NÚ DIANTE DELA.
‘-VOCÊ É LINDA! LINDA! É A MULHER MAIS LINDA QUE EU JÁ CONHECI!’
AMANDA APROXIMOU-SE DA CAMA E RETIROU A COLCHA ESPONDO O LENÇOL DE CETIM, E GUSTAVO A CONDUZIU PARA O LEITO E COMEÇOU A BEIJAR-LHE O CORPO, ACARICIANDO SEUS SEIOS E ENCHENDO-A DE DESEJO NOVAMENTE. ELA CORRESPODEU AS SUAS CARÍCIAS COM SUSSURROS DE AMOR E ENLAÇOU-LHE A CINTURA COM AS PERNAS, E ENTÃO ELES FIZERAM AMOR NOVAMENTE. DESTA VEZ, LENTAMENTE. DEVAGAR, SABOREANDO CADA MOMENTO DE PRAZER, E ADORMECERAM ABRAÇADOS.
ERAM QUASE QUATRO HORAS DA MANHÃ QUANDO ELES ACORDARAM. AMANDA SENTOU-SE NA CAMA COM AS MÃOS ENVOLVENDO OS JOELHOS DOBRADOS SOBRE O COLCHÃO, COMPLETAMENTE NUA. SOMENTE O CORAÇÃO DE DIAMENATES ESTAVA PENDURADO NO PESCOÇO. GUSTAVO PERMANECEU ESTENDIDO DE COSTAS.
‘-ADORO FAZER AMOR COM VOCÊ!’ELE FALOU ENQUANTO CORRIA OS DEDOS PELAS SUAS COSTAS.
‘-EU TAMBÉM.’
‘-E EU, ONDE FICO?!’ ELE PERGUNTOU E COMEÇOU A RIR.
‘-NÃO ENTENDI.’ FALOU AMANDA MESMO SABENDO QUE ELE ESTAVA FAZENDO PIADA COM ELA.
‘-EU FALEI QUE ADORO FAZER AMOR COM VOCÊ, E VOCÊ RESPONDEU: “EU TAMBÉM”, CONCLUSÃO: ESTOU SOBRANDO NESTA HISTÓRIA.’
‘-PALHAÇO! VOCÊ SABE O QUE EU QUIS DIZER, EU TAMBÉM ADORO FAZER AMOR COM VOCÊ!’
‘-MAS ISTO É UM DESCARAMENTO, EU ACABO DE LHE PROPORCIONAR O MAIOR PRAZER E VOCÊ ME CHAMANDO DE PALHAÇO.’
MAS ELES JÁ ESTAVAM RINDO, E AMANDA ABRAÇOU-O E O BEIJOU.
‘-AMOR, NÓS PRECISAMOS CONVERSAR. TEMOS MUITAS COISAS PARA ESCLARECER.’ ELA FALOU AGORA COM TOM SÉRIO.
‘-É VERDADE. TEMOS SIM, MAS ANTES EU TENHO QUE COMER ALGUMA COISA OU ENTÃO VOU DESMAIAR. EU ESTOU LOUCO DE FOME. NO VOÔ NÃO CONSEGUI COMER DE TÃO NERVOSO QUE ESTAVA E NEM NO HOTEL. E DEPOIS VOCÊ QUASE ME MATOU DE TANTO ESFORÇO. EU ACHO QUE VOU DESMAIAR SE NÃO COMER ALGUMA COISA.’
‘-AH, É! EU QUASE TE MATEI, SACANA! MAS VOCÊ BEM QUE GOSTOU.’
‘-ADOREI, MAS MESMO ASSIM ESTOU MORTO DE FOME.SERÁ QUE TEM ALGUMA COISA NA DESPENSA?’
‘-NADINHA. QUANDO EU ME MUDEI EU LEVEI TUDO. SÓ DEVE TER MESMO AGUÁ, E DO FILTRO PORQUE A GELADEIRA COM CERTEZA ESTÁ ZERADA.’
‘-PUTIS, E AGORA? SAIR A ESTA HORA NEM PENSAR, E COM ESTAS ROUPAS, SÓ SE QUISERMOS SER PRESOS.’
‘-JÁ SEI, PODEMOS LIGAR PRO “TODA HORA”.’
‘-GENIAL, É POR ISTO QUE EU ADORO SER CASADO COM UMA MULHER INTELIGENTE.’ ELE RIU FAZENDO GRAÇA
‘-BOBO.’
‘-VOU LIGAR E FAZER O PEDIDO.’
‘-OK! EU VOU ARRUMAR UMA MESA PRA NÓS COMERMOS, TÁ’
‘-A DA VARANDA.’ GRITOU GUSTAVO ENQUANTO AMANDA JÁ SE AFASTAVA.
‘-ADORO OLHAR VOCÊ CAMINHAR ASSIM, COMPLETAMENTE NUA.’
AMANDA SOLTOU UMA GARGALHADA, ENQUANTO ABRIA A PORTA QUE DAVA PARA A VARANDA.
ERA UMA VARANDA AMPLA E COMO A CASA FICAVA NO ALTO ELES TINHAM UMA VISTA PRIVILEGIADA. PODIAM ADMIRAR ARVÓRES, FLORES E PASSÁROS A SUA FRENTE A BAÍA DE SANTA LUZIA SE ABRIA COMPLETAMENTE, E ELES TINHAM UM BOCADO DE PRIVACIDADE ALI.
DESDE O INÍCIO DO CASAMENTO GUSTAVO ADORAVA TOMAR O CAFÉ DA MANHÃ ALI, E MUITAS VEZES ELES SE SENTAVAM COMPLETMANTE NÚS, DEPOIS DE FAZEREM AMOR, NA VARANDA PARA TOMAR UM DRINK OU APENAS CONVERSAR. ELA ADORAVA CONVERSAR COM ELE, ERA INTELIGENTE E DIVERTIDO. ALGUMAS VEZES ELES COMEÇAVAM A CONVERSA NO INÍCIO DA NOITE E QUANDO SE DAVAM CONTA ERA ALTA MADRUGADA. INUMERAS VEZES ELA JÁ ADORMECERA COM A CABEÇA EM SEUS OMBROS, E MUITAS OUTRAS VEZES, GUSTAVO JÁ HÁ HAVIA LEVADO PARA CAMA NOS BRAÇOS, MEIO ADORMECIDA. ERA SEMPRE UMA GOSTOSURA PARTILHAR AQUELES MOMENTOS JUNTOS. RIREM, FALAREM BOBAGENS, FAZEREM PLANOS, SE TOCAREM OU SIMPLISMENTE FICAR SENTADOS, BEM JUNTINHOS, DE MÃOS DADAS APRECIANDO A NOITE.
ELA VOLTOU AO QUARTO QUANDO E ELE ESTAVA SENTADO NA CAMA, ACABARA DE FAZER O PEDIDO.
‘-PRONTO. PEDIDO FEITO.’
‘-O QUE VOCÊ ESCOLHEU?’ ELA PERGUNTOU CURIOSA.
‘-AH! CROISSANTS, PRESUNTO, QUEIJO, GELÉIA, MANTEIGA, ÁGUA MINERAL, SUCO DE LARANJA, MORANGOS, E... CHAMPANHE.’
‘-CHAMPANHE?!?’
‘-‘É, DON PERGION, AFINAL PRESCISAMOS BRINDAR.’
‘-HUM, ADORO VOCÊ SABIA?’
NÃO DEMOROU MUITO PARA ELES OUVIREM A CAMPAINHA DA PORTA. GUSTAVO SE ENROLOU NO LENÇOL E FOI ATENDER A PORTA, MAS LOGO VOLTOU COM UM SORRISO DIVERTIDO NOS LÁBIOS.
‘-SERÁ QUE VOCÊ TEM ALGUM DINHEIRO? É QUE EU SÓ TENHO DÓLARES NA CARTEIRA.’
AMANDA NÃO PODE DEIXAR DE RIR, ABRIU A BOLSA E TIROU DUAS NOTAS ENTREGANDO-AS A GUSTAVO. ELE DESPACHOU O ENTREGADOR COM UMA GENEROSA GORGETA E CHAMOU-A
‘-AMOR, VEM. TÁ UMA DELÍCIA.’
ELES ABRIRAM OS PACOTES E ARRUMARAM A MESA. POR SORTE HAVIA GELO NO CONGELADOR E AMANDA ENCHEU O BALDE DE PRATA COLOCANDO DENTRO A GARRAFA DE CHAMPANHE. ELES COMEÇARAM A COMER COM GRANDE APETITE, ESTAVAM FAMINTOS. DEPOIS QUE ESTAVAM PLENAMENTE SATISFEITOS, GUSTAVO ABRIU A GARRAFA DE CHAMPANHE E ELES BRINDARAM.
‘-A NÓS.’ELE FALOU
‘-A NÓS.’
MAS AMANDA ASSUMIU UM AR SÉRIO ENQUANTO SABOREAVA O CHAMPANHE. ELES PRESCISAVAM CONVERSAR. TINHAM MUITA COISA PARA COLOCAR EM ORDEM, PONTOS A SEREM ESCLARECIDOS ANTES DE RETOMAREM A SUA VIDA EM COMUM.
‘-GUSTAVO, PRESCISAMOS CONVERSAR.’
‘-EU SEI.’ ELE TAMBÉM ESTAVA SÉRIO.
‘-EU TE AMO. TE AMO DEMAIS, E NUNCA MAIS QUERO FICAR LONGE DE VOCÊ.’
‘-MEU AMOR EU TAMBÉM TE AMO. E TAMBÉM NÃO QUERO MAIS FICAR LONGE DE VOCÊ.’
‘-EU DETESTEI A EXPERIÊNCIA DE TE PERDER. E HOJE SEI MAIS DO QUE NUNCA QUE A MINHA VIDA NÃO FAZ SENTIDO SEM VOCÊ AO MEU LADO. É TUDO TÃO VAZIO, TÃO TRISTE, TÃO MORTO... AH! MEU AMOR EU O AMO!’
ELA ESTAVA LEMBRANDO DOS ÚLTIMOS CINCO MESE DE SUA VIDA. COMO HAVIAM SIDO SEM SENTIDO. NEM MESMO O PRAZER DA MEDICINA HÁ PREENCHIA, E ELA ERA APAIXONADA PELA SUA PROFISSÃO. MAS... SEM ELE NADA FAZIA SENTIDO, NADA TINHA IMPORTÂNCIA. ERA COMO SE ELA FOSSE APENAS UMA SOBREVIVENTE.
‘-GUSTAVO, EU SEI QUE VOCÊ TINHA RAZÃO NAQUELE DIA HORRÍVEL. A MAIOR PARTE DAS COISAS QUE VOCÊ ME DISSE ESTAVA CORRETA. EU FIU MESMO MUITO EGOISTA...’
‘-AH, NÃO! QUERIDA, EU ESTAVA TRANSTORNADO.’MAS AMANDA POUSOU OS DEDOS SOBRE OS LÁBIOS DELE.
‘-NÃO, VOCÊ ESTAVA CERTO. UMA RELAÇÃO ENVOLVE UM CASAL. DUAS PESSOAS, NÃO PODE SER UMA VIA UNILATERAL. EU NÃO POSSO QUERER TOMAR AS DECISÕES IMPORTANTES SEM VOCÊ. AS DECISÕES TÊM QUE SER TOMADAS EM CONJUNTO. NÓS DOIS SOMOS RESPONSÁVEIS POR ESTA RELAÇÃO. ME PERDOA! ME PERDOA, POR TUDO. EU QUERO RECOMEÇAR AO SEU LADO, E QUERO QUE VOCÊ PARTICIPE COMIGO. QUERO COMPARTILHAR COM VOCÊ A MINHA VIDA, DE VERDADE, INTEIRA, PLENA. EU TE AMO. ME PERDOA.’
GUSTAVO ABRAÇOU-A E ENTÃO OLHOU-A BEM DENTRO DOS OLHOS.
‘-AH MEU AMOR, MEU GRANDE E ÚNICO AMOR. NÃO HÁ O QUE SER PERDOADO. EU TAMBÉM ERREI. EU TAMBÉM TIVE A MINHA PARCELA DE CULPA. EU DEVIA TER MANIFESTADO A MINHA INSATISFAÇÃO E NÃO TER FICADO CALADO, PASSIVO, ACEITANDO TUDO. VOCÊ NÃO TINHA COMO SABER QUE EU ESTAVA INSATISFEITO, EU NÃO TE CONTAVA. UM RELACIONAMENTO COMO VOCÊ MESMA DISSE É UMA VIA DE MÃO DUPLA. MAS EU A VI PASSAR, E SIMPLISMENTE A SEGUI. NÃO FUI CAPAZ DE MOSTRAR-LHE QUE HAVIA OUTRO CAMINHO O QUAL EU GOSTARIA DE SEGUIR. ACHO QUE FALTOU DIALOGO.
ELA O ABRAÇO E ENXUGOU AS LÁGRIMAS DO ROSTO, ENQUANTO ELE PROSSEGUIA
‘-ENGRAÇADO, NÓS NOS CONHECEMOS TANTO, E ACHO QUE POR ISTO IMAGINAMOS QUE SABIAMOS TUDO. QUE NÃO ERAM NESCESSÁRIAS PALAVRAS. MAS ELAS SÃO FUNDAMENTAIS, ELAS SÃO MUITO IMPORTANTES COMUNICAM AO OUTRO OS NOSSOS SENTIMENTOS, NOSSAS DÚVIDAS, INCERTESAS. FOI O QUE EU NÃO FIZ. SE VOCÊ ERROU POR EXCESSO, EU O FIZ POR OMISSÃO. MEU AMOR, EU TAMBÉM TENHO QUE PEDIR PERDÃO.’
ELES SE ABRAÇARAM E PERMANECERAM JUNTOS, OS CORPOS UNIDOS, SENTIDO O CALOR UM DO OUTRO. ENTÃO AMANDA COMEÇOU A FALAR DESPREOCUPADAMENTE.
‘-SABE DE UMA COISA. EU ANDEI PENSANDO MUITO E CHEGUEI A CONCLUSÃO DE QUE QUERO UM FILHO, QUERO O SEU FILHO.’ E SORRIU PARA ELE.
GUSTAVO FICOU DESCONCERTADO, NÃO ESPERAVA POR AQUILO.
‘-COMO É QUE É?’
‘-É ISTO MESMO, EU QUERO TER UM BEBÊ.’
‘-MAS O QUE DEU EM VOCÊ, AMANDA? ACHO QUE VOCÊ É MALUCA? PORQUE ISTO AGORA?’
‘-POR NADA. ESTIVE PENSANDO, ALIÁS NESTES ÚLTIMOS CINCO MESES EU NÃO FIZ OUTRA COISA. E CHEGUEI A CONCLUSÃO DE QUE EU TINHA MEDO DE TER FILHOS.’
‘-MEDO?’
‘-É, SIM. EU TINHA MEDO DE NÃO SER UMA BOA MÃE, DE NÃO SER TÃO COMPETENTE COMO SOU NA MINHA PROFISSÃO. MEDO DE NÃO CORRESPONDER AS SUAS EXPECTATIVAS, PORQUE VOCE VAI SER UM PAI MARAVILHOSO.’
‘-GAROTA, VOCÊ É PATETA! É CLARO QUE VOCÊ VAI SER UMA SUPER MÃE, E, EU TE AMO. TE AMO DE QUALQUER JEITO. MESMO QUE NUNCA TENHAMOS UM FILHO.’
‘-MAS EU QUERO! EU QUERO TER O SEU BEBÊ.’
ENTÃO COMO ELE JÁ FIZERA INUMERAS VEZES, TOMOU-A NOS BRAÇOS E LEVOU-A PARA CAMA ONDE ELES SE AMARAM MAIS UMA VEZ.
QUANDO ELA ACORDOU COM UM ENORME SORRISO DE PRAZER NO ROSTO ELE JÁ ESTAVA DESPERTO E SENTADO AO SEU LADO. ELA OLHOU-O BEM DENTRO DOS OLHOS E FALOU
‘-EI, MOCINHO. AQUELA PROPOSTA DE CASAMENTO AINDA ESTÁ DE PÉ?’
ELE ACHOU QUE ESTIVESSE SONHANDO. O QUE ERA AQUILO?!, PRIMEIRO O FILHO E DEPOIS O CASAMENTO. ESTAVA PERDIDO EM SEUS PENSAMENTOS QUANDO ELA O CHAMOU
‘-EI, O QUE É ISTO AGORA, DEPOIS DE TUDO QUE VOCÊ FEZ COMIGO ESTÁ NOITE, NÃO SEJA CANALHA. TRATE DE FAZER DE MIM UMA MULHER DECENTE.’E ELA COMEÇOU A RIR DA CARA DE ESPANTO QUE ELE FAZIA.
‘-MENINA, VOCÊ É COMPLETMAMENTE LOUCA, É CLARO QUE A PROPOSTA ESTÁ DE PÉ. SEMPRE ESTEVE. QUER CASAR COMIGO?
‘-É A COISA QUE EU MAIS QUERO EM TODA VIDA.’
AMANDA CHEGOU DO HOSPITAL QUASE SETE HORAS DA NOITE. GUSTAVO ESTAVA SENTADO NA VARANDA CONCENTRADO LENDO UM PEDAÇO DE PAPEL.
‘-OI, BOA NOITE!’ ELA O CUMPRIMENTOU ABRAÇANDO-O E VIRANDO-LHE O ROSTO PARA BEIJAR-LHE A BOCA.
‘-OI!’
‘-O QUE VOCÊ ESTÁ LENDO?’
‘-A SUA CARTA, AQUELA QUE VOLTOU.’
‘-AH, A CARTA.’
E AMANDA SE RECORDOU DA NOITE EM QUE DECIDIRA SEU FUTURO.
‘-EI, TIVE UMA IDÉIA GENIAL. VOCÊ AINDA TEM AQUELES DIAS DE FOLGA QUE MENCIONOU AQUI?’
‘-CLARO! EU IRIA VIAJAR NO FIM DA SEMANA.’AMANDA ESTAVA INTRIGADA, O QUE ELE ESTARIA PLANEJANDO?
‘-EI MOÇA, SENTE-SE AQUI.’ELE FALOU ENQUANTO PUXAVA-A PARA O SEU COLO. ‘-UAU! ACHO QUE VOCÊ JÁ ENGORDOU UM POUQUINHO.’
‘-BABACA. ISTO NÃO É ALGO QUE SE DIGA A UMA MULHER QUE ACABOU DE CHEGAR DO TRABALHO.’ELA FALOU ENLAÇANDO-LHE O PESCOÇO E DANDO-LHE UMA BITOCA.
‘-QUE TAL SE NÓS FOSSEMOS A PARIS, PARA NOSSA LUA-DE-MEL?’
‘-PARIS, HUM!!! ADOREI A IDÉIA.DEMAIS.’
‘-APROVADO?’
‘-TOTALMENTE, SABE QUE VOCÊ É UM BABACA MUITO INTELIGENTE?’
‘-AH! É CLARO QUE SOU! PORQUE É QUE VOCÊ ACHA QUE EU INSISTI EM ME CASAR COM VOCÊ?’
‘-AGORA VOCÊ ME PEGOU, PORQUE?’
‘-PRA ME GARANTIR. SE MINHA CARREIRA DE DIRETOR FRACASSAR, EU SEI QUE NÃO VOU MORRER DE FOME, AFINAL MINHA MULHER É UMA MÉDICA DE SUCESSO.’
‘-E QUEM GARANTE QUE EU VOU QUERER SUSTENTÁ-LO?’
‘-EU.’
‘-AH, É? PORQUE TODA ESTA CERTEZA?’
‘-MUITO FÁCIL, VOCÊ NÃO VAI ACHAR NINGUÉM COM O MEU CHARME E QUE SATISFAÇA TODAS AS SUAS FANTASIAS SEXUAIS.’
‘-COMO É QUE É? VOCÊ VAI TROCAR SEXO POR COMIDA? AFINAL QUEM É VOCÊ? UM GIGOLÔ?’
‘-É ISTO AÍ, BELEZINHA. SOU SEU GIGOLÔ PARTICULAR, E VOCÊ BEM QUE GOSTA.’
‘-EU ADORO! E POR SEUS SERVIÇOS DOU TUDO, CASA, COMIDA E ROUPA LAVADA.’
ELES COMEÇARAM A RIR DA BRINCADEIRA.
‘-MAS FALANDO SÉRIO, QUE TAL PARIS?’
‘-APROVADO MEU AMOR. VOU ADORAR REVER PARIS AO SEU LADO.’
‘-ENTÃO VOU FAZER OS PREPARATIVOS, OK!’
‘-DEIXO TUDO POR SUA CONTA.’
‘-QUANDO É QUE NÓS PODEMOS VIAJAR?’
‘-ME DÊ UMA SEMANA. PROGRAME O EMBARQUE PARA A PRÓXIMA QUARTA-FEIRA, EU VOU AJEITAR AS COISAS E VER SE CONSIGO MAIS ALGUNS DIAS. COM SORTE PODEREMOS FICAR LÁ POR DUAS SEMANAS.’
AMANDA SAIU DO GABINETE DO Prof. CARLOS HENRIQUE RADIANTE. ELA CONSEGUIRA O QUE QUERIA.
HÁ UM ANO ELA JÁ NÃO DAVA MAIS PLANTÃO NO HOSPITAL DE CLÍNICAS, E NAQUELA MANHÃ JÁ HAVIA ACERTADO TUDO NO CENTRO MUNICIPAL, IRIA CUMPRIR O AVISO PRÉVIO QUANDO VOLTASSE DE VIAGEM E ENTÃO NÃO TRABALHARIA MAIS ALI. SUAS MANHÃS AGORA SERIAM DEDICADAS A FAZER A ROTINA DO SERVIÇO DE EMERGÊNCIA CARDIOLÓGICA DO HOSPITAL UNIVERSITÁRIO.CONTINUARIA A DAR AULAS NA FACULDADE E A TRABALHAR NA CLÍNICA DE HIPERTENSÃO, POIS ESTE ERA SEU PROJETO PESSOAL. NÃO TRABALHARIA MAIS NO ECO, COMO MÉTODO COMPLEMENTAR HAVIA ESCOLHIDO O TESTE ERGOMÉTRICO, AS TARDES DE TERÇA E QUINTA ELA AGORA DEDICARIA AO SEU CONSULTÓRIO PARTICULAR.
QUANDO RECEBERA HÁ QUATRO MESES O PRÊMIO DE REVELAÇÃO MÉDICA PELO SEU PROJETO DO AMBULATÓRIO DE HIPERTENSÃO, AMANDA NÃO TEVE DÚVIDAS EM COMO IRIA EMPREGAR O DINHEIRO. CONVERSOU COM REBECA E ELAS COMEÇARAM AS OBRAS DO CONSULTÓRIO QUE SEMPRE SONHARAM. AINDA IRIA DEMORAR ALGUNS MESES ATÉ TUDO ESTAR PRONTO, E ATÉ LÁ ELA AINDA CONTINUARIA NO ECO, MAS O PROJETO JÁ ESTAVA GANHANDO FORMA. E QUANDO ELA PASSAVA NO LOCAL PARA INSPECIONAR AS OBRAS FICAVA CHEIA DE VIDA. ERA COMO UM FILHO, ASSIM COMO O AMBULATÓRIO DE HIPERTENSÃO. ERA MAIS UM FILHO.
E FOI ESTA SENSAÇÃO DE MATERNIDADE QUE A FEZ DECIDIR PELA MUDANÇA. ELA JÁ NÃO ERA MAIS TÃO JOVEM, SE QUISESSE DAR UM FILHO AO HOMEM QUE AMAVA TERIA QUE SER AGORA, E ELA QUERIA. NÃO SÓ DAR UM FILHO A ELE, QUERIA UM FILHO DELE. FICOU IMAGINANDO COMO SERIA SENTIR AQUELA VIDA CRESCENDO DENTRO DE SI. TENTANDO ADIVINHAR COMO SERIA SUA CARINHA, GOSTARIA QUE FOSSE UM MENINO COM OS OLHOS VERDES COMO OS DE GUSTAVO.
FOI POR ISTO QUE PROCUROU O Prof. CARLOS HENRIQUE, QUERIA DEIXAR OS PLANTÕES DA EMERGÊNCIA. SE QUISESSE TER UM FILHO TERIA QUE REFORMULAR SEUS HORÁRIOS, DIMINUIR A CARGA DE TRABALHO. A PRINCÍPIO ELE NÃO GOSTARA DA IDÉIA, AMANDA ERA UMA PROFISSIONAL DE ALTO GABARITO E PERDER A SUA LIDERANÇA NA EMERGÊNCIA CARDIOLÓGICA NÃO LHE AGRADAVA.MAS ELA ESTAVA DECIDIDA. HÁ SEIS ANOS ELA ERA PLANTONISTA DO SERVIÇO, ESTAVA CANSADA DE PASSAR AS NOITES DE TERÇA E SEXTA FORA DE CASA, E SABIA QUE SE NÃO DIMINUISSE A CARGA DE TRABALHO NÃO DARIA CONTA. ELA NÃO ADMITIA SE AFASTAR DO AMBULATÓRIO DE HIPERTENSÃO, E NEM PODIA. ERA A CHEFE DO SERVIÇO E ERA O SEU SUSTENTÁCULO, COM SEU ENTUSIASMO QUE CONTAGIAVA OS MÉDICOS, RESIDENTES E ALUNOS.
CARLOS HENRIQUE NÃO TEVE ESCOLHA, FOI OBRIGADO A CEDER. AMANDA JÁ TINHA OS SEUS SUBSTITUTOS, DOIS RESIDENTES QUE ESTAVAM TERMINADO O R3 EM CARDIOLOGIA E QUE ERAM DE ALTÍSSIMO PADRÃO. ELA SABIA QUE ELES ESTAVAM PRONTOS, AMBOS JÁ HAVIAM ESTAGIADO NA EMERGÊNCIA SOB A SUPERVISÃO DA PRÓPRIA AMANDA QUE SE ENTUSIASMARA COM A COMPETÊNCIA E DEDICAÇÃO DELES. QUANDO ELA FEZ-LHE A PROPOSTA OS DOIS FICARAM RADIANTES, ERA TUDO O QUE ELES QUERIAM. AMANDA SÓ PRESCISAVA DO AVAL DO Prof. CARLOS HENRIQUE, MAS NÃO TINHA DÚVIDAS, ELES ERAM OS INDICADOS DO ANO PARA INTEGRAR O STAFF PERMANENTE DO HOSPITAL.
QUANDO FINALMENTE ACERTARAM A MUDANÇA DE HORÁRIOS E ATRIBUIÇÕES DE AMANDA E CARLOS HENRIQUE ACHOU QUE PODERIA BATER UM PAPO AMENO COM A SUA AMIGA ELA LHE BOMBARDEOU COM MAIS UM PEDIDO. PRESCISAVA DE FÉRIAS. JÁ TINHA ARRANJADO TUDO, OS SUBISTITUTOS SERIAM OS PRÓPRIOS RESIDENTES QUE IRIAM ASSUMIR OS PLANTÕES QUANDO ELA SAÍSSE, SERIA UMA FORMA DE TEREM CERTEZA, O TESTE FINAL DA CAPACIDADE DELES. O AMBULATÓRIO FICARIA SOB A SUPERVISÃO DO Dr. FELIPE, E A AGENDA DO CIC JÁ ESTAVA FECHADA. MAIS UMA VEZ CARLOS HENRIQUE NÃO PODE NEGAR O PEDIDO. REALMENTE AMANDA TRABALHAVA MUITO E ELA REALMENTE MERECIA.
DEPOIS DE ACERTAR TUDO ELA DEIXOU O HOSPITAL NO SEU TIGRA VERMELHO E FOI PARA CASA.
NA QUARTA-FEIRA ELES ESTAVAM COM TUDO PRONTO E AGUARDAVAM NO AEROPORTO O VOÔ PARA PARIS.
‘-EU TENHO ALGO PARA LHE CONTAR.’
‘-ESTOU OUVINDO.’
‘-O QUE VOCÊ ACHA SE EU DISSER QUE QUANDO VOLTARMOS DE VIAGEM EU NÃO VOU MAIS DAR PLANTÃO NA EMERGÊNCIA?’
‘-NÃO VAI MAIS DAR PLANTÃO? COMO ASSIM?’
‘-É ISTO QUE VOCÊ OUVIU, EU ME DEMITI ONTEM.’
‘-SE DEMITIU? MAS... AMANDA, PORQUE? VOCÊ GOSTAVA TANTO? SERÁ QUE NÃO VAI SENTIR FALTA?’ GUSTAVO PERGUNTAVA ATONITO.
‘-COM CERTEZA VOU SENTIR FALTA, MAS VOU PRESCISAR DE MAIS TEMPO DISPONÍVEL, POIS DIZEM QUE OS BEBÊS SÃO LINDOS MAS DÃO MUITO TRABALHO.’ ELA FALOU FINGINDO DESPREOCUPAÇÃO.
‘-O QUE?!?’ GUSTAVO NÃO ESTAVA ACREDITANDO NO QUE OUVIA.
‘-VOCÊ OUVIU O QUE EU DISSE MUITO BEM.’E ELA O ENCAROU SORRINDO.
‘-OUVI, MAS... ACHO QUE ESTOU SONHANDO. ISTO QUER DIZER QUE... VOCÊ...’
E ELE COMEÇOU A SORRIR FEITO UMA CRIANÇONA GRANDE.
‘-É ISTO MESMO, EU ESTOU GRÁVIDA. NÓS VAMOS TER UM BEBÊ!’
ELES SE ABRAÇARAM E ELE A BEIJAVA CHEIO DE CARINHO,QUANDO SOOU A VOZ NO SAGUÃO DO AEROPORTO.
‘-PASSAGEIROS COM DESTINO A PARIS NO VOÔ 331 DA FRANCES AIRLINES, QUEIRAM EMBARCAR NO PORTÃO D.’
FIM
TOMOU BANHO E RELAXOU ESTIRADO NA CAMA ENQUANTO AGUARDAVA A ROUPA QUE TINHA MANDADO PASSAR. NÃO FOI DIFÍCIL ESCOLHER O QUE USAR. O MESMO BLASER MARROM, AS MESMAS CALÇAS, E CAMISA. A GRAVATA ELE NÃO TEVE DÚVIDAS, ESCOLHEU A VERMELHA QUE AMANDA HAVIA LHE DADO NA NOITE EM QUE FIZERAM AMOR PELA PRIMEIRA VEZ, AO COMPLETAREM DOIS MESES DE NAMORO.
ESTAVA TOMANDO UMA DOSE DE WISK, TENTANDO NÃO TREMER E PROCURANDO SE ACALMAR, MAS ESTAVA DIFÍCIL. SERÁ QUE ELA AINDA O AMAVA? JÁ HAVIAM SE PASSADO QUASE CINCO MESES DESDE QUE ELE PARTIRA PARA LOS ANGELES. E ELES NEM HAVIAM SE DESPEDIDO. UMA BRIGA, NENHUM ADEUS, E ELE TINHA IDO EMBORA. NÃO HAVIAM SE COMUNICADO DESDE ENTÃO.
E NA VERDADE HÁ PELO MENOS DOIS MESES NÃO TINHA QUALQUER NOTÍCIA, MESMO POR CARTA OU TELEFONE DOS AMIGOS EM COMUM. E SE ELA JÁ ESTIVESSE COM OUTRO? CINCO MESES... ELA ERA UMA MULHER ATRAENTE... LINDA... MARAVILHOSA... COM CERTEZA NÃO TERIA DEIXADO DE TER PRETENDENTES, MAS... NÃO IMPORTAVA, ELE PRECISAVA VÊ-LA. MESMO QUE FOSSE PRA DIZER ADEUS... AINDA ASSIM PRECISAVA VÊ-LA, OU ENTÃO NÃO PODERIA SEGUIR SEU CAMINHO... CAMINHO... QUE CAMINHO, O ÚNICO CAMINHO QUE LHE INTERESSAVA ERA O QUE O LEVARIA AO CORAÇÃO DELA. AMANDA... COMO EU A AMO! COMO SINTO A SUA FALTA... DO SEU CHEIRO, DO SEU RISO, DE SUA VOZ... DE FAZER AMOR COM VOCÊ...
ESTAVA PERDIDO EM PENSAMENTOS QUANDO OUVIU A CAMPAINHA.
‘-SERVIÇO DE QUARTO. SUAS ROUPAS, SENHOR.’
GUSTAVO OLHOU PARA O RELÓGIO, NÃO HAVIA DÚVIDAS CHEGARIA ATRAZADO. VESTIU-SE COM CALMA, AJEITOU A GRAVATA, TOMOU O RESTINHO DO WISK E PEGOU O TELEFONE
‘-POR FAVOR, PODERIA ME CHAMAR UM TAXI?’
‘-POIS NÃO, SENHOR.’
QUANDO ELE DESCEU ESTAVA INCRIVELMENTE BONITO. HAVIA FEITO A BARBA, MAS DEIXARA O BIGODE QUE ELE SABIA QUE AMANDA ADORAVA. COLOCARA TAMBÉM O PERFUME QUE ELA MAIS GOSTAVA. ESTAVA ANSIOSO, MAS JÁ NÃO TREMIA MAIS. O TAXI CHEGOU EM DEZ MINUTOS.
‘-IGREJA MATRIZ, POR FAVOR.’
ELE CHEGOU QUASE UMA HORA APÓS O INICIO DA CRIMÔNIA. A IGREJA ESTAVA COMPLETAMENTE LOTADA, NÃO HAVIA NENHUM LUGAR PARA SE SENTAR E MESMO NO FINAL DO SALÃO E NAS LATERAIS HAVIA PESSOAS EM PÉ. GUSTAVO PERMANECEU NO FUNDO DA IGREJA, NÃO QUERIA CHAMAR ATENÇÃO. PROCURAVA ANSIOSO POR AMANDA E NÃO DEMOROU MUITO A VÊ-LA, NO ALTAR, JUNTAMENTE COM OS OUTROS CASAIS QUE IRIAM APADRINHAR OS NOIVOS. ELA ESTAVA LINDA! A VISÃO DE AMANDA FEZ SUBIR-LHE UM CALOR PELO CORPO. COMO ELA ESTAVA LINDA! O VESTIDO AZUL MOLDAVA PERFEITAMENTE O BELO CORPO, ELA FICAVA LINDA DE AZUL. OS CABELOS ESTAVAM PRESOS O QUE REALÇAVA O SEU PERFIL, E ELA TINHA UM SORRISO NO ROSTO.
ELE ADORAVA AQUELE SORRISO. QUEM SERIA AQUELE QUE A ACOMPANHAVA? ERA UM BELO HOMEM, AO SEU LADO, DE FRAQUE, ELEGANTE. GUSTAVO NÃO CONSEGUIA TER UMA VISÃO COMPLETA DA CENA, E UMA PONTINHA DE CIÚMES COMEÇOU A MARTELAR-LHE A CABEÇA. CINCO MESES, ELA ERA UMA MULHER FABULOSA, SERIA ESPANTOSO SE NÃO TIVESSE ENCONTRADO ALGUÉM. ELE OS OLHOU NOVAMENTE, O HOMEM APROXIMOU A CABEÇA E SUSSUROU ALGUMA COISA NO OUVIDO DELA QUE SORRIU, E ENTÃO GUSTAVO O VIU MEIO DE COSTAS, MAS... SERIA POSSÍVEL? ELE..., ELE... ESTAVA COM OS CABELOS PRESOS NUM RABO DE CAVALO? ELA NUNCA GOSTARA DE HOMENS COM CABELO CUMPRIDO!?!
ELE RIU COM UM FIO DE AMARGURA, QUEM ELE ESTAVA PENSANDO QUE ERA? AS PESSOAS MUDAM, AMANDA PODERIA TER MUDADO. E ENTÃO O PADRE ESTAVA PRONUNCIANDO AS PALVRAS FINAIS DA CERIMONIA.
‘-EU OS DECLARO MARIDO E MULHER.’
QUANDO ANDRÉ E REBECA SE BEIJARAM, GUSTAVO SORRIU E SENTIU-SE FELIZ PELOS AMIGOS, MAS TAMBÉM SENTIU-SE TRISTE E AMARGURADO PELA SUA SITUAÇÃO. OS NOIVOS E OS PADRINHOS PROCEDERAM A BUROCRACIA DE ASSINAR OS AUTOS DA CERIMONIA.
‘-OS NOIVOS RECEBERÃO OS CONVIDADOS NO CLUBE HÍPICO, ONDE CONVIDAM A TODOS PARA CELEBRAR O ACONTECIMENTO.’
E ENTÃO SE PREPARARAM PARA A PROCISSÃO DE SAÍDA. OS RECÉM-CASADOS A FRENTE, OS PADRINHOS EM FILA INDIANA. GUSTAVO RECUOU E FOI OCULTADO PELOS CONVIDADOS QUE QUERIAM VER OS NOIVOS, MAS MESMO ASSIM ELE PODE VÊ-LA, LINDA, SORRIDENTE, E... DE MAÕS DADAS COM O SEU PAR, PARECIAM FELIZES. PARECIAM MUITO FELIZES.ELE DEIXOU-SE FICAR MAIS UM POUCO NA IGREJA.
UMA FILA DE CONVIDADOS SE FORMOU NA ENTRADA DO SALÃO PARA CUMPRIMENTAR OS NOIVOS E DEPOIS ENTAR PARA A FESTA. FOI SÓ QUANDO QUASE TODOS JÁ TINHAM ENTRADO QUE GUSTAVO SE DIRIGIU PARA LÁ.
‘-GUSTAVO! EU NÃO ACREDITO!’ EXCLAMOU RADIANTE REBECA.
‘-GUSTAVO! VOCÊ! MAS... QUANDO VOCÊ CHEGOU?’PERGUNTOU ANDRÉ, IGUALMENTE EXULTANTE.
‘-HÁ POUCO MAIS DE UMA HORA. EU... ACABEI CHEGANDO ATRAZADO, MAS PEGUEI A PARTE MAIS IMPORTANTE... O BEIJO DOS APAIXONADOS.’
ANDRÉ E REBECA RIRAM JUNTOS, ENQUANTO ABRAÇAVAM O AMIGO.
‘-ESPERO QUE VOCÊS SEJAM MUITO FELIZES, VOCÊS MERECEM, E EU... AH! EU ADORO VOCÊS.’
‘-EU TAMBÉM TE ADORO.’FALOU REBECA ENQUANTO ENLAÇAVA-LHE O PESCOÇO E BEIJAVA-LHE NO ROSTO.
‘-ORA,ORA. EU NÃO TENHO CULPA, ELA É QUE ESTÁ ME AGARRANDO, VOCÊ ESTÁ DE PROVA.’FALOU ELE ENQUANTO SOLTAVA UMA GARGALHADA.
‘-ORA, IDIOTA!’FALOU REBECA E ELA E ANDRÉ RIRAM JUNTOS.
‘-VOCÊ TINHA QUE ESTAR LÁ NO ALTAR, COMO NOSSO PADRINHO. AFINAL, VOCÊ TAMBÉM TEM “CULPA” NESTE CASAMENTO.’ANDRÉ RIA ENQUANTO FALAVA.
‘-BOBAGEM. POSSO NÃO SER PADRINHO OFICIALMENTE, MAS SE VOCÊS PENSAM QUE VÃO FICAR LIVRES DE MIM PODEM ESQUECER. ESTOU DE OLHO EM VOCÊS.’
‘-VOCÊ JÁ VIU TODO MUNDO?... JÁ VIU A... AMANDA?’
ELE FICOU SÉRIO, MAS LOGO UM ENORME SORRISO SE ABRIU E SEUS OLHOS BRILHARAM QUANDO ELE RESPONDEU
‘-NÃO... EU QUIS CUMPRIMENTÁ-LOS PRIMEIRO. E... VI A AMANDA, NO ALTAR...., ELA... ESTAVA LINDA... LINDA!’
REBECA VIU TODA A TERNURA E TODA PAIXÃO EXPRESSAS NAQUELES OLHOS VERDES, E FITOU SIGNIFICATIVAMENTE ANDRÉ.
‘-VOCÊ PRECISA FALAR COM ELA, A AMANDA VAI ADORAR REVÊ-LO’ ELE CAPTOU A MENSAGEM DA ESPOSA E COMPLETOU O CERCO.
‘-É... PODE SER... AMIGOS, FELICIDADES. VOCÊS MERECEM TUDO.’
ELE ABRAÇOU-OS E ENTROU NO SALÃO.
‘-VOCÊ ENTENDEU?’
‘-NADINHA. “PODE SER...” O QUE ELE QUIS DIZER COM ISTO?’ REBECA TINHA UM OLHAR DE INTERROGAÇÃO PARA ANDRÉ, E ENTÃO ELE A FITOU COMO SE TIVESSE FEITO A DESCOBERTA DO SÉCULO.
‘-REBECA. SERÁ. ELE HÁ VIU NO ALTAR... AO LADO DO JEAN... SERÁ?’
‘-NÃO É POSSÍVEL? ELE CONHECE O JEAN!’
‘-CONHECE MESMO? QUANTAS VEZES ELE JÁ O VIU?’
REBECA COMEÇOU A ENTENDER, TALVEZ ELE ESTIVESSE PENSANDO QUE AMANDA JÁ ESTAVA SAINDO COM OUTRO. OH! DEUS, MAS E SE ELE NÃO FOSSE FALAR COM ELA?
‘-VOCÊ TEM RAZÃO. ACHO QUE ELE REALMENTE NUNCA O VIU. CONHECE A HISTÓRIA DO JEAN, É CLARO QUE A AMANDA LHE CONTOU, MAS ACHO QUE NUNCA FORAM APRESENTADOS.’
‘-FIQUE TRANQUILA.VAMOS AGUARDAR OS ACONTECIMENTOS, SE FOR PRECISO, NÓS SEREMOS OS CUPIDOS DESTA VEZ.’
REBECA CONCORDOU COM ANDRÉ. ABRAÇOU-O E BEIJOU-LHE ENQUANTO ELES ERAM ABORDADOS PELOS ÚLTIMOS CONVIDADOS.
‘-GUSTAVO!’MAJÚ EXCLAMOU ALTO QUANDO VIU O AMIGO ENTRANDO NO SALÃO E CORREU AO SEU ENCONTRO ENVOLVENDO-LHE O PESCOÇO PARA UM ABRAÇO AFETUOSO.
‘-OLÁ SUMIDO!’ ARTHUR SE APROXIMOU PARA ABRAÇÁ-LO TAMBÉM.
AMANDA ESTAVA NO LADO OPOSTO DO SALÃO, DE COSTAS PARA A ENTRADA, SOZINHA COM UMA TAÇA DE CHAMPANHE NAS MÃOS E OUVIU QUANDO MAJÚ COMEMOROU A CHEGADA SURPRESA DO AMIGO. VIROU-SE RAPIDAMENTE E OS VIU ABRAÇADOS, ELA PENDURANDO-SE NO PESCOÇO DELE E ENCHENDO-O DE BEIJINHOS AFETUOSOS ENQUANTO ARTHUR TAMBÉM SE APROXIMAVA PARA CUMPRIMENTÁ-LO.
ELA ACHOU QUE NÃO IRIA SUPORTAR. UM TURBILHÃO DE EMOÇÕES INVADIU A SUA MENTE. A FELICIDADE IMENSA EM REVÊ-LO, SAUDADE DO SEU TOQUE E TODAS AS SENSAÇÕES QUE ELE LHE PROVOCAVA, MAS TAMBÉM UM MEDO SÚBITO DE QUE GUSTAVO NÃO HÁ QUISESSE MAIS. E SE ELE TIVESSE VINDO SÓ PRA DIZER ADEUS...
SEU CORAÇÃO COMEÇOU A BATER MAIS FORTE, COMPLETAMENTE DESCOMPASSADO, PARECIA QUE IRIA SALTAR PARA FORA DO SEU PEITO, SUAS MÃOS COMEÇARAM A TREMER, OS OLHOS SE ENCHERAM DE LÁGRIMAS, MAS ELA SE FORÇOU A CONTÊ-LAS.
‘-QUANDO VOCÊ CHEGOU?’ PERGUNTOU MAJÚ AINDA DEPENDURADA NO PESCOÇO DE GUSTAVO.
‘-HÁ ALGUMAS HORAS. QUASE PERDI O CASAMENTO.’ GUSTAVO RESPONDEU, MAS NÃO ESTAVA PRESTANDO ATENÇÃO NO QUE OS AMIGOS FALAVAM. ESTAVA AFLITO, PROCURANDO POR SOBRE AS CABEÇAS NO SALÃO. ONDE ELA ESTÁ? PRECISO ENCONTRÁ-LA ANTES QUE ALGUÉM MAIS SE APROXIME.
MAJÚ PERCEBEU A INQUIETAÇÃO DO AMIGO E PROCUROU AFASTAR ARTHUR QUANDO ELE IRIA INICIAR AQUELE PAPO TÍPICO DE RETORNO DE VIAGEM...
‘-COMO FOI...’
‘-ARTHUR, VEM.’
‘-PERAÍ, EU QUERO CONVERSAR COM O GUSTAVO, PÔ?’
‘-DEPOIS, VEM.’ E MAJÚ ARRASTOU O NAMORADO QUE NÃO TEVE ALTERNATIVA SENÃO SEGUI-LA.
‘-O QUE DEU EM VOCÊ? EU QUERO CONVERSAR COM ELE.’
MAJÚ SUSSUROU-LHE AO OUVIDO.
‘-PUTA QUE PARIU! VOCÊ NÃO PERCEBEU?’
‘-PERCEBEU O QUE?’ PERGUNTOU ARTHUR SEM ENTENDER.
‘-ELE ESTÁ PROCURANDO...’
MAS ANTES QUE ELA TERMINASSE A FRASE ELE HAVIA COMPLETADO
‘-A AMANDA, É CLARO! QUE IDIOTA QUE EU SOU.’
E ENTÃO ELE A VIU. DO OUTRO LADO DO SALÃO. SOZINHA, COM UMA TAÇA DE CHAMPANHE NAS MÃOS. ELA ESTAVA LINDA! MAS DE REPENTE FOI COMO SE ELE TIVESSE FICADO PARALIZADO, COMPLETAMENTE PARALIZADO. SEUS MÚSCULOS NÃO CORRESPONDIAM AS SUAS ORDENS. ELE TINHA VINDO DE TÃO LONGE SÓ PARA REVÊ-LA, E ELA ESTAVA ALI, ALGUNS METROS A SUA FRENTE E ELE NÃO CONSEGUIA MOVER UM MÚSCULO SEQUER. ERA RIDÍCULO!
E ELA TAMBÉM O VIU, E ESTAVA IGUALMENTE PARALIZADA. FEITO UMA ESTÁTUA A SUA FRENTE. SUAS MÃOS TREMIAM TANTO QUE ELA TEMEU DEIXAR CAIR A TAÇA DE CHAMPANHE. ENTÃO ELA COMEÇOU A SORRIR, O SEU SORRISO MAIS LINDO, QUE ELE ADORAVA. E FOI COMO SE ELA TIVESSE LHE DADO A SENHA, LIGADO O INTERRUPTOR, ELE COMEÇOU A SE MOVER NA DIREÇÃO DELA, CONTROLANDO OS PASSOS PARA NÃO CORRER.
‘-OI! BOA NOITE!’ ELE FALOU PRIMEIRO, COM UM SORRISO ENCANTADOR QUE LHE AQUECEU A ALMA.
‘-OI!’
E ELES PERMANECERAM CALADOS. OLHANDO-SE MUTUAMENTE E SORRINDO UM PARA O OUTRO. COMO SE ACHASSEM QUE ESTAVAM SONHANDO. GUSTAVO SENTIA AS PERNAS BAMBAS, E ERA COM ENORME FORÇA QUE CONTINHA AS LÁGRIMAS. AMANDA CONTINUAVA A SENTIR AS MÃOS TREMEREM E SEU CORAÇÃO BATIA TÃO FORTE QUE ELA TEVE RECFEIO DE QUE TODOS NA FESTA PUDESSEM OUVI-LO. JÁ TINHAM VENCIDO A DISTÂNCIA QUE OS SEPARAVA E ESTAVAM ALI, UM DIANTE DO OUTRO, MAS NÃO CONSEGUIAM DIZER NADA. SÓ SE OLHAVAM E SORRIAM.
‘-VOCÊ ESTÁ LINDA!’
‘-VOCÊ TAMBÉM ESTÁ LINDO, ALIÁS, ADOREI A SUA GRAVATA.’AMANDA RESPONDEU RINDO E FAZENDO TROÇA COM ELE.
‘-É, EU TAMBÉM A ADORO.’ E ELE TAMBÉM ESTAVA RINDO.
CÉUS! COMO SENTIRA FALTA DO SEU SENSO DE HUMOR! DAQUELE SORRISO...
MAIS UMA VEZ FICARAM MUDOS, OLHANDO-SE MUTUAMENTE E SORRINDO, E DESTA VEZ FOI AMANDA QUE TOMOU A INICIATIVA DA CONVERSA.
‘-QUANDO VOCÊ CHEGOU?’
‘-HÁ ALGUMAS HORAS. VIM QUASE DIRETAMENTE DO AEROPORTO PARA O CASAMENTO.’
‘-E... A SUA BAGAGEM?’QUANDO TERMINOU A FRASE ELA SE DEU CONTA DE QUE NÃO SABIA SE ELE ESTAVA DE VOLTA, NÃO DEFINITIVAMENTE. TALVEZ TIVESSE VINDO APENAS PARA O CASAMENTO E SE APROXIMARA PARA CUMPRIMENTÁ-LA, OU SERÁ QUE ELE ESTAVA REALMENTE DE VOLTA? ELA PRESCISAVA SABER. TINHA QUE FAZER A PERGUNTA, MAS TINHA MEDO DA RESPOSTA.
‘-EU ESTOU NO PALACE HOTEL. EU... SÓ DECIDI VOLTAR HÁ QUATRO DIAS, E... NÃO TIVE COMO ME COMUNICAR... NÃO SABIA SE VOCÊ...’ ELE NÃO TERMINOU A FRASE. TINHA MEDO DO QUE IRIA OUVIR. LEMBROU-SE ENQUANTO FALAVA DO HOMEM QUE ESTAVA AO LADO DELA NO ALTAR.
ELA, NO ENTANTO NÃO PODE DEIXAR DE PRESTAR ATENÇÃO NO QUE ELE DISSERA ‘EU DECIDI VOLTAR..’, SIM ELE HAVIA VOLTADO, PARA ELA? ERA TUDO O QUE ELA PRESCISVA SABER, ERA SÓ O QUE IMPORTAVA. ENTÃO, ABANDONANDO A TAÇA DE CHAMPANHE NUMA MESA PRÓXIMA ELA SEGUROU AS MÃOS DE GUSTAVO NAS SUAS ENQUANTO MURMURAVA OLHANDO BEM DENTRO DOS SEUS OLHOS.
‘-VAMOS SAIR DAQUI. TEMOS MUITO QUE CONVERSAR. EU QUERO FICAR SOZINHA COM VOCÊ.’
MESMO COM TODA INTENSIDADE DO OLHAR DA MULHER ELE NÃO PODE DEIXAR DE PERGUNTAR, COM UMA PONTA DE DOR NA VOZ.
‘-MAS... VOCÊ NÃO ESTAVA ACOMPANHADA?’
AMANDA RIU E ESTENDEU-LHE A JOÍA NO SEU PESCOÇO ENQUANTO RESPONDIA.
‘-SE EU ESTIVESSE COM ALGUÉM NÃO ESTARIA USANDO ISTO.’
FOI SÓ ENTÃO, QUE ELE VIU O CORAÇÃO DE DIAMANTES PENDURADO NA CORRENTE DOURADA QUE ELE HAVIA LHE DADO NA NOITE EM QUE HAVIAM SE TORNADO AMANTES. PROCUROU LUTAR CONTRA SUAS EMOÇÕES, MAS AS LÁGRIMAS INUNDARAM SUA FACE, E AMANDA SECOU-AS DELICADAMENTE E PUXOU-O PELAS MÃOS PARA QUE ELES SAISSEM DO SALÃO.
GUSTAVO SE DEIXOU LEVAR, EM QUATRO DIAS ERA A SEGUNDA VEZ QUE ELE ERA ARRASTADO PELAS MÃOS DE UMA MULHER. MAS, DESTA VEZ ELE ESTAVA BEM LÚCIDO, SABIA PARA ONDE ESTAVA INDO, IRIA PRA CASA, PELOS BRAÇOS DE SUA MULHER.
QUANDO CHEGARAM AO ESTACIONAMENTO QUASE DESERTO NÃO PUDERAM MAIS SE CONTER. GUSTAVO PUXOU-A PARA JUNTO DE SI E AMANDA SE ANINHOU NO CÍRCULO DOS SEUS BRAÇOS. FICARAM ASSIM, UM BOM TEMPO, ABRAÇADOS. ELE COMEÇOU A ACARICIAR-LHE OS CACHOS DOS CABELOS QUE ADORAVA. E ENTÃO ELA COMEÇOU A BEIJAR-LHE O PESCOÇO E A PROCURAR A SUA BOCA CHEIA DE DESEJO. ELE CORRESPONDEU AO BEIJO COM A MESMA INTENSIDADE ENQUANTO MANTINHA-NA PRESA EM SEUS BRAÇOS COMO SE TIVESSE MEDO DE QUE ELA FOSSE SUMIR.
‘-OH DEUS! COMO SENTI SUA FALTA!’AMANDA CONSEGUIU MURMURAR ENTRE SUSPIROS.
‘-EU TAMBÉM! EU TAMBÉM! FIQUEI LOUCO DE SAUDADES.’
ELA COMEÇOU A APERTÁ-LO, ACARICIAR SEU ROSTO SEUS CABELOS.
‘-É REAL! VOCÊ ESTÁ AQUI, DE VOLTA! COMIGO.’
‘-É CLARO QUE É REAL, SUA BOBA! ACHOU QUE FOSSE O QUE?’ E DESTA VEZ FOI ELE QUE BRINCOU COM ELA.
‘-AH! NÃO SEI, TALVEZ EFEITO DO CHAMPANHE.’
‘-EFEITO DO CHAMPANHE?! VOCÊ NEM MESMO CONSEGUIU BEBE-LO? EU BEM VI, A TAÇA NA SUA MÃO ESTAVA COMPLETAMENTE CHEIA E VOCÊ TREMIA COMO UMA LOUCA. FIQUEI COM MEDO DE QUE VOCÊ FOSSE DERRAMAR TUDO EM MIM.’
ELA DEU-LHE UM SOCO DE BRINCADEIRA NO PEITO E COMEÇOU A GARGALHAR.
‘-SEU... SACANA CONVENCIDO.’
‘-SOU UM SACANA CONVENCIDO, MAS FELIZ. SOU O SACANA CONVENCIDO MAIS FELIZ DO MUNDO, E TAMBÉM ESTOU TREMENDO. MINHAS PERNAS ESTÃO TÃO BAMBAS QUE ACHO QUE NÃO CONSIGO MAIS FICAR EM PÉ. PRA ONDE A SENHORA VAI ME LEVAR? OU SERÁ QUE VAMOS FICAR AQUI NESTE ESTACIONAMENTO O RESTO DA NOITE.’
AMANDA ABRAÇOU-O, BEIJOU-O COM TERNURA E FITOU-O NOS OLHOS.
‘-ADORO SEUS OLHOS. VAMOS, VAMOS PRA CASA.’
E NOVAMENTE ELA O PUXOU, DESTA VEZ NÃO SEGUROU-LHE AS MÃOS, MAS DEPENDUROU-SE NO SEU BRAÇO E ELES CAMINHARAM DE BRAÇOS DADOS ATÉ O TIGRA VERMELHO, AMANDA COMPLETAMENTE DEPENDURADA NO BRAÇO DE GUSTAVO QUE LUTAVA PARA CONSEGUIR CONTROLAR AS PROPRIAS PERNAS AINDA BAMBAS DE EMOÇÃO.
ELA LIGOU O CARRO E DEPOIS O RÁDIO QUE JÁ ESTAVA SINTONIZADO NA SUA ESTAÇÃO PREFERIDA. ENTÃO ELES OUVIRAM A ENTRADA DE UMA MELODIA MUITO FAMILIAR E A VOZ INCONFUNDIVEL DE TOM JOBIM
‘... EU, VOCÊ, NÓS DOIS...’
AMANDA SORRIU DIANTE DA COINCIDENCIA. HÁ QUASE CINCO MESES ELA NÃO OUVIA ESTA CANÇÃO. A CANÇÃO DELES E AGORA QUE ELES ESTAVAM ALI, DE VOLTA, QUE ELE ESTAVA ALI DE NOVO AO SEU LADO, A MÚSICA... GUSTAVO TAMBÉM SORRIA E ESPEROU OS ACORDES FINAIS PARA SEGUINDO A LETRA DA MÚSICA BEIJÁ-LA. SÓ ENTÃO ELA DEU A PARTIDA NO CARRO.
‘-SABE SE UMA COISA SENHORITA, EU SOU APAIXONADO POR VOCÊ.’
‘-EU TAMBÉM SOU APAIXONADA POR VOCÊ.’
‘-PRA ONDE VOCÊ ESTÁ ME LEVANDO, DONA.’
‘-ORA, SEU PALHAÇO, PRA CASA!’
‘-VOCÊ CONTINUA MORANDO LÁ?’ ELE LEMBROU-SE QUE NAS ÚLTIMAS CARTAS O PAI MENCIONARA ALGUMA COISA A RESPEITO DE AMANDA TER IDO PARA O APARTAMENTO, MAS NÃO ESTAVA DE TODO CERTO.
‘-NÃO. EU NÃO PUDE FICAR LÁ. NÃO SEM VOCÊ. ERA DOLOROSO DEMAIS. HÁ QUASE QUATRO MESES VOLTEI PARA O APARTAMENTO.’
‘-SEI.’
‘-MAS A CASA ESTÁ EM ORDEM. EU SEPAREI AS SUAS COISAS E COLOQUEI NO ESCRITÓRIO QUANDO O SEU PAI VEIO PEGAR O QUE VOCÊ PEDIU.’ ELA FALAVA COM A VOZ FIRME, MAS O TOM DEMONSTRAVA TRISTEZA.
‘-HUM!’
‘-EU NÃO SABIA O QUE IRIA ACONTECER. SE VOCÊ... SE NÓS... IRIAMOS... VOLTAR...’ E ELE PERCEBEU A DOR ESTAMPADA EM SEUS OLHOS.
‘-BOM, MOCINHA, AGORA VOCÊ JÁ SABE O QUE ACONTECEU.’
‘-É, E EU ESTOU MUITO FELIZ!’ AGORA ELA TINHA NO ROSTO AQUELE SORRISO QUE ELE ADORAVA.
‘-E LINDA, MARAVILHOSA, FABULOSA! MAS, UM POUQUINHO MAIS MAGRA.’
‘-ASSIM VOCÊ VAI ME DEIXAR CONVENCIDA, E VOCÊ TAMBÉM ESTÁ MAIS MAGRO. MAS TAMBÉM LINDO.’
‘-QUE BOM, QUEM SABE NÃO CONSEGUIMOS GANHAR ALGUM DINHEIRO COM ISTO?’ ELE COMEÇOU A RIR. AMANDA OLHOU-O SEM ENTENDER, MAS NÃO PODE DEIXAR DE RIR TAMBÉM.
‘-DINHEIRO? COMO? FICOU MALUCO?!’
‘-NÃO MESMO. VAMOS PATENTIAR O MÉTODO DE PERDER PESO DA Dra. AMANDA. É SÓ VOCÊ BRIGAR COM O SEU NAMORADO, ELE VIAJA E DESAPARECE POR CINCO MESES E ENTÃO, BINGO! VOCÊ VAI FICAR EM FORMA.’
‘-NÃO TEM GRAÇA.’AMANDA COMEÇOU A FALAR SÉRIO, MAS GUSTAVO GARGALHAVA TÃO ALTO QUE ELA NÃO PODE SE CONTER.
‘-EU TE AMO SABIA.’ FALOU GUSTAVO
‘-SABIA.’
‘-PRETENCIOSA, HEIM!’
‘-O QUE! VOCÊ VEM DE LOS ANGELES PRA ME CHAMAR DE PRETENCIOSA? COMO PODE?’
‘-É SIM, MAS EU A ADORO. E ADORO QUE VOCÊ SEJA ASSIM.’ ELE RIA ENQUANTO FITAVA O SEU PERFIL.
‘-ENTÃO NÓS FORMAMOS O CASAL PERFEITO, A PRETENCIOSA E O CONVÊNCIDO.’
COMO ERA GOSTOSO ESTAR AO LADO DELE NOVAMENTE, RINDO, BRINCANDO, ELES SEMPRE SE DIVERTIAM JUNTOS. A VIDA ERA TÃO MAIS INTERESSANTE AO LADO DELE. SOB O ÂNGULO DO SEU OLHAR, AO SOM DE SUAS GARGALHADAS, COM A SENSAÇÃO DO SEU TOQUE. ERA ISTO QUE FAZIA A DIFERENÇA, A CAPACIDADE QUE ELES TINHAM DE SE DIVERTIREM JUNTOS, DE BRINCAREM FEITO DUAS CRIANÇAS.
ELA SENTIU TODO O SEU CORPO SE ARREPIAR E UMA SENSAÇÃO DE DESEJO SUBIR-LHE POR ENTRE AS PERNAS QUANDO GUSTAVO COMEÇOU A ACARICIAR-LHE O PESCOÇO DENTRO DO CARRO.
‘-AH! QUE GOSTOSO SENTIR O SEU TOQUE.’
‘-TAMBÉM SENTI FALTA DE TOCAR EM VOCÊ, DO SEU CHEIRO, DO SEU BEIJO...’
‘-HUM, PARA COM ISTO, EU ESTOU TENTANDO DIRIGIR, DEIXA PELO MENOS EU CHEGAR EM CASA.’
ELA ESTACIONOU O TIGRA NA GARAGEM E ELES SUBIRAM AS ESCADS. AMANDA ENFIOU A CHAVE NA FECHADURA E GIROU. QUANDO ELA IA RODAR A MAÇANETA PARA ABRIR A PORTA GUSTAVO A CONTEVE.
‘-ESPERA.’ TOMOU-A NO COLO, BEIJOU-LHE OS LÁBIOS E ENTROU EM CASA. ELA TATEOU A MÃO PELA PAREDE PROCURANDO O INTERRUPTOR E A LUZ INUNDOU A SALA DE ESTAR. ERA A CASA DELES. E AGORA COM ELE DE VOLTA NÃO ESTAVA MAIS MORTA, E SIM CHEIA DE VIDA.
ELA COMEÇOU A BEIJA-LO CHEIA DE DESEJO E ELE CORRESPONDEU AO BEIJO SENTINDO UMA PONTA DE EXCITAÇÃO SUBIR-LHE PELO CORPO. AMANDA SUSSUROU AO SEU OUVIDO COM A VOZ SENSUAL
‘-EU TE AMO. ME FAZ TUA MULHER, NOVAMENTE.’
ELE ALCANÇOU O QUARTO, E ANTES QUE PUDESSEM RETIRAR A COLCHA QUE COBRIA A CAMA ELE JÁ ESTAVA LEVANTANDO-LHE O VESTIDO, ENQUANTO AMANDA ARRANCAVA-LHE O PALETÓ E DESABOTOAVA SUAS CALÇAS. E, ENTÃO ELES FIZERAM AMOR, MEIO VESTIDOS, MEIO NÚS, EM CIMA DA CAMA AINDA COBERTA, COM A FOME DOS AMANTES QUE CONHECEM AS DORES DA SEPARAÇÃO. DAQUELES QUE POR SE CONHECEREM TEEM A NOÇÃO EXATA DO QUE ESTAVAM PERDENDO. DO GRAU DE SUAS SAUDADES. E QUANDO ELE GOZOU DENTRO DELA, ELES PERMANECERAM JUNTOS, ABRAÇADOS. SENTINDO A RESPIRAÇÃO SE ACALMAR POUCO A POUCO, AINDA PARCIALMENTE VESTIDOS, SEMI NÚS.
DEPOIS ELE SE LEVANTOU E PUXOU-A PARA SI, E COMEÇOU A DESABOTOAR SEU VESTIDO. O CREPE AZUL ESCORREGOU PARA SEUS PÉS E ELA FICOU COMPLETAMENTE NUA DIANTE DELE. ELA DESABOTOOU A CAMISA DE GUSTAVO, TIROU-LHE A GRAVATA E ELE TAMBÉM ESTAVA NÚ DIANTE DELA.
‘-VOCÊ É LINDA! LINDA! É A MULHER MAIS LINDA QUE EU JÁ CONHECI!’
AMANDA APROXIMOU-SE DA CAMA E RETIROU A COLCHA ESPONDO O LENÇOL DE CETIM, E GUSTAVO A CONDUZIU PARA O LEITO E COMEÇOU A BEIJAR-LHE O CORPO, ACARICIANDO SEUS SEIOS E ENCHENDO-A DE DESEJO NOVAMENTE. ELA CORRESPODEU AS SUAS CARÍCIAS COM SUSSURROS DE AMOR E ENLAÇOU-LHE A CINTURA COM AS PERNAS, E ENTÃO ELES FIZERAM AMOR NOVAMENTE. DESTA VEZ, LENTAMENTE. DEVAGAR, SABOREANDO CADA MOMENTO DE PRAZER, E ADORMECERAM ABRAÇADOS.
ERAM QUASE QUATRO HORAS DA MANHÃ QUANDO ELES ACORDARAM. AMANDA SENTOU-SE NA CAMA COM AS MÃOS ENVOLVENDO OS JOELHOS DOBRADOS SOBRE O COLCHÃO, COMPLETAMENTE NUA. SOMENTE O CORAÇÃO DE DIAMENATES ESTAVA PENDURADO NO PESCOÇO. GUSTAVO PERMANECEU ESTENDIDO DE COSTAS.
‘-ADORO FAZER AMOR COM VOCÊ!’ELE FALOU ENQUANTO CORRIA OS DEDOS PELAS SUAS COSTAS.
‘-EU TAMBÉM.’
‘-E EU, ONDE FICO?!’ ELE PERGUNTOU E COMEÇOU A RIR.
‘-NÃO ENTENDI.’ FALOU AMANDA MESMO SABENDO QUE ELE ESTAVA FAZENDO PIADA COM ELA.
‘-EU FALEI QUE ADORO FAZER AMOR COM VOCÊ, E VOCÊ RESPONDEU: “EU TAMBÉM”, CONCLUSÃO: ESTOU SOBRANDO NESTA HISTÓRIA.’
‘-PALHAÇO! VOCÊ SABE O QUE EU QUIS DIZER, EU TAMBÉM ADORO FAZER AMOR COM VOCÊ!’
‘-MAS ISTO É UM DESCARAMENTO, EU ACABO DE LHE PROPORCIONAR O MAIOR PRAZER E VOCÊ ME CHAMANDO DE PALHAÇO.’
MAS ELES JÁ ESTAVAM RINDO, E AMANDA ABRAÇOU-O E O BEIJOU.
‘-AMOR, NÓS PRECISAMOS CONVERSAR. TEMOS MUITAS COISAS PARA ESCLARECER.’ ELA FALOU AGORA COM TOM SÉRIO.
‘-É VERDADE. TEMOS SIM, MAS ANTES EU TENHO QUE COMER ALGUMA COISA OU ENTÃO VOU DESMAIAR. EU ESTOU LOUCO DE FOME. NO VOÔ NÃO CONSEGUI COMER DE TÃO NERVOSO QUE ESTAVA E NEM NO HOTEL. E DEPOIS VOCÊ QUASE ME MATOU DE TANTO ESFORÇO. EU ACHO QUE VOU DESMAIAR SE NÃO COMER ALGUMA COISA.’
‘-AH, É! EU QUASE TE MATEI, SACANA! MAS VOCÊ BEM QUE GOSTOU.’
‘-ADOREI, MAS MESMO ASSIM ESTOU MORTO DE FOME.SERÁ QUE TEM ALGUMA COISA NA DESPENSA?’
‘-NADINHA. QUANDO EU ME MUDEI EU LEVEI TUDO. SÓ DEVE TER MESMO AGUÁ, E DO FILTRO PORQUE A GELADEIRA COM CERTEZA ESTÁ ZERADA.’
‘-PUTIS, E AGORA? SAIR A ESTA HORA NEM PENSAR, E COM ESTAS ROUPAS, SÓ SE QUISERMOS SER PRESOS.’
‘-JÁ SEI, PODEMOS LIGAR PRO “TODA HORA”.’
‘-GENIAL, É POR ISTO QUE EU ADORO SER CASADO COM UMA MULHER INTELIGENTE.’ ELE RIU FAZENDO GRAÇA
‘-BOBO.’
‘-VOU LIGAR E FAZER O PEDIDO.’
‘-OK! EU VOU ARRUMAR UMA MESA PRA NÓS COMERMOS, TÁ’
‘-A DA VARANDA.’ GRITOU GUSTAVO ENQUANTO AMANDA JÁ SE AFASTAVA.
‘-ADORO OLHAR VOCÊ CAMINHAR ASSIM, COMPLETAMENTE NUA.’
AMANDA SOLTOU UMA GARGALHADA, ENQUANTO ABRIA A PORTA QUE DAVA PARA A VARANDA.
ERA UMA VARANDA AMPLA E COMO A CASA FICAVA NO ALTO ELES TINHAM UMA VISTA PRIVILEGIADA. PODIAM ADMIRAR ARVÓRES, FLORES E PASSÁROS A SUA FRENTE A BAÍA DE SANTA LUZIA SE ABRIA COMPLETAMENTE, E ELES TINHAM UM BOCADO DE PRIVACIDADE ALI.
DESDE O INÍCIO DO CASAMENTO GUSTAVO ADORAVA TOMAR O CAFÉ DA MANHÃ ALI, E MUITAS VEZES ELES SE SENTAVAM COMPLETMANTE NÚS, DEPOIS DE FAZEREM AMOR, NA VARANDA PARA TOMAR UM DRINK OU APENAS CONVERSAR. ELA ADORAVA CONVERSAR COM ELE, ERA INTELIGENTE E DIVERTIDO. ALGUMAS VEZES ELES COMEÇAVAM A CONVERSA NO INÍCIO DA NOITE E QUANDO SE DAVAM CONTA ERA ALTA MADRUGADA. INUMERAS VEZES ELA JÁ ADORMECERA COM A CABEÇA EM SEUS OMBROS, E MUITAS OUTRAS VEZES, GUSTAVO JÁ HÁ HAVIA LEVADO PARA CAMA NOS BRAÇOS, MEIO ADORMECIDA. ERA SEMPRE UMA GOSTOSURA PARTILHAR AQUELES MOMENTOS JUNTOS. RIREM, FALAREM BOBAGENS, FAZEREM PLANOS, SE TOCAREM OU SIMPLISMENTE FICAR SENTADOS, BEM JUNTINHOS, DE MÃOS DADAS APRECIANDO A NOITE.
ELA VOLTOU AO QUARTO QUANDO E ELE ESTAVA SENTADO NA CAMA, ACABARA DE FAZER O PEDIDO.
‘-PRONTO. PEDIDO FEITO.’
‘-O QUE VOCÊ ESCOLHEU?’ ELA PERGUNTOU CURIOSA.
‘-AH! CROISSANTS, PRESUNTO, QUEIJO, GELÉIA, MANTEIGA, ÁGUA MINERAL, SUCO DE LARANJA, MORANGOS, E... CHAMPANHE.’
‘-CHAMPANHE?!?’
‘-‘É, DON PERGION, AFINAL PRESCISAMOS BRINDAR.’
‘-HUM, ADORO VOCÊ SABIA?’
NÃO DEMOROU MUITO PARA ELES OUVIREM A CAMPAINHA DA PORTA. GUSTAVO SE ENROLOU NO LENÇOL E FOI ATENDER A PORTA, MAS LOGO VOLTOU COM UM SORRISO DIVERTIDO NOS LÁBIOS.
‘-SERÁ QUE VOCÊ TEM ALGUM DINHEIRO? É QUE EU SÓ TENHO DÓLARES NA CARTEIRA.’
AMANDA NÃO PODE DEIXAR DE RIR, ABRIU A BOLSA E TIROU DUAS NOTAS ENTREGANDO-AS A GUSTAVO. ELE DESPACHOU O ENTREGADOR COM UMA GENEROSA GORGETA E CHAMOU-A
‘-AMOR, VEM. TÁ UMA DELÍCIA.’
ELES ABRIRAM OS PACOTES E ARRUMARAM A MESA. POR SORTE HAVIA GELO NO CONGELADOR E AMANDA ENCHEU O BALDE DE PRATA COLOCANDO DENTRO A GARRAFA DE CHAMPANHE. ELES COMEÇARAM A COMER COM GRANDE APETITE, ESTAVAM FAMINTOS. DEPOIS QUE ESTAVAM PLENAMENTE SATISFEITOS, GUSTAVO ABRIU A GARRAFA DE CHAMPANHE E ELES BRINDARAM.
‘-A NÓS.’ELE FALOU
‘-A NÓS.’
MAS AMANDA ASSUMIU UM AR SÉRIO ENQUANTO SABOREAVA O CHAMPANHE. ELES PRESCISAVAM CONVERSAR. TINHAM MUITA COISA PARA COLOCAR EM ORDEM, PONTOS A SEREM ESCLARECIDOS ANTES DE RETOMAREM A SUA VIDA EM COMUM.
‘-GUSTAVO, PRESCISAMOS CONVERSAR.’
‘-EU SEI.’ ELE TAMBÉM ESTAVA SÉRIO.
‘-EU TE AMO. TE AMO DEMAIS, E NUNCA MAIS QUERO FICAR LONGE DE VOCÊ.’
‘-MEU AMOR EU TAMBÉM TE AMO. E TAMBÉM NÃO QUERO MAIS FICAR LONGE DE VOCÊ.’
‘-EU DETESTEI A EXPERIÊNCIA DE TE PERDER. E HOJE SEI MAIS DO QUE NUNCA QUE A MINHA VIDA NÃO FAZ SENTIDO SEM VOCÊ AO MEU LADO. É TUDO TÃO VAZIO, TÃO TRISTE, TÃO MORTO... AH! MEU AMOR EU O AMO!’
ELA ESTAVA LEMBRANDO DOS ÚLTIMOS CINCO MESE DE SUA VIDA. COMO HAVIAM SIDO SEM SENTIDO. NEM MESMO O PRAZER DA MEDICINA HÁ PREENCHIA, E ELA ERA APAIXONADA PELA SUA PROFISSÃO. MAS... SEM ELE NADA FAZIA SENTIDO, NADA TINHA IMPORTÂNCIA. ERA COMO SE ELA FOSSE APENAS UMA SOBREVIVENTE.
‘-GUSTAVO, EU SEI QUE VOCÊ TINHA RAZÃO NAQUELE DIA HORRÍVEL. A MAIOR PARTE DAS COISAS QUE VOCÊ ME DISSE ESTAVA CORRETA. EU FIU MESMO MUITO EGOISTA...’
‘-AH, NÃO! QUERIDA, EU ESTAVA TRANSTORNADO.’MAS AMANDA POUSOU OS DEDOS SOBRE OS LÁBIOS DELE.
‘-NÃO, VOCÊ ESTAVA CERTO. UMA RELAÇÃO ENVOLVE UM CASAL. DUAS PESSOAS, NÃO PODE SER UMA VIA UNILATERAL. EU NÃO POSSO QUERER TOMAR AS DECISÕES IMPORTANTES SEM VOCÊ. AS DECISÕES TÊM QUE SER TOMADAS EM CONJUNTO. NÓS DOIS SOMOS RESPONSÁVEIS POR ESTA RELAÇÃO. ME PERDOA! ME PERDOA, POR TUDO. EU QUERO RECOMEÇAR AO SEU LADO, E QUERO QUE VOCÊ PARTICIPE COMIGO. QUERO COMPARTILHAR COM VOCÊ A MINHA VIDA, DE VERDADE, INTEIRA, PLENA. EU TE AMO. ME PERDOA.’
GUSTAVO ABRAÇOU-A E ENTÃO OLHOU-A BEM DENTRO DOS OLHOS.
‘-AH MEU AMOR, MEU GRANDE E ÚNICO AMOR. NÃO HÁ O QUE SER PERDOADO. EU TAMBÉM ERREI. EU TAMBÉM TIVE A MINHA PARCELA DE CULPA. EU DEVIA TER MANIFESTADO A MINHA INSATISFAÇÃO E NÃO TER FICADO CALADO, PASSIVO, ACEITANDO TUDO. VOCÊ NÃO TINHA COMO SABER QUE EU ESTAVA INSATISFEITO, EU NÃO TE CONTAVA. UM RELACIONAMENTO COMO VOCÊ MESMA DISSE É UMA VIA DE MÃO DUPLA. MAS EU A VI PASSAR, E SIMPLISMENTE A SEGUI. NÃO FUI CAPAZ DE MOSTRAR-LHE QUE HAVIA OUTRO CAMINHO O QUAL EU GOSTARIA DE SEGUIR. ACHO QUE FALTOU DIALOGO.
ELA O ABRAÇO E ENXUGOU AS LÁGRIMAS DO ROSTO, ENQUANTO ELE PROSSEGUIA
‘-ENGRAÇADO, NÓS NOS CONHECEMOS TANTO, E ACHO QUE POR ISTO IMAGINAMOS QUE SABIAMOS TUDO. QUE NÃO ERAM NESCESSÁRIAS PALAVRAS. MAS ELAS SÃO FUNDAMENTAIS, ELAS SÃO MUITO IMPORTANTES COMUNICAM AO OUTRO OS NOSSOS SENTIMENTOS, NOSSAS DÚVIDAS, INCERTESAS. FOI O QUE EU NÃO FIZ. SE VOCÊ ERROU POR EXCESSO, EU O FIZ POR OMISSÃO. MEU AMOR, EU TAMBÉM TENHO QUE PEDIR PERDÃO.’
ELES SE ABRAÇARAM E PERMANECERAM JUNTOS, OS CORPOS UNIDOS, SENTIDO O CALOR UM DO OUTRO. ENTÃO AMANDA COMEÇOU A FALAR DESPREOCUPADAMENTE.
‘-SABE DE UMA COISA. EU ANDEI PENSANDO MUITO E CHEGUEI A CONCLUSÃO DE QUE QUERO UM FILHO, QUERO O SEU FILHO.’ E SORRIU PARA ELE.
GUSTAVO FICOU DESCONCERTADO, NÃO ESPERAVA POR AQUILO.
‘-COMO É QUE É?’
‘-É ISTO MESMO, EU QUERO TER UM BEBÊ.’
‘-MAS O QUE DEU EM VOCÊ, AMANDA? ACHO QUE VOCÊ É MALUCA? PORQUE ISTO AGORA?’
‘-POR NADA. ESTIVE PENSANDO, ALIÁS NESTES ÚLTIMOS CINCO MESES EU NÃO FIZ OUTRA COISA. E CHEGUEI A CONCLUSÃO DE QUE EU TINHA MEDO DE TER FILHOS.’
‘-MEDO?’
‘-É, SIM. EU TINHA MEDO DE NÃO SER UMA BOA MÃE, DE NÃO SER TÃO COMPETENTE COMO SOU NA MINHA PROFISSÃO. MEDO DE NÃO CORRESPONDER AS SUAS EXPECTATIVAS, PORQUE VOCE VAI SER UM PAI MARAVILHOSO.’
‘-GAROTA, VOCÊ É PATETA! É CLARO QUE VOCÊ VAI SER UMA SUPER MÃE, E, EU TE AMO. TE AMO DE QUALQUER JEITO. MESMO QUE NUNCA TENHAMOS UM FILHO.’
‘-MAS EU QUERO! EU QUERO TER O SEU BEBÊ.’
ENTÃO COMO ELE JÁ FIZERA INUMERAS VEZES, TOMOU-A NOS BRAÇOS E LEVOU-A PARA CAMA ONDE ELES SE AMARAM MAIS UMA VEZ.
QUANDO ELA ACORDOU COM UM ENORME SORRISO DE PRAZER NO ROSTO ELE JÁ ESTAVA DESPERTO E SENTADO AO SEU LADO. ELA OLHOU-O BEM DENTRO DOS OLHOS E FALOU
‘-EI, MOCINHO. AQUELA PROPOSTA DE CASAMENTO AINDA ESTÁ DE PÉ?’
ELE ACHOU QUE ESTIVESSE SONHANDO. O QUE ERA AQUILO?!, PRIMEIRO O FILHO E DEPOIS O CASAMENTO. ESTAVA PERDIDO EM SEUS PENSAMENTOS QUANDO ELA O CHAMOU
‘-EI, O QUE É ISTO AGORA, DEPOIS DE TUDO QUE VOCÊ FEZ COMIGO ESTÁ NOITE, NÃO SEJA CANALHA. TRATE DE FAZER DE MIM UMA MULHER DECENTE.’E ELA COMEÇOU A RIR DA CARA DE ESPANTO QUE ELE FAZIA.
‘-MENINA, VOCÊ É COMPLETMAMENTE LOUCA, É CLARO QUE A PROPOSTA ESTÁ DE PÉ. SEMPRE ESTEVE. QUER CASAR COMIGO?
‘-É A COISA QUE EU MAIS QUERO EM TODA VIDA.’
AMANDA CHEGOU DO HOSPITAL QUASE SETE HORAS DA NOITE. GUSTAVO ESTAVA SENTADO NA VARANDA CONCENTRADO LENDO UM PEDAÇO DE PAPEL.
‘-OI, BOA NOITE!’ ELA O CUMPRIMENTOU ABRAÇANDO-O E VIRANDO-LHE O ROSTO PARA BEIJAR-LHE A BOCA.
‘-OI!’
‘-O QUE VOCÊ ESTÁ LENDO?’
‘-A SUA CARTA, AQUELA QUE VOLTOU.’
‘-AH, A CARTA.’
E AMANDA SE RECORDOU DA NOITE EM QUE DECIDIRA SEU FUTURO.
‘-EI, TIVE UMA IDÉIA GENIAL. VOCÊ AINDA TEM AQUELES DIAS DE FOLGA QUE MENCIONOU AQUI?’
‘-CLARO! EU IRIA VIAJAR NO FIM DA SEMANA.’AMANDA ESTAVA INTRIGADA, O QUE ELE ESTARIA PLANEJANDO?
‘-EI MOÇA, SENTE-SE AQUI.’ELE FALOU ENQUANTO PUXAVA-A PARA O SEU COLO. ‘-UAU! ACHO QUE VOCÊ JÁ ENGORDOU UM POUQUINHO.’
‘-BABACA. ISTO NÃO É ALGO QUE SE DIGA A UMA MULHER QUE ACABOU DE CHEGAR DO TRABALHO.’ELA FALOU ENLAÇANDO-LHE O PESCOÇO E DANDO-LHE UMA BITOCA.
‘-QUE TAL SE NÓS FOSSEMOS A PARIS, PARA NOSSA LUA-DE-MEL?’
‘-PARIS, HUM!!! ADOREI A IDÉIA.DEMAIS.’
‘-APROVADO?’
‘-TOTALMENTE, SABE QUE VOCÊ É UM BABACA MUITO INTELIGENTE?’
‘-AH! É CLARO QUE SOU! PORQUE É QUE VOCÊ ACHA QUE EU INSISTI EM ME CASAR COM VOCÊ?’
‘-AGORA VOCÊ ME PEGOU, PORQUE?’
‘-PRA ME GARANTIR. SE MINHA CARREIRA DE DIRETOR FRACASSAR, EU SEI QUE NÃO VOU MORRER DE FOME, AFINAL MINHA MULHER É UMA MÉDICA DE SUCESSO.’
‘-E QUEM GARANTE QUE EU VOU QUERER SUSTENTÁ-LO?’
‘-EU.’
‘-AH, É? PORQUE TODA ESTA CERTEZA?’
‘-MUITO FÁCIL, VOCÊ NÃO VAI ACHAR NINGUÉM COM O MEU CHARME E QUE SATISFAÇA TODAS AS SUAS FANTASIAS SEXUAIS.’
‘-COMO É QUE É? VOCÊ VAI TROCAR SEXO POR COMIDA? AFINAL QUEM É VOCÊ? UM GIGOLÔ?’
‘-É ISTO AÍ, BELEZINHA. SOU SEU GIGOLÔ PARTICULAR, E VOCÊ BEM QUE GOSTA.’
‘-EU ADORO! E POR SEUS SERVIÇOS DOU TUDO, CASA, COMIDA E ROUPA LAVADA.’
ELES COMEÇARAM A RIR DA BRINCADEIRA.
‘-MAS FALANDO SÉRIO, QUE TAL PARIS?’
‘-APROVADO MEU AMOR. VOU ADORAR REVER PARIS AO SEU LADO.’
‘-ENTÃO VOU FAZER OS PREPARATIVOS, OK!’
‘-DEIXO TUDO POR SUA CONTA.’
‘-QUANDO É QUE NÓS PODEMOS VIAJAR?’
‘-ME DÊ UMA SEMANA. PROGRAME O EMBARQUE PARA A PRÓXIMA QUARTA-FEIRA, EU VOU AJEITAR AS COISAS E VER SE CONSIGO MAIS ALGUNS DIAS. COM SORTE PODEREMOS FICAR LÁ POR DUAS SEMANAS.’
AMANDA SAIU DO GABINETE DO Prof. CARLOS HENRIQUE RADIANTE. ELA CONSEGUIRA O QUE QUERIA.
HÁ UM ANO ELA JÁ NÃO DAVA MAIS PLANTÃO NO HOSPITAL DE CLÍNICAS, E NAQUELA MANHÃ JÁ HAVIA ACERTADO TUDO NO CENTRO MUNICIPAL, IRIA CUMPRIR O AVISO PRÉVIO QUANDO VOLTASSE DE VIAGEM E ENTÃO NÃO TRABALHARIA MAIS ALI. SUAS MANHÃS AGORA SERIAM DEDICADAS A FAZER A ROTINA DO SERVIÇO DE EMERGÊNCIA CARDIOLÓGICA DO HOSPITAL UNIVERSITÁRIO.CONTINUARIA A DAR AULAS NA FACULDADE E A TRABALHAR NA CLÍNICA DE HIPERTENSÃO, POIS ESTE ERA SEU PROJETO PESSOAL. NÃO TRABALHARIA MAIS NO ECO, COMO MÉTODO COMPLEMENTAR HAVIA ESCOLHIDO O TESTE ERGOMÉTRICO, AS TARDES DE TERÇA E QUINTA ELA AGORA DEDICARIA AO SEU CONSULTÓRIO PARTICULAR.
QUANDO RECEBERA HÁ QUATRO MESES O PRÊMIO DE REVELAÇÃO MÉDICA PELO SEU PROJETO DO AMBULATÓRIO DE HIPERTENSÃO, AMANDA NÃO TEVE DÚVIDAS EM COMO IRIA EMPREGAR O DINHEIRO. CONVERSOU COM REBECA E ELAS COMEÇARAM AS OBRAS DO CONSULTÓRIO QUE SEMPRE SONHARAM. AINDA IRIA DEMORAR ALGUNS MESES ATÉ TUDO ESTAR PRONTO, E ATÉ LÁ ELA AINDA CONTINUARIA NO ECO, MAS O PROJETO JÁ ESTAVA GANHANDO FORMA. E QUANDO ELA PASSAVA NO LOCAL PARA INSPECIONAR AS OBRAS FICAVA CHEIA DE VIDA. ERA COMO UM FILHO, ASSIM COMO O AMBULATÓRIO DE HIPERTENSÃO. ERA MAIS UM FILHO.
E FOI ESTA SENSAÇÃO DE MATERNIDADE QUE A FEZ DECIDIR PELA MUDANÇA. ELA JÁ NÃO ERA MAIS TÃO JOVEM, SE QUISESSE DAR UM FILHO AO HOMEM QUE AMAVA TERIA QUE SER AGORA, E ELA QUERIA. NÃO SÓ DAR UM FILHO A ELE, QUERIA UM FILHO DELE. FICOU IMAGINANDO COMO SERIA SENTIR AQUELA VIDA CRESCENDO DENTRO DE SI. TENTANDO ADIVINHAR COMO SERIA SUA CARINHA, GOSTARIA QUE FOSSE UM MENINO COM OS OLHOS VERDES COMO OS DE GUSTAVO.
FOI POR ISTO QUE PROCUROU O Prof. CARLOS HENRIQUE, QUERIA DEIXAR OS PLANTÕES DA EMERGÊNCIA. SE QUISESSE TER UM FILHO TERIA QUE REFORMULAR SEUS HORÁRIOS, DIMINUIR A CARGA DE TRABALHO. A PRINCÍPIO ELE NÃO GOSTARA DA IDÉIA, AMANDA ERA UMA PROFISSIONAL DE ALTO GABARITO E PERDER A SUA LIDERANÇA NA EMERGÊNCIA CARDIOLÓGICA NÃO LHE AGRADAVA.MAS ELA ESTAVA DECIDIDA. HÁ SEIS ANOS ELA ERA PLANTONISTA DO SERVIÇO, ESTAVA CANSADA DE PASSAR AS NOITES DE TERÇA E SEXTA FORA DE CASA, E SABIA QUE SE NÃO DIMINUISSE A CARGA DE TRABALHO NÃO DARIA CONTA. ELA NÃO ADMITIA SE AFASTAR DO AMBULATÓRIO DE HIPERTENSÃO, E NEM PODIA. ERA A CHEFE DO SERVIÇO E ERA O SEU SUSTENTÁCULO, COM SEU ENTUSIASMO QUE CONTAGIAVA OS MÉDICOS, RESIDENTES E ALUNOS.
CARLOS HENRIQUE NÃO TEVE ESCOLHA, FOI OBRIGADO A CEDER. AMANDA JÁ TINHA OS SEUS SUBSTITUTOS, DOIS RESIDENTES QUE ESTAVAM TERMINADO O R3 EM CARDIOLOGIA E QUE ERAM DE ALTÍSSIMO PADRÃO. ELA SABIA QUE ELES ESTAVAM PRONTOS, AMBOS JÁ HAVIAM ESTAGIADO NA EMERGÊNCIA SOB A SUPERVISÃO DA PRÓPRIA AMANDA QUE SE ENTUSIASMARA COM A COMPETÊNCIA E DEDICAÇÃO DELES. QUANDO ELA FEZ-LHE A PROPOSTA OS DOIS FICARAM RADIANTES, ERA TUDO O QUE ELES QUERIAM. AMANDA SÓ PRESCISAVA DO AVAL DO Prof. CARLOS HENRIQUE, MAS NÃO TINHA DÚVIDAS, ELES ERAM OS INDICADOS DO ANO PARA INTEGRAR O STAFF PERMANENTE DO HOSPITAL.
QUANDO FINALMENTE ACERTARAM A MUDANÇA DE HORÁRIOS E ATRIBUIÇÕES DE AMANDA E CARLOS HENRIQUE ACHOU QUE PODERIA BATER UM PAPO AMENO COM A SUA AMIGA ELA LHE BOMBARDEOU COM MAIS UM PEDIDO. PRESCISAVA DE FÉRIAS. JÁ TINHA ARRANJADO TUDO, OS SUBISTITUTOS SERIAM OS PRÓPRIOS RESIDENTES QUE IRIAM ASSUMIR OS PLANTÕES QUANDO ELA SAÍSSE, SERIA UMA FORMA DE TEREM CERTEZA, O TESTE FINAL DA CAPACIDADE DELES. O AMBULATÓRIO FICARIA SOB A SUPERVISÃO DO Dr. FELIPE, E A AGENDA DO CIC JÁ ESTAVA FECHADA. MAIS UMA VEZ CARLOS HENRIQUE NÃO PODE NEGAR O PEDIDO. REALMENTE AMANDA TRABALHAVA MUITO E ELA REALMENTE MERECIA.
DEPOIS DE ACERTAR TUDO ELA DEIXOU O HOSPITAL NO SEU TIGRA VERMELHO E FOI PARA CASA.
NA QUARTA-FEIRA ELES ESTAVAM COM TUDO PRONTO E AGUARDAVAM NO AEROPORTO O VOÔ PARA PARIS.
‘-EU TENHO ALGO PARA LHE CONTAR.’
‘-ESTOU OUVINDO.’
‘-O QUE VOCÊ ACHA SE EU DISSER QUE QUANDO VOLTARMOS DE VIAGEM EU NÃO VOU MAIS DAR PLANTÃO NA EMERGÊNCIA?’
‘-NÃO VAI MAIS DAR PLANTÃO? COMO ASSIM?’
‘-É ISTO QUE VOCÊ OUVIU, EU ME DEMITI ONTEM.’
‘-SE DEMITIU? MAS... AMANDA, PORQUE? VOCÊ GOSTAVA TANTO? SERÁ QUE NÃO VAI SENTIR FALTA?’ GUSTAVO PERGUNTAVA ATONITO.
‘-COM CERTEZA VOU SENTIR FALTA, MAS VOU PRESCISAR DE MAIS TEMPO DISPONÍVEL, POIS DIZEM QUE OS BEBÊS SÃO LINDOS MAS DÃO MUITO TRABALHO.’ ELA FALOU FINGINDO DESPREOCUPAÇÃO.
‘-O QUE?!?’ GUSTAVO NÃO ESTAVA ACREDITANDO NO QUE OUVIA.
‘-VOCÊ OUVIU O QUE EU DISSE MUITO BEM.’E ELA O ENCAROU SORRINDO.
‘-OUVI, MAS... ACHO QUE ESTOU SONHANDO. ISTO QUER DIZER QUE... VOCÊ...’
E ELE COMEÇOU A SORRIR FEITO UMA CRIANÇONA GRANDE.
‘-É ISTO MESMO, EU ESTOU GRÁVIDA. NÓS VAMOS TER UM BEBÊ!’
ELES SE ABRAÇARAM E ELE A BEIJAVA CHEIO DE CARINHO,QUANDO SOOU A VOZ NO SAGUÃO DO AEROPORTO.
‘-PASSAGEIROS COM DESTINO A PARIS NO VOÔ 331 DA FRANCES AIRLINES, QUEIRAM EMBARCAR NO PORTÃO D.’
FIM
Caminhos Cruzados Cap 56
‘-BOA NOITE!’
‘-AH! BOA NOITE!’RESPONDEU GUSTAVO.
‘-VOCÊ ESTÁ TÃO ISOLADO, ALGUM MOTIVO ESPECIAL?!’PERGUNTOU A BELA MULHER LOIRA.
‘-NENHUM, ÀS VEZES GOSTO DE ME AFASTAR UM POUCO E APRECIAR O MOVIMENTO DE LONGE, VOCÊ CONSEGUE VER AS PESSOAS DE ÂNGULOS INESPERADOS.’
‘-HUM! MUITO OBSERVADOR.’
GUSTAVO SORRIU E ELE TINHA UM SORRISO ENCANTADOR.
‘-VOCÊ NÃO É AMERICANO, É?’
‘-NÃO. SOU BRASILEIRO.’
‘-AH! VOCÊ É O DIRETOR BRASILEIRO DE QUEM TENHO OUVIDO FALAR?’
‘-GUSTAVO FIGUEIRA, PRAZER.’
‘-PRAZER, EU SOU RACHELLE MIRRI.’
‘-EU ASSISTI A SUA ESTRÉIA NA ÚLTIMA SEMANA, VOCÊ ESTAVA FANTÁSTICA.’
‘-VOCÊ GOSTOU.’ELA TINHA UM TOM MALICIOSO NA VOZ
‘-MUITO.’
‘-OBRIGADO. NOSSA ESTÁ TÃO QUENTE....’ SEUS OLHOS AZUIS FITAVAM GUSTAVO CHEIOS DE DESEJO QUANDO ELA FALAVA. ELE ESTAVA SE SENTINDO LIGEIRAMENTE DESCONFORTÁVEL, MAS ESTAVA GOSTANDO.
‘-VOCÊ QUER SAIR UM POUCO, IR ATÉ A VARANDA...’
ANTES QUE ELE PUDESSE TERMINAR A FRASE A ATRIZ CONCORDOU E ENVOLVEU SUA MÃO NA DELE PUXANDO-O PARA FORA DO SALÃO. HÁ MUITO TEMPO ELE NÃO SEGURAVA A MÃO DE UMA MULHER DESTE JEITO, ERA ESTRANHO, ESTAVA ACOSTUMADO AS MÃOS DE AMANDA QUE ERAM GRANDES COM DEDOS LONGOS E FINOS. ELE AS ADORAVA, ERAM DECIDIDAS, TINHAM PERSONALIDADE. RACHELLE TINHA MÃOS PEQUENAS E DELICADAS. ELE SE PERMITIU OLHAR PARA A MULHER A SUA FRENTE. ELA ERA MAIS BAIXA QUE ELE, ERA MAIS BAIXA QUE AMANDA TAMBÉM. NÃO MUITO, MAS ERA MAIS BAIXA. O CORPO ERA MENOR, MAIS ESTREITO. O VESTIDO PRETO DE FRENTE ÚNICA EXPUNHA AS COSTAS NUAS COM UM DECOTE QUE IA ATÉ A ALTURA DOS QUADRIS. E ELA TINHA COSTAS LINDAS, OMBROS DELICADOS, UM QUADRIL ESTREIRO, MAS VOLUMOSO. ELE SENTIU UMA PONTADE DE EXCITAÇÃO PERCORRER-LHE O CORPO E SE ASSUSTOU. HÁ MUITO TEMPO NENHUMA OUTRA MULHER LHE DESPERTAVA ESTAS SENSAÇÕES.
PORQUE ELE SEMPRE TINHA QUE PENSAR NELA? SEMPRE AMANDA? PROCUROU SE CONCENTRAR E SE LEMBRAR DA NOITE EM QUE VIU RACHELLE NO TEATRO. NO ATO FINAL DA PEÇA ELA APARECIA COMPLETAMENTE NUA. ERA UMA CENA RÁPIDA, LOGO APÓS A CORTINA CAIA ENCERRANDO O ESPETÁCULO E A PENUMBRA TAMBÉM DISFARÇAVA A NUDEZ, MAS MESMO ASSIM ELE NÃO TINHA DEIXADO DE REPARAR QUE ELA ERA MUITO BONITA E TINHA UM BELO CORPO. SENTIU-SE NOVAMENTE EXCITADO. ENTÃO RACHELLE VIROU-SE E OLHOU-O BEM DENTRO DOS OLHOS. AQUELES OLHOS AZUIS CONTRASTANDO COM A PELO CLARA E OS CABELOS LOIROS MUITO LISOS. ELE SE SENTIU DESCONFORTÁVEL, DESVIOU O OLHAR. ELA ERA REALMENTE DESCIDIDA, COMPLETAMENTE DIFERENTE DE AMANDA QUE ERA TIMIDA, PELO MENOS ATÉ ATINGIREMA A INTIMIDADE. RACHELLE ACARICIOU-LHE OS CABELOS E MURMUROU
‘-VOCÊ É MUITO BONITO.’
‘-VOCÊ TAMBÉM.’
SEM QUE ELE SE DESSE CONTA, ELA LHE OFERECEU A BOCA QUE ELE BEIJOU ARDENTEMENTE, E ELE SE SENTIU NOVAMENTE EXCITADO.
‘-SABE, EU TAMBÉM NÃO GOSTO MUITO DE BARULHO, MUITA AGITAÇÃO. VOCÊ NÃO PREFERE IR A UM LUGAR MAIS CALMO, TRANQUILO, AONDE POSSAMOS NOS CONHECER MELHOR?’ ELA MURMURAVA SEDUTORA.
GUSTAVO CONCORDOU COM UM GESTO MUDO DE CABEÇA E ELA SEGUROU-LHE A MÃO NOVAMENTE E ARRASTOU-O PELA VARANDA. ELES CONTORNARAM A PARTE EXTERNA DO SALÃO E ENTRARAM NO HOTEL SEM SEREM VISTOS. SOMENTE MIKE PERCEBEU QUE OS DOIS SE AUSENTARAM DA FESTA, MAS FICOU ALIVIADO. HÁ MUITO VINHA TENTANDO CONVENCER GUSTAVO A SAIR E CONHECER OUTRAS MULHERES, SEM SUCESSO.
RACHELLE O CONDUZIU A SUITE PRINCIPAL DO HOTEL AONDE ELA ESTAVA HOSPEDADA. DURANTE O CAMINHO GUSTAVO NÃO HAVIA SE DADO CONTA DO QUE ESTAVA ACONTECENDO. QUANDO SE VIU NAQUELE QUARTO, SOZINHO COM AQUELA MULHER, A LEMBRANÇA DE AMANDA QUIS PENETRAR EM SUA MENTE, MAS ELE A AFASTOU COM A FORÇA DO DESEJO QUE RACHELLE LHE DESPERTOU COM SEUS BEIJOS ARDENTES. ELE CORRESPONDEU AOS BEIJOS, ABRAÇANDO-A E COMEÇOU A ACARICIAR-LHE OS SEIOS POR SOBRE O VESTIDO, SENTIA-SE COMPLETAMENTE EXCITADO. RACHELLE SE AFASTOU UM POUCO, ELE TIROU O PALETÓ DO SMOKING E FICOU PARADO DIANTE DELA QUE COMEÇOU A DE DESPIR NUN STRIPTEASE PARTICULAR. O VESTIDO CAIU A SUES PÉS E ELE VISLUMBROU A CORPO QUASE COMPLETAMENTE NÚ A SUA FRENTE. ANTES QUE ELE PUDESSE SE APROXIMAR, ELA TIROU A CALCINHA E ENTÃO FICOU COMPLETAMENTE NUA DIANTE DELE, QUE AINDA ESTAVA VESTIDO. ELA SE APROXIMOU E ELES SE BEIJARAM CHEIOS DE DESEJO, E QUANDO ELA ESCORREGOU A MÃO PELO CORPO DELE E TENTOU ABRIR-LHE O FECHO DA CALÇA ELE RECUOU.
‘-EU N ÃO POSSO! NÃO. EU... SOU... APAIXONADO POR OUTRA MULHER...’
RACHELLE FICOU FURIOSA, NÃO ESTAVA ACOSTUMADA A SER DESPREZADA DESTA FORMA.
‘-E DAÍ? QUAL É O PROBLEMA? VOCÊ ME DESEJOU MESMO ASSIM’
‘-ME DESCULPE. EU NÃO POSSO. EU... SIMPLESMENTE NÃO POSSO. EU...’
‘-SEU CANALHA! QUEM VOCÊ PENSA QUE É? E AGORA?! COM QUE CARA EU VOU VOLTAR PARA A FESTA?’ RACHELLE ESBRAVEJAVA, SEU ROSTO ESTAVA VERMELHO ENQUANTO ELA SE VESTIA.
‘-DESCULPE...’ FOI SÓ O QUE ELE CONSEGUIU MURMURAR.
ELE FICOU PARADO NO MEIO DO QUARTO ENQUANTO ELA SE VESTIA COMPLETAMENTE TRANSTORNADA ESBRAVEJANDO EM ITALIANO. QUANDO RACHELLE DESAPARECEU PARA O INTERIOR DO BANHEIRO, GUSTAVO PEGOU O PALETÓ E SAIU.
CAMINHAVA PELA NOITE DE LOS ANGELES COMPLETAMENTE ATONITO, ENTROU NUM DOS MUITOS PUB’S QUE PERMANECIAM SEMPRE ABERTOS NESTA CIDADE, SENTOU-SE NUM RESERVADO E PEDIU UM WISK. ENQUANTO ESPERAVA DUAS LÁGRIMAS ESCORRERAM POR SUA FACE. O GARSON FOI DISCRETO QUANDO ESTREGOU O PEDIDO E SE AFASTOU ACOSTUMADO A CENAS COMO AQUELA.
GUSTAVO BEBEU AINDA MAIS ALGUMAS DOSES ANTES DE SAIR, ESTAVA LIGEIRAMENTE ALTO, MAS NÃO EMBRIAGADO. SUA MENTE ESTAVA LÚCIDA E ELE TINHA PLENA CERTEZA DE QUE HAVIA TOMADO A DECISÃO CORRETA COM RACHELLE, CHEGOU AO APARTAMENTO E MIKE O ESPERAVA ACORDADO.
‘-AONDE VOCÊ ESTAVA?’
‘-DESCULPE, EU PRECISAVA CAMINHAR, PENSAR UM POUCO, TOMAR ALGUMAS DECISÕES.’
‘-O QUE ACONTECEU? A RACHELLE ESTAVA FURIOSA.’
‘-NADA. NÃO ACONTECEU NADA.’
‘-MAS... VOCÊS FORAM A SUITE DELA?’ PERGUNTOU MIKE CURIOSO.
‘- FOMOS, MAS... EU NÃO PUDE FAZER NADA. EU... EU SOU APAIXONADO PELA AMANDA.’
‘-VOCÊ DEU O FORA NA RACHELLE?’ MIKE AGORA ESTAVA ESPANTADO, MAS ACHANDO TUDO MUITO DIVERTIDO.
‘-EU RECEIO QUE TENHA SIDO UM POUCO PIOR...’
‘-PIOR?’ELE AGORA ESTAVA CURIOSO.
‘-É. EU DISSE NÃO QUANDO ELA JÁ ESTAVA COMPLETAMENTE NUA, E FIU EMBORA.’
‘-PUTA QUE PARIU! VOCÊ REALMENTE ESTRPOLOU. MAS... SABE QUE EU ATÉ GOSTEI, A RACHELLE SEMPRE SE ACHOU A TAL. TAÍ, VOCÊ QUEBROU A BANCA DELA.’ ELE AGORA ESTAVA SE DIVERTINDO EM IMAGINAR A CENA.
‘-É PODE SER, MAS NÃO ERA A MINHA INTENSÃO. E EU ESTOU ME SENTINDO PÉSSIMO POR ISTO.’
‘-PORQUE? POR AMAR SUA MULHER?’
‘-NÃO! CLARO QUE NÃO! ESTOU PÉSSIMO PORQUE FIU BASTANTE GROSSO E NÃO GOSTO DISSO. AH! DEIXA PRÁ LÁ.’
‘-BOM, E AGORA?’
‘-EU VOU VOLTAR PARA O BRASIL.’
‘-QUANDO?’
‘-DAQUI A QUATRO DIAS.’
‘-JÁ?’
‘-JÁ. EU NÃO POSSO MAIS FICAR LONGE DELA. EU PRECISO SABER SE ELA AINDA ME QUER.’ ELE TINHA UM TOM APREENCIVO NA VOZ QUE DENOTAVA A SUA INSEGURANÇA.
‘-E O QUE VOCÊ ACHA?.’ MIKE FALOU TENTANDO IMPRIMIR UM TOM OTIMISTA NA VOZ.
‘-NÃO SEI. SÓ TENHO CERTEZA DE QUE EU A AMO, COM TODOS OS DEFEITOS E QUALIDADES. ELA É A MULHER DA MINHA VIDA. MAS NÃO POSSO CONTINUAR ME ESCONDENDO AQUI, TENHO QUE SABER; TENHO QUE DEFINIR MINHA VIDA.’
‘-E... SE ELA NÃO O QUISER MAIS.’O AMIGO FOI BASTANTE CAUTELOSO AO FORMULAR A PERGUNTA, MAS ACHOU QUE TINHA A OBRIGAÇÃO DE FAZÊ-LO PENSAR.
‘-EU VOU SOFRER, VOU SOFRER MUITO. MAS AINDA ASSIM É MELHOR DO QUE ESTA DÚVIDA. E DEPOIS, VOU PARTIR PRA OUTRA. SEI QUE NUNCA VOU AMAR OUTRA MULHER COMO A AMO, MAS AINDA ASSIM, TEREI QUE SEGUIR EM FRENTE.’
MIKE ABRAÇOU O AMIGO.
‘-BOA SORTE. E, SE TUDO DER CERTO EU QUERO CONHECE-LA, POIS ELA DEVE SER MUITO ESPEDCIAL.’ ELE PROCUROU COLOCAR UM TOM TRIVIAL NA VOZ.
‘-É SIM. ELA É REALMENTE MUITO ESPECIAL.’
***
‘-AH! BOA NOITE!’RESPONDEU GUSTAVO.
‘-VOCÊ ESTÁ TÃO ISOLADO, ALGUM MOTIVO ESPECIAL?!’PERGUNTOU A BELA MULHER LOIRA.
‘-NENHUM, ÀS VEZES GOSTO DE ME AFASTAR UM POUCO E APRECIAR O MOVIMENTO DE LONGE, VOCÊ CONSEGUE VER AS PESSOAS DE ÂNGULOS INESPERADOS.’
‘-HUM! MUITO OBSERVADOR.’
GUSTAVO SORRIU E ELE TINHA UM SORRISO ENCANTADOR.
‘-VOCÊ NÃO É AMERICANO, É?’
‘-NÃO. SOU BRASILEIRO.’
‘-AH! VOCÊ É O DIRETOR BRASILEIRO DE QUEM TENHO OUVIDO FALAR?’
‘-GUSTAVO FIGUEIRA, PRAZER.’
‘-PRAZER, EU SOU RACHELLE MIRRI.’
‘-EU ASSISTI A SUA ESTRÉIA NA ÚLTIMA SEMANA, VOCÊ ESTAVA FANTÁSTICA.’
‘-VOCÊ GOSTOU.’ELA TINHA UM TOM MALICIOSO NA VOZ
‘-MUITO.’
‘-OBRIGADO. NOSSA ESTÁ TÃO QUENTE....’ SEUS OLHOS AZUIS FITAVAM GUSTAVO CHEIOS DE DESEJO QUANDO ELA FALAVA. ELE ESTAVA SE SENTINDO LIGEIRAMENTE DESCONFORTÁVEL, MAS ESTAVA GOSTANDO.
‘-VOCÊ QUER SAIR UM POUCO, IR ATÉ A VARANDA...’
ANTES QUE ELE PUDESSE TERMINAR A FRASE A ATRIZ CONCORDOU E ENVOLVEU SUA MÃO NA DELE PUXANDO-O PARA FORA DO SALÃO. HÁ MUITO TEMPO ELE NÃO SEGURAVA A MÃO DE UMA MULHER DESTE JEITO, ERA ESTRANHO, ESTAVA ACOSTUMADO AS MÃOS DE AMANDA QUE ERAM GRANDES COM DEDOS LONGOS E FINOS. ELE AS ADORAVA, ERAM DECIDIDAS, TINHAM PERSONALIDADE. RACHELLE TINHA MÃOS PEQUENAS E DELICADAS. ELE SE PERMITIU OLHAR PARA A MULHER A SUA FRENTE. ELA ERA MAIS BAIXA QUE ELE, ERA MAIS BAIXA QUE AMANDA TAMBÉM. NÃO MUITO, MAS ERA MAIS BAIXA. O CORPO ERA MENOR, MAIS ESTREITO. O VESTIDO PRETO DE FRENTE ÚNICA EXPUNHA AS COSTAS NUAS COM UM DECOTE QUE IA ATÉ A ALTURA DOS QUADRIS. E ELA TINHA COSTAS LINDAS, OMBROS DELICADOS, UM QUADRIL ESTREIRO, MAS VOLUMOSO. ELE SENTIU UMA PONTADE DE EXCITAÇÃO PERCORRER-LHE O CORPO E SE ASSUSTOU. HÁ MUITO TEMPO NENHUMA OUTRA MULHER LHE DESPERTAVA ESTAS SENSAÇÕES.
PORQUE ELE SEMPRE TINHA QUE PENSAR NELA? SEMPRE AMANDA? PROCUROU SE CONCENTRAR E SE LEMBRAR DA NOITE EM QUE VIU RACHELLE NO TEATRO. NO ATO FINAL DA PEÇA ELA APARECIA COMPLETAMENTE NUA. ERA UMA CENA RÁPIDA, LOGO APÓS A CORTINA CAIA ENCERRANDO O ESPETÁCULO E A PENUMBRA TAMBÉM DISFARÇAVA A NUDEZ, MAS MESMO ASSIM ELE NÃO TINHA DEIXADO DE REPARAR QUE ELA ERA MUITO BONITA E TINHA UM BELO CORPO. SENTIU-SE NOVAMENTE EXCITADO. ENTÃO RACHELLE VIROU-SE E OLHOU-O BEM DENTRO DOS OLHOS. AQUELES OLHOS AZUIS CONTRASTANDO COM A PELO CLARA E OS CABELOS LOIROS MUITO LISOS. ELE SE SENTIU DESCONFORTÁVEL, DESVIOU O OLHAR. ELA ERA REALMENTE DESCIDIDA, COMPLETAMENTE DIFERENTE DE AMANDA QUE ERA TIMIDA, PELO MENOS ATÉ ATINGIREMA A INTIMIDADE. RACHELLE ACARICIOU-LHE OS CABELOS E MURMUROU
‘-VOCÊ É MUITO BONITO.’
‘-VOCÊ TAMBÉM.’
SEM QUE ELE SE DESSE CONTA, ELA LHE OFERECEU A BOCA QUE ELE BEIJOU ARDENTEMENTE, E ELE SE SENTIU NOVAMENTE EXCITADO.
‘-SABE, EU TAMBÉM NÃO GOSTO MUITO DE BARULHO, MUITA AGITAÇÃO. VOCÊ NÃO PREFERE IR A UM LUGAR MAIS CALMO, TRANQUILO, AONDE POSSAMOS NOS CONHECER MELHOR?’ ELA MURMURAVA SEDUTORA.
GUSTAVO CONCORDOU COM UM GESTO MUDO DE CABEÇA E ELA SEGUROU-LHE A MÃO NOVAMENTE E ARRASTOU-O PELA VARANDA. ELES CONTORNARAM A PARTE EXTERNA DO SALÃO E ENTRARAM NO HOTEL SEM SEREM VISTOS. SOMENTE MIKE PERCEBEU QUE OS DOIS SE AUSENTARAM DA FESTA, MAS FICOU ALIVIADO. HÁ MUITO VINHA TENTANDO CONVENCER GUSTAVO A SAIR E CONHECER OUTRAS MULHERES, SEM SUCESSO.
RACHELLE O CONDUZIU A SUITE PRINCIPAL DO HOTEL AONDE ELA ESTAVA HOSPEDADA. DURANTE O CAMINHO GUSTAVO NÃO HAVIA SE DADO CONTA DO QUE ESTAVA ACONTECENDO. QUANDO SE VIU NAQUELE QUARTO, SOZINHO COM AQUELA MULHER, A LEMBRANÇA DE AMANDA QUIS PENETRAR EM SUA MENTE, MAS ELE A AFASTOU COM A FORÇA DO DESEJO QUE RACHELLE LHE DESPERTOU COM SEUS BEIJOS ARDENTES. ELE CORRESPONDEU AOS BEIJOS, ABRAÇANDO-A E COMEÇOU A ACARICIAR-LHE OS SEIOS POR SOBRE O VESTIDO, SENTIA-SE COMPLETAMENTE EXCITADO. RACHELLE SE AFASTOU UM POUCO, ELE TIROU O PALETÓ DO SMOKING E FICOU PARADO DIANTE DELA QUE COMEÇOU A DE DESPIR NUN STRIPTEASE PARTICULAR. O VESTIDO CAIU A SUES PÉS E ELE VISLUMBROU A CORPO QUASE COMPLETAMENTE NÚ A SUA FRENTE. ANTES QUE ELE PUDESSE SE APROXIMAR, ELA TIROU A CALCINHA E ENTÃO FICOU COMPLETAMENTE NUA DIANTE DELE, QUE AINDA ESTAVA VESTIDO. ELA SE APROXIMOU E ELES SE BEIJARAM CHEIOS DE DESEJO, E QUANDO ELA ESCORREGOU A MÃO PELO CORPO DELE E TENTOU ABRIR-LHE O FECHO DA CALÇA ELE RECUOU.
‘-EU N ÃO POSSO! NÃO. EU... SOU... APAIXONADO POR OUTRA MULHER...’
RACHELLE FICOU FURIOSA, NÃO ESTAVA ACOSTUMADA A SER DESPREZADA DESTA FORMA.
‘-E DAÍ? QUAL É O PROBLEMA? VOCÊ ME DESEJOU MESMO ASSIM’
‘-ME DESCULPE. EU NÃO POSSO. EU... SIMPLESMENTE NÃO POSSO. EU...’
‘-SEU CANALHA! QUEM VOCÊ PENSA QUE É? E AGORA?! COM QUE CARA EU VOU VOLTAR PARA A FESTA?’ RACHELLE ESBRAVEJAVA, SEU ROSTO ESTAVA VERMELHO ENQUANTO ELA SE VESTIA.
‘-DESCULPE...’ FOI SÓ O QUE ELE CONSEGUIU MURMURAR.
ELE FICOU PARADO NO MEIO DO QUARTO ENQUANTO ELA SE VESTIA COMPLETAMENTE TRANSTORNADA ESBRAVEJANDO EM ITALIANO. QUANDO RACHELLE DESAPARECEU PARA O INTERIOR DO BANHEIRO, GUSTAVO PEGOU O PALETÓ E SAIU.
CAMINHAVA PELA NOITE DE LOS ANGELES COMPLETAMENTE ATONITO, ENTROU NUM DOS MUITOS PUB’S QUE PERMANECIAM SEMPRE ABERTOS NESTA CIDADE, SENTOU-SE NUM RESERVADO E PEDIU UM WISK. ENQUANTO ESPERAVA DUAS LÁGRIMAS ESCORRERAM POR SUA FACE. O GARSON FOI DISCRETO QUANDO ESTREGOU O PEDIDO E SE AFASTOU ACOSTUMADO A CENAS COMO AQUELA.
GUSTAVO BEBEU AINDA MAIS ALGUMAS DOSES ANTES DE SAIR, ESTAVA LIGEIRAMENTE ALTO, MAS NÃO EMBRIAGADO. SUA MENTE ESTAVA LÚCIDA E ELE TINHA PLENA CERTEZA DE QUE HAVIA TOMADO A DECISÃO CORRETA COM RACHELLE, CHEGOU AO APARTAMENTO E MIKE O ESPERAVA ACORDADO.
‘-AONDE VOCÊ ESTAVA?’
‘-DESCULPE, EU PRECISAVA CAMINHAR, PENSAR UM POUCO, TOMAR ALGUMAS DECISÕES.’
‘-O QUE ACONTECEU? A RACHELLE ESTAVA FURIOSA.’
‘-NADA. NÃO ACONTECEU NADA.’
‘-MAS... VOCÊS FORAM A SUITE DELA?’ PERGUNTOU MIKE CURIOSO.
‘- FOMOS, MAS... EU NÃO PUDE FAZER NADA. EU... EU SOU APAIXONADO PELA AMANDA.’
‘-VOCÊ DEU O FORA NA RACHELLE?’ MIKE AGORA ESTAVA ESPANTADO, MAS ACHANDO TUDO MUITO DIVERTIDO.
‘-EU RECEIO QUE TENHA SIDO UM POUCO PIOR...’
‘-PIOR?’ELE AGORA ESTAVA CURIOSO.
‘-É. EU DISSE NÃO QUANDO ELA JÁ ESTAVA COMPLETAMENTE NUA, E FIU EMBORA.’
‘-PUTA QUE PARIU! VOCÊ REALMENTE ESTRPOLOU. MAS... SABE QUE EU ATÉ GOSTEI, A RACHELLE SEMPRE SE ACHOU A TAL. TAÍ, VOCÊ QUEBROU A BANCA DELA.’ ELE AGORA ESTAVA SE DIVERTINDO EM IMAGINAR A CENA.
‘-É PODE SER, MAS NÃO ERA A MINHA INTENSÃO. E EU ESTOU ME SENTINDO PÉSSIMO POR ISTO.’
‘-PORQUE? POR AMAR SUA MULHER?’
‘-NÃO! CLARO QUE NÃO! ESTOU PÉSSIMO PORQUE FIU BASTANTE GROSSO E NÃO GOSTO DISSO. AH! DEIXA PRÁ LÁ.’
‘-BOM, E AGORA?’
‘-EU VOU VOLTAR PARA O BRASIL.’
‘-QUANDO?’
‘-DAQUI A QUATRO DIAS.’
‘-JÁ?’
‘-JÁ. EU NÃO POSSO MAIS FICAR LONGE DELA. EU PRECISO SABER SE ELA AINDA ME QUER.’ ELE TINHA UM TOM APREENCIVO NA VOZ QUE DENOTAVA A SUA INSEGURANÇA.
‘-E O QUE VOCÊ ACHA?.’ MIKE FALOU TENTANDO IMPRIMIR UM TOM OTIMISTA NA VOZ.
‘-NÃO SEI. SÓ TENHO CERTEZA DE QUE EU A AMO, COM TODOS OS DEFEITOS E QUALIDADES. ELA É A MULHER DA MINHA VIDA. MAS NÃO POSSO CONTINUAR ME ESCONDENDO AQUI, TENHO QUE SABER; TENHO QUE DEFINIR MINHA VIDA.’
‘-E... SE ELA NÃO O QUISER MAIS.’O AMIGO FOI BASTANTE CAUTELOSO AO FORMULAR A PERGUNTA, MAS ACHOU QUE TINHA A OBRIGAÇÃO DE FAZÊ-LO PENSAR.
‘-EU VOU SOFRER, VOU SOFRER MUITO. MAS AINDA ASSIM É MELHOR DO QUE ESTA DÚVIDA. E DEPOIS, VOU PARTIR PRA OUTRA. SEI QUE NUNCA VOU AMAR OUTRA MULHER COMO A AMO, MAS AINDA ASSIM, TEREI QUE SEGUIR EM FRENTE.’
MIKE ABRAÇOU O AMIGO.
‘-BOA SORTE. E, SE TUDO DER CERTO EU QUERO CONHECE-LA, POIS ELA DEVE SER MUITO ESPEDCIAL.’ ELE PROCUROU COLOCAR UM TOM TRIVIAL NA VOZ.
‘-É SIM. ELA É REALMENTE MUITO ESPECIAL.’
***
Caminhos Cruzados Cap 55
‘-ESTÁ ÓTIMO. A CARGA VIRAL PRATICAMENTE ZEROU E OS MARCADORES CD4 E CD8 ESTÃO EM ALTA. ESTOU MUITO FELIZ.’
‘-QUE NOTÍCIA MARAVILHOSA, GIULIA.’ FELIPE ESTAVA EUFÓRICO
‘-É MESMO ALGO PARA SE COMEMORAR.’ AFIRMOU JEAN IGUALMENTE FELIZ
‘-VOCÊ TEM IDEIA DO QUE ISTO REPRESENTA?’
‘-IMAGINO.’
‘-ACHO QUE VOCÊ NÃO TEM REALMENTE IDÉIA. COM ESTA CARGA VIRAL É PRATICAMENTE IMPOSSÍVEL FAZER INFECÇÃO SECUNDÁRIA. SE CONSEGUIRMOS MANTER ESTES PARÂMETROS VAMOS TER UMA ÓTIMA EVOLUÇÃO.’
QUANDO ELES SAIRAM DO CONSULTÓRIO DA INFECTOLOGISTA EXIBIAM UM SORRISO CONTAGIANTE NO ROSTO. A FELICIDADE ESTAVA ESTAMPADA NOS OLHOS DE CADA UM, CRUZARAM COM COLEGAS NOS CORREDORES E A NENHUM DELES PASSOU DESAPERCEBIDO A FELICIDADE CONTAGIANTE DOS DOIS.
‘-FELIPE, TEMOS QUE COMEMORAR. VAMOS SAIR PARA DANÇAR ESTA NOITE.’
‘-EU VOU ADORAR.’
AS COISAS ESTAVAM VOLTANDO AO LUGAR, FELIPE VINHA EXIBINDO UMA EVOLUÇÃO ALTAMENTE FAVORÁVEL. NÃO APRESENTARA MAIS DIARRÉIA OU QUALQUER OUTRA MANIFESTAÇÃO DA DOENÇA, TINHA GANHADO PESO, ESTAVA CORADO E ATIVO. VINHA TRABALHANDO INCANSAVELMENTE NO AMBULATÓRIO DE TRANSPLANTES E ERA PEÇA FUNDAMENTAL NO SUCESSO DA UNIDADE JUNTAMENTE COM AMANDA. ELES DESENVOLVERAM UMA CAMARADAGEM E ATUAVAM JUNTOS COMO UMA EQUIPE. A CARDIOLOGISTA ESTAVA AGUARDANDO A INDICAÇÃO DE FELIPE PARA O STAFF DO SERVIÇO DE PEDIATRIA, E DEPOIS ELA IRIA INDICA-LO PARA A CHEFIA DO AMBULATÓRIO.
JEAN ESTAVA BEM ADIANTADO NAS SUAS PESQUISAS, A INVESTIGAÇÃO DE NOVAS ANASTOMOSES PARA O TRANSPLANTE HEPÁTICO IRIA SER UM SUCESSO, OS COBAIS ESTAVAM TENDO UMA RECUPERAÇÃO NITIDAMENTE SUPERIOR E UM TEMPO DE CIRURGIA SENSIVELMENTE MENOR. ISTO SIGNIFICAVA MELHOR EVOLUÇÃO, MENOR CUSTO E MENOR NÚMERO DE COMPLICAÇÕES. QUANDO O PROFESSOR MANOELITO ANALISOU OS RESULTADOS PRELIMINARES DA PESQUISA NÃO TEVE DÚVIDAS DE QUE NO PRÓXIMO ANO ELE SERIA UM FORTE CANDIDATO AO PREMIO JOVEM CIENTISTA OFERECIDO PELO MINISTÉRIO DA PESQUISA E DA CIÊNCIA.
ELES ESTAVAM NUM MOMENTO ILUMINADO DE SUAS VIDA E ATÉ MESMO O RELACIONAMENTO ÍNTIMO ESTAVA MARAVILHOSO. ELES HAVIAM APRENDIDO A SE PROTEGER E A SEREM CUIDADOSOS. E QUANDO ESTAVAM EM CASA ASSISTINDO A UM FILME NA TV, CONVERSANDO, OUVINDO MÚSICA, ELES SE SENTIAM COMO UM CASAL, UMA FAMILIA. PARECIA LÓGICO E CERTO QUE ELES VOLTASSEM A PENSAR EM ADOTAR UMA CRIANÇA.
AMBOS ERAM LOUCOS POR CRIANÇA, JEAN SEMPRE SONHARA SER PAI. FELIPE TAMBÉM ADORAVA, NÃO PODIA SER DIFERENTE ELE ERA PEDIATRA, MAS TINHA DÚVIDAS. NÃO SABIA SE ERA CORRETO. ENVOLVER UMA CRIANÇA NISTO? ELES ERAM ADULTOS, TINHAM CONSCIÊNCIA DA ESCOLHA QUE FIZERAM, MAS UMA CRIANÇA? ELA NÃO IRIA SOFRER COM O PRECONCEITO?
JEAN TINHA CERTEZA DE QUE ERA CERTO. PORQUE NÃO? VAMOS TIRAR UMA CRIANÇA DA RUA, DO ORFANATO, DAR-LHE UM LAR. VAMOS AMÁ-LA, PROTEGE-LA, DAR-LHE OPORTUNIDADE DE SER ALGUÉM. ACHO QUE ESTAREMOS FAZENDO UM BEM, É CLARO QUE VAI HAVER PRECONCEITO, MAS NÃO EXISTE PARA AS CRIANÇAS NEGRAS, PARA AS POBRES, FILHOS DE MÃE SOLTEIRA? ACHO QUE PODEMOS FAZER UMA CRIANÇA FELIZ, FELIPE.
ENTÃO ELES CONCORDARAM QUE IRIAM COMEÇAR A MOVER O PROCESSO DE ADOÇÃO, PRIMEIRO UMA CRIANÇA QUE SERIA ADOTADA POR JEAN. FELIPE SUGERIU QUE ADOTASSEM UMA CRIANÇA PORTADORA DO HIV, SERIA UMA FORMA DE AJUDAR E OFERECER UM FUTURO QUE DE OUTRA FORMA ESTA CRIANÇA NÃO TERIA, JEAN CONCORDOU.
***
‘-QUE NOTÍCIA MARAVILHOSA, GIULIA.’ FELIPE ESTAVA EUFÓRICO
‘-É MESMO ALGO PARA SE COMEMORAR.’ AFIRMOU JEAN IGUALMENTE FELIZ
‘-VOCÊ TEM IDEIA DO QUE ISTO REPRESENTA?’
‘-IMAGINO.’
‘-ACHO QUE VOCÊ NÃO TEM REALMENTE IDÉIA. COM ESTA CARGA VIRAL É PRATICAMENTE IMPOSSÍVEL FAZER INFECÇÃO SECUNDÁRIA. SE CONSEGUIRMOS MANTER ESTES PARÂMETROS VAMOS TER UMA ÓTIMA EVOLUÇÃO.’
QUANDO ELES SAIRAM DO CONSULTÓRIO DA INFECTOLOGISTA EXIBIAM UM SORRISO CONTAGIANTE NO ROSTO. A FELICIDADE ESTAVA ESTAMPADA NOS OLHOS DE CADA UM, CRUZARAM COM COLEGAS NOS CORREDORES E A NENHUM DELES PASSOU DESAPERCEBIDO A FELICIDADE CONTAGIANTE DOS DOIS.
‘-FELIPE, TEMOS QUE COMEMORAR. VAMOS SAIR PARA DANÇAR ESTA NOITE.’
‘-EU VOU ADORAR.’
AS COISAS ESTAVAM VOLTANDO AO LUGAR, FELIPE VINHA EXIBINDO UMA EVOLUÇÃO ALTAMENTE FAVORÁVEL. NÃO APRESENTARA MAIS DIARRÉIA OU QUALQUER OUTRA MANIFESTAÇÃO DA DOENÇA, TINHA GANHADO PESO, ESTAVA CORADO E ATIVO. VINHA TRABALHANDO INCANSAVELMENTE NO AMBULATÓRIO DE TRANSPLANTES E ERA PEÇA FUNDAMENTAL NO SUCESSO DA UNIDADE JUNTAMENTE COM AMANDA. ELES DESENVOLVERAM UMA CAMARADAGEM E ATUAVAM JUNTOS COMO UMA EQUIPE. A CARDIOLOGISTA ESTAVA AGUARDANDO A INDICAÇÃO DE FELIPE PARA O STAFF DO SERVIÇO DE PEDIATRIA, E DEPOIS ELA IRIA INDICA-LO PARA A CHEFIA DO AMBULATÓRIO.
JEAN ESTAVA BEM ADIANTADO NAS SUAS PESQUISAS, A INVESTIGAÇÃO DE NOVAS ANASTOMOSES PARA O TRANSPLANTE HEPÁTICO IRIA SER UM SUCESSO, OS COBAIS ESTAVAM TENDO UMA RECUPERAÇÃO NITIDAMENTE SUPERIOR E UM TEMPO DE CIRURGIA SENSIVELMENTE MENOR. ISTO SIGNIFICAVA MELHOR EVOLUÇÃO, MENOR CUSTO E MENOR NÚMERO DE COMPLICAÇÕES. QUANDO O PROFESSOR MANOELITO ANALISOU OS RESULTADOS PRELIMINARES DA PESQUISA NÃO TEVE DÚVIDAS DE QUE NO PRÓXIMO ANO ELE SERIA UM FORTE CANDIDATO AO PREMIO JOVEM CIENTISTA OFERECIDO PELO MINISTÉRIO DA PESQUISA E DA CIÊNCIA.
ELES ESTAVAM NUM MOMENTO ILUMINADO DE SUAS VIDA E ATÉ MESMO O RELACIONAMENTO ÍNTIMO ESTAVA MARAVILHOSO. ELES HAVIAM APRENDIDO A SE PROTEGER E A SEREM CUIDADOSOS. E QUANDO ESTAVAM EM CASA ASSISTINDO A UM FILME NA TV, CONVERSANDO, OUVINDO MÚSICA, ELES SE SENTIAM COMO UM CASAL, UMA FAMILIA. PARECIA LÓGICO E CERTO QUE ELES VOLTASSEM A PENSAR EM ADOTAR UMA CRIANÇA.
AMBOS ERAM LOUCOS POR CRIANÇA, JEAN SEMPRE SONHARA SER PAI. FELIPE TAMBÉM ADORAVA, NÃO PODIA SER DIFERENTE ELE ERA PEDIATRA, MAS TINHA DÚVIDAS. NÃO SABIA SE ERA CORRETO. ENVOLVER UMA CRIANÇA NISTO? ELES ERAM ADULTOS, TINHAM CONSCIÊNCIA DA ESCOLHA QUE FIZERAM, MAS UMA CRIANÇA? ELA NÃO IRIA SOFRER COM O PRECONCEITO?
JEAN TINHA CERTEZA DE QUE ERA CERTO. PORQUE NÃO? VAMOS TIRAR UMA CRIANÇA DA RUA, DO ORFANATO, DAR-LHE UM LAR. VAMOS AMÁ-LA, PROTEGE-LA, DAR-LHE OPORTUNIDADE DE SER ALGUÉM. ACHO QUE ESTAREMOS FAZENDO UM BEM, É CLARO QUE VAI HAVER PRECONCEITO, MAS NÃO EXISTE PARA AS CRIANÇAS NEGRAS, PARA AS POBRES, FILHOS DE MÃE SOLTEIRA? ACHO QUE PODEMOS FAZER UMA CRIANÇA FELIZ, FELIPE.
ENTÃO ELES CONCORDARAM QUE IRIAM COMEÇAR A MOVER O PROCESSO DE ADOÇÃO, PRIMEIRO UMA CRIANÇA QUE SERIA ADOTADA POR JEAN. FELIPE SUGERIU QUE ADOTASSEM UMA CRIANÇA PORTADORA DO HIV, SERIA UMA FORMA DE AJUDAR E OFERECER UM FUTURO QUE DE OUTRA FORMA ESTA CRIANÇA NÃO TERIA, JEAN CONCORDOU.
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